No dia 28 de janeiro amanhecemos com medo. É assim sempre que nos sentimos fora do controlo. A mãe Natureza decidiu por nós e deixou-nos com telhas partidas, árvores caídas, postes no chão, sem luz, sem água… mas, sobretudo, em angústia. A redação d’O Portomosense e da Rádio Dom Fuas chegou para trabalhar, à mesma hora de sempre, mas dividiu-se para percorrer o concelho de Porto de Mós e perceber o impacto da depressão Kristin por cá. Além de fotografias, ouviu testemunhos, histórias de quem viu horas de investimento ceder ao vento, rostos cansados e assustados, pessoas que logo pela manhã tentavam repor os seus telhados para minimizar o impacto de uma noite que se esperava de chuva forte.
A Região de Leiria acordou descaracterizada, naquilo que muitos apelidaram como “um cenário de guerra”. Leiria, Marinha Grande e Pombal foram os municípios mais afetados e onde, ainda hoje, muitos continuam sem luz, sem água e a precisar de toda a ajuda.
E em Porto de Mós? Duas semanas depois, que balanço fazemos da forma como nos erguemos e que futuro antevemos? O presidente da Câmara de Porto de Mós, Jorge Vala, faz um ponto de situação e fala sobre as várias medidas que o Município tem em marcha para debelar este período difícil e apoiar a população.
Energia e água: “Temos cerca de mil clientes ainda sem energia (…) e alguns casos preocupantes porque têm de ser avaliados casa a casa”
Até ao fecho desta edição (12 horas de dia 10 de fevereiro) estavam sem energia elétrica «cerca de mil clientes, o que corresponde a 7%» dos clientes da E-Redes no concelho de Porto de Mós. A informação foi avançada pelo presidente da Câmara, Jorge Vala, frisando que, «infelizmente, alguns deles, estão sem eletricidade desde o dia 28». Estas situações são, sobretudo, na freguesia do Juncal, Calvaria de Cima e Pedreiras, onde «arderam dois Postos de Transformação (PTs) na Estrada Nacional 8», local onde o Município já instalou um gerador «para tentar perceber se é possível devolver energia àquela população». Quanto ao outro PTs, o Município está «a insistir com a E-Redes no sentido de poder ser reparado com a maior brevidade». «Há aglomerados urbanos onde, uma parte da localidade tem energia e a outra parte não e estamos no terreno com equipas para tentar encontrar soluções», garante o presidente.
No entanto, admite, estes aglomerados não são aquilo que está a preocupar mais o Município, mas sim os vários casos de habitações que têm de ser avaliadas de forma individual devido aos problemas com os postes de baixa tensão. «Destes mil clientes sem energia, 500 são situações de casa a casa porque têm o poste de ligação partido. Isto tem de ser reparado casa a casa e é uma situação que nos está a preocupar muito porque não estamos a ver no terreno equipas suficientes para resolver este problema com a rapidez que achamos justificada», salienta. «Há muitas pessoas que ainda não tiveram energia, 15 dias depois, é uma eternidade quando falamos da dependência que temos desta energia para viver em condições mínimas de dignidade. As pessoas estão ansiosas, preocupadas e não podemos ignorar isso. Temos tentado fazer tudo para ajudar a resolver, nomeadamente fazendo os pedidos a quem compete», garante.
Uma das medidas em cima da mesa foi proposta por Jorge Vala aquando da vinda do secretário de Estado da Energia, Jean Barroca, a Porto de Mós, para participar numa sessão de esclarecimento do ponto de situação. «Propus e felizmente foi aceite, ao que sei as empresas da região já foram contactadas com esse objetivo, no sentido de ajudaram a resolver com a maior brevidade esta questão da baixa tensão e começar a resolver todas as ligações casa a casa», revela. «O problema do abastecimento de energia é, sem dúvida, o maior e o que de mais depende o regresso à normalidade», sublinha Jorge Vala.
Quanto ao abastecimento de água, o contexto é mais favorável. «Temos o abastecimento de água garantido com qualidade e que está a ser monitorizada diariamente. Com alguns problemas pontuais, uma vez que grande parte das nossas infraestruturas ainda estão abastecidas através de geradores», explica o autarca. Jorge Vala frisa que o «Município de Porto de Mós, desde o início acautelou e garantiu o abastecimento de água com empréstimos de empresários do concelho, com recurso a geradores próprios e a outros que foram alugados que conseguiram garantir a capacidade necessária para abastecer, sem grandes falhas».

Vítimas: Uma morte e um “casal hospitalizado”
Até ao momento, Porto de Mós registou uma vítima mortal. Rui Cerejo, empresário de 63 anos sócio-gerente da empresa de vinhos J.S. Cerejo & Filhos, Lda, faleceu, no Tojal, depois «de uma queda na tentativa de reparar um telhado». «Lamentamos muito esta morte. Desde o primeiro momento que temos apelado às pessoas para terem cuidados redobrados porque a vida não pode ser trocada por qualquer bem material. As pessoas querem, com alguma naturalidade, proteger os seus bens, mas a vida é mais importante e temos tentado passar essa mensagem», afirma Jorge Vala.
