Foi o primeiro grande desastre ocorrido em Porto de Mós, onde um total de 44 pessoas, 36 crianças e 8 adultos, perderam a vida. Celebrava-se o catolicismo, agradecia-se a Deus a vida e foi nesse momento que a morte chegou. A ironia não foi esquecida, sobretudo por quem, nesse dia, há 83 anos, estava na Escola Primária, situada onde hoje é o Quartel dos Bombeiros Voluntários de Porto de Mós, na Avenida da Liberdade. No dia de Nossa Senhora da Conceição e também Dia da Mãe, muitas foram as mães que perderam os seus filhos.

Nessa tarde realizava-se a festa da Cruzada Eucarística, movimento das crianças e jovens catequizandos da época. A ideia inicial era que fosse a Igreja o palco desta celebração, mas por decisão do Padre José Galamba de Oliveira, encarregado de realizar esta cerimónia, foi a escola a acolher este momento. A razão era simples: a maior parte das crianças da Cruzada Eucarística estudavam também nesta escola. De várias freguesias chegaram crianças, pertencentes ou não à Cruzada Eucarística, acompanhados pelas famílias. O primeiro piso da Escola Primária, onde habitualmente estavam meia dúzia de crianças a ter aulas, encheu até não poder mais. O soalho não aguentou o peso e caiu, pelo meio, a sala, onde estavam concentradas as crianças da Cruzada Eucarística, fazendo como que um funil que ultrapassou o rés do chão. As vítimas ficaram entaladas entre os escombros e as outras pessoas.

Onde está Deus numa tragédia como esta?

Numa tragédia, o papel do destino é questionado. Clementina Vieira, Maria Crespo e Carlos Pinção sobreviveram, porque o destino assim o quis? Clementina Vieira não tem dúvidas: «Nós já trazemos o destino marcado». Foi por insistência da irmã que Clementina Vieira esteve presente na celebração. «A minha irmã queria muito ir e pediu à minha mãe para irmos. O meu pai tinha dado ordem para não sairmos, mas a minha irmã apoquentou tanto a minha mãe que ela acabou por nos deixar ir, com a condição que a minha irmã, que era mais velha, tinha que me levar», conta. Por “sorte”, a indecisão da mãe fez com que chegassem já um pouco tarde e o primeiro andar «estava tão cheio» que as irmãs não conseguiram chegar muito à frente. «Eu passei até onde consegui, cheguei a um ponto que o aperto era tão grande que estava a ficar sem ar», explica Clementina. «Mal entrámos, não passaram três minutos, aquilo deu um estoiro e arrebentou tudo», recorda a sobrevivente.

Clementina Vieira tinha apenas cinco anos quando se deu este desastre e por isso, houve marcas que o tempo curou rapidamente. Mas há “cicatrizes” que ainda hoje perduram: tem medo de estar em sítios altos, não anda de elevador, já mudou de apartamento duas vezes e escolheu sempre o primeiro andar e não consegue estar em aglomerados de pessoas. Continua também a perguntar-se: «Se existe Deus, se está em todo o lado, porque é que num dia que se celebrava a religião, Deus não pôs uma mão?».

Maria Crespo tinha «oito ou nove anos», pertencia à Cruzada Eucarística e estava no meio da sala nessa tarde, junto a uma amiga com quem tinha o hábito de conversar muito. Durante a celebração, porque a conversa teimava em continuar, as amigas foram separadas. «Fomos castigadas, ela ficou na parte da frente da sala e eu fui lá para trás, ela morreu e a mim não me aconteceu nada», conta a sobrevivente. «Nosso Senhor é que sabe», frisa Maria Crespo, acreditando também na ideia de que o destino está traçado. Define como uma «sensação horrorosa» o momento em que se deu o desabamento e conta que depois desmaiou. Foi o namorado da ama que a acudiu e só voltou a acordar quando ele a chamava, partindo vidros para poder salvar quantos conseguisse. Maria Crespo saiu logo da escola, levada pela ama, e assim evitou deparar-se com algumas das imagens mais complicadas deste desastre. A sobrevivente assume que com a idade que tinha acabou por não sofrer muito, porque tudo passou muito rápido: «Só me lembro de cair. Foi uma coisa rápida. Nem me lembro de desmaiar», conta. A mazela mais difícil de ultrapassar foi a morte da amiga, de quem se despediu «na mesa da sala» da casa da sua tia-avó, onde vivia.

Carlos Pinção tinha oito anos, e por «fugir sempre um bocadinho a estas coisas» da religião ficou na rua a jogar à bola com uns amigos, por isso, foi precisamente da rua, que assistiu a esta tragédia. Dentro da escola estava a sua tia Amélia que partiu um braço e a sua irmã mais velha, Fernanda, a quem nada aconteceu por estar num vão de janela que não ruiu. Carlos Pinção frisa que numa sala feita «para oitenta crianças, estiveram mais de 300 pessoas», por isso quase «não se conseguiam mexer». Também ele acredita que parte do que aconteceu foi plano do «destino», embora defenda, em contraponto, que tudo é uma consequência do «que faz o homem». De todo o país vieram pessoas para assistir aos funerais das vítimas, que se realizaram na Igreja de São Pedro, em Porto de Mós, recorda.

Nos meios de comunicação social da época, a tragédia foi relatada com várias palavras de horror: «catástrofe», «tragédia», «horrível», «impressionante» e «alucinante». Foi assim que este desastre foi divulgado no país, que, como dizia o semanário católico de Leiria, A Voz de Domingo, uniu todos quantos souberam: «Unidos pela fé, milhares de pessoas sufragam, pelo país além, as almas das vítimas de Porto de Mós, ajudam os pobres feridos e acompanham na dor e no luto a nossa Diocese».