Cerca de 15 dias após a depressão Kristin ter causado um grau de destruição como não há memória na região, O Portomosense falou com alguns empresários para tentar perceber como é que as suas empresas foram afetadas e se já têm uma quantificação dos prejuízos.
A Airemármores, empresa de extração e transformação de calcários e mármores portugueses, sediada no Codaçal (Serro Ventoso) inaugurou, em dezembro de 2023, na Corredoura (Porto de Mós), a primeira Aireloja, «um conceito de loja física e online dedicado à venda de materiais de construção e decoração de exteriores». O espaço, outrora ocupado por umas oficinas, ganhou nova vida e uma estética a condizer, no entanto, em poucos minutos tudo se alterou.
Pavilhões desabaram por completo
Com a força do vento, nessa madrugada de muito má memória, «três pavilhões, que ocupavam uma área de cerca 1 800 m2 desabaram por completo». Por baixo do que restou ficaram «quatro camiões e máquinasque, ainda foi possível recuperar, assim como alguns materiais». Já na pedreira, no Codaçal, cairam alguns postes de eletricidade. «Ficámos uns dias sem trabalhar, só com as máquinas a gasóleo. Todos os equipamentos a energia elétrica estiveram três ou quatro dias parados até que conseguimos comprar um gerador na Holanda», conta Francisca Barroso, da gerência da Airemármores. De acordo com a responsável, tudo aponta para um prejuízo nunca inferior a 700 mil euros.
Não muito longe da Corredoura, na Fonte dos Marcos, uma exploração de produção animal gerida pela Vasco Saraiva Vala, Unipessoal, Lda, mostra inúmeras marcas da destruição que a tempestade trouxe consigo. Dos oito pavilhões, cada um deles com 400 m2, não há um único que não tenha sido afetado. «Cinco ficaram com as coberturas completamente arriadas, os restantes sofreram menos danos mas mesmo assim é necessário intervir em todo o espaço», explica Vasco Vala.
Onze cabeças de gado mortas e milhares de euros de prejuízo
De acordo com o responsável, a exploração conta com mais de 1 000 ouvinos e cerca de 30 bovinos. Apesar das coberturas terem caído para cima das manjedouras, perderam-se “apenas” 11 cabeças de gado.
A preocupação com o bem-estar dos restantes animais tem sido uma constante. «Eu e a pessoa com quem mantenho a parceria na parte dos ovinos, já retirámos a maioria para explorações de pessoas amigas que trabalham no mesmo ramo, os que restam estão num pavilhão, numa zona que não é afetada pela chuva. Os bovinos também foram retirados logo na quarta-feira. Era impensável deixar os animais à chuva e ao frio e sem as devidas condições para os alimentar», sublinha.

Também por aqui o cálculo dos prejuízos ainda não está fechado mas o empresário avança que só «para voltar a pôr coberturas completas serão necessários sempre entre 400 a 500 mil euros».
Apesar dos prometidos apoios do Estado e da banca se mostrar disponível para colaborar na recuperação das muitas empresas afetadas, Vasco Vala equaciona, para já, uma solução de recurso.
“E quem paga o crédito?”
«Eu percebo que a urgência de pôr as coisas a funcionar é grande mas não posso estar a investir em cima do joelho e como eu muitos outros empresários. Ok, os bancos têm linhas de crédito e com a garantia dada pelo Estado conseguir um empréstimo fica mais fácil. Pode até, depois, haver uma moratória de um ano, mas após esse período quem é que paga as prestações? É que para alguns de nós é quase como começar do zero. Vamo-nos endividar e depois quem paga?», questiona.
«Temos que aguardar para ver se o Estado com o apoio da União Europeia consegue linhas a fundo perdido, não digo a 70 ou 80% mas a 40 ou a 50% para aliviar a carga das empresas porque é impensável reconstruir fábricas ou, no nosso caso, explorações, se os apoios não rondarem esses valores», reforça.
A intenção de Vasco Vala é tentar, para já, «arranjar três ou quatro pavilhões» não com as condições ideais, como seria desejável, mas o suficiente «para conseguir mantê-los a trabalhar a 30 ou 40%». Para isso, confessa que gostaria de contar com o apoio da Câmara e da Junta, acreditando que se estas entidades puderem ajudar com alguns materiais e, eventualmente, com alguma mão de obra, poderá recuperar a atividade mais rapidamente. A rápida ajuda da E-Redes também seria bem-vinda para recuperar a parte elétrica afetada porque enquanto não o conseguir terá, por exemplo, de continuar, de dois em dois dias, a bater à porta dos bombeiros, para fornecerem os 15 mil litros de água que necessita para dar de beber aos animais.
Enorme contrariedade à parte, o empresário elogia a total disponibilidade que tem encontrado por parte dos bombeiros, bem como a ajuda de pessoas amigas e de outros colegas do setor. Na altura do nosso contacto estava a ultimar o agendamento de reuniões com Câmara e Junta para mostrar aos responsáveis o estado em que ficou a exploração e ver, então, se será possível ter de ambas algum tipo de apoio.
Empresas param por falta de energia elétrica
Na Calvaria de Cima, a Sococica, empresa de construção civil e comércio de materiais de construção, viu «um quarto do pavilhão principal» ser arrancado pela força do vento e «um terço do barracão das máquinas» também cair. Teve ainda danos nos vidros de uma máquina. Segundo, o responsável, Nelson Silva, para repor tudo nas devidas condições terá de gastar «à volta de 10 mil euros».
A Revesperfil, empresa com sede na Ribeira de Baixo (Porto de Mós), especializada em perfis, revestimentos, pavimentos flutuantes, teve o seu principal prejuízo fora do concelho, numa unidade que possui em Ourém revelou ao nosso jornal, o responsável, Diogo Santo. Ali «uma parte do edifício ruiu». Já em Porto de Mós, enquanto a sede escapou sem estragos significativos, em São Jorge, na nova unidade que a empresa adquiriu, o edifício perdeu parte do telhado. «Felizmente, não choveu, dentro das instalações, o que teria sido mais problemático porque temos lá algum material e como trabalhamos muito com madeira seria perda total», disse o empresário.
Aos prejuízos resultantes dos estragos nas instalações, juntam-se os da paragem da fábrica por falta de energia elétrica: «Tivemos três ou quatro dias em que não pudemos fazer praticamente nada. Tínhamos um gerador mas não estava a funcionar a 100% e além disso não tinha potência para manter toda a fábrica. Foram dias em que, por força das circunstâncias, trabalhámos de forma muito precária, com poucas pessoas e algumas secções encerradas», recorda Diogo Santo.
Fotos | Jéssica Silva e DR