Além desta vítima mortal, houve um «susto com um casal na freguesia de Alqueidão da Serra que foi hospitalizado devido à inalação de monóxido de carbono provocado por um gerador». «Esta é outra atenção que temos pedido. A utilização de geradores é um fator de risco porque o monóxido de carbono não tem cheiro, não se vê e as pessoas têm de ter muito cuidado na utilização destes equipamentos, não os podem ter dentro de casa», reitera. «É um apelo que fazemos para garantir que chegamos ao fim sem lamentar mais vidas», reforça, ainda, o presidente.
Comunicações: ANACOM “desconhece” dimensão dos estragos
As comunicações «móveis estão a funcionar em todo o concelho de forma mais ou menos normal». Já as «comunicações fixas, não», afirma o autarca. «Ontem (9 de fevereiro) falei com a ANACOM porque tinha a sensação que não havia um conhecimento exato da situação que se passa na nossa região. Temos muitos postes no chão, muita fibra ótica no chão, centenas de casas sem comunicações fixas. Há muita gente que não tem acesso à televisão e à internet fixa e por isso demos sinal à ANACOM que vai estar no terreno nos próximos dias», revelou.
Esta, ainda assim, «será a situação menos atrasada» no concelho e a de que menos «depende a normalização da vida das pessoas», uma vez que têm a rede móvel para contactar. «A normalização da vida das pessoas e das empresas depende sim da energia elétrica», reitera.

Estragos nas habitações e empresas: maior parte resolvem-se com apoio “de 5 mil euros” do Município
Habitações, empresas ou agriculturas terão um apoio para reabilitação e reconstrução de 5 mil euros (primeiro escalão) e de 5 a 10 mil euros (segundo escalão). Para isso é preciso reportar estes mesmos estragos, onde, entre outros dados, são necessários os documentos de identificação, prova de que são os reais proprietários e fotografias destes mesmos estragos. No caso do concelho de Porto de Mós, «há muitas situações que se resolvem com o apoio simplificado, até cinco mil euros». «Outras não, claro, algumas até são bem mais que 10 mil euros», salienta.
O Município, «até porque foi informado nos primeiros dias de que era necessário fazer um levantamento de prejuízos», criou uma plataforma para que os munícipes pudessem sinalizar os seus estragos. «Tivemos cerca de 250 pessoas que deram a conhecer os danos nas suas habitações/empresas. E através da avaliação dessas respostas percebemos que a maior parte dos danos não impactavam muito em termos de habitabilidade e até do funcionamento das empresas, claro com algumas exceções», frisa, voltando a referir que, por isso, em muitos casos, «o apoio de 5 mil euros possa ser suficiente para certas reparações». Ainda assim, Jorge Vala lembra que os estragos iniciais podem agora ser muito superiores, uma vez que a chuva persistente dos últimos dias trouxe outros problemas. «Admito que duas semanas depois os prejuízos sejam acrescidos, até eventualmente eletrodomésticos, mobiliário, tetos, danificação da rede elétrica, dentro da casa», antevê.
Entre as habitações que ficaram bastante danificadas ou mesmo destruídas estão situações «na Calvaria de Cima e no Juncal». «Foram cerca de 10 habitações que tiveram danos substanciais que vão merecer uma atenção diferente», avança.
Prejuízos nos espaços públicos: cerca de “5 milhões de euros”
Apesar de o levantamento do Município ainda estar a ser feito e de estar a aguardar (à data de fecho desta edição) pelo levantamento também das Juntas de Freguesia, «nomeadamente sobre sinais verticais que estão em estradas municipais sob a gestão das Juntas», Jorge Vala conseguiu já dar algum detalhe sobre os estragos nos espaços públicos. Antes, elogiou o trabalho dos «presidentes de Junta que têm estado a fazer um trabalho fantástico que é facilitador» da ação do Município.
«A estimativa que fizemos sobre os edifícios e bens públicos ronda os 5 milhões de euros. Esta é uma estimativa por alto, naturalmente que há situações que não conseguimos avaliar em concreto, nomeadamente os deslizamentos de terras que provocaram cortes parciais ou totais das vias», explica. Estes locais vão «ter de ser repostos, com a construção de muros e suportes de terras». Entre os exemplos estão os deslizamentos na Anaia (Porto de Mós), bem como na encosta do Castelo que precisa de uma solução «com pregagens de madeira ou alguma coisa do género, em Picamilho (Juncal) e também na Fonte do Oleiro.
Entre alguns dos edifícios públicos afetados estão o Cineteatro, o Pavilhão Gimnodesportivo de Porto de Mós, as Piscinas Municipais, o Pavilhão do Juncal e também o de Mira de Aire.
Fotos | Jéssica Moás de Sá, Jéssica Silva e Isidro Bento




