A Serra dos Candeeiros foi palco recente de uma importante descoberta científica com a identificação de uma espécie de planta nunca antes observada e registada em território nacional. Arenaria grandiflora L. é o nome científico da espécie que desde o passado mês de abril enriquece a flora portuguesa.

António Flor, vigilante da natureza com especialidade em botânica, a trabalhar desde há longos anos no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC), foi o autor da descoberta que aconteceu no passado dia 18 de abril, na sequência de um projeto de investigação que está a levar a cabo, onde procura relacionar a flora com determinados aspetos da geologia, geomorfologia, litologia e solos da área do Maciço Calcário Estremenho.

«Comecei a perceber que havia uma determinada área do PNSAC – a Serra dos Candeeiros – que podia ser muito interessante do ponto de vista florístico. Logo no segundo dia de trabalho de campo encontrei uma planta diferente, e que suspeitei de imediato que fosse desconhecida no contexto nacional», conta o técnico da Direção Regional da Conservação da Natureza e Florestas de Lisboa e Vale do Tejo, do Instituto da Conservação da Natureza e Florestas (ICNF).

«O anúncio de uma descoberta destas não se faz de ânimo leve, tem de se ter absoluta certeza, e por isso dediquei vários dias ao estudo, identificação e comparação desta planta com outras e confirmei que a minha suspeita estava correta. Trata-se de uma espécie nunca antes identificada em território nacional», acrescenta, com satisfação mas de forma modesta.

A planta em causa ocorre em Espanha, no sul de França e no norte de África e assume morfologia diferente consoante o território. António Flor não tem a mínima dúvida de que não foi trazida de fora, já existirá neste território há milhares de anos e nessa medida, o técnico diz, bem disposto, que se trata de uma autêntica “relíquia”. Autêntica e valiosa porque «é mais um elemento que vem enriquecer o elenco florístico da flora portuguesa tanto ao nível da espécie como da genética» e daí a satisfação da comunidade científica com o anúncio feito, explica.

De acordo com o técnico «a Arenaria grandiflora L. é uma planta de habitats rochosos porque não suporta competição de outras. Provavelmente terá tido uma população muito maior que aquela que tem agora. À medida que o Maciço tem evoluído sob o ponto de vista tectónico também terá havido alterações das populações desta espécie.

Porquê só agora a sua descoberta, quando o PNSAC já existe há mais de 40 anos e aqui têm decorrido inúmeros estudos científicos? É a pergunta que lançamos a António Flor e a que este responde de imediato: «É simples. Os investigadores, nos estudos que fazem, direcionam a sua atenção para algo específico e é aí que se concentram já que não é viável fazer uma busca sistemática. Por outro lado estamos a falar de uma zona de difíceis acessos, portanto não é de estranhar que só tenha acontecido agora».

«Esta área tem-se revelado uma autêntica caixinha de surpresas. Temos encontrado aqui coisas raríssimas a nível nacional, inclusive, insuspeitas que pudessem ocorrer no PNSAC e portanto acredito que de vez em quando vamos ter mais descobertas», afirma António Flor, o técnico do ICNF que em pouco mais de 10 anos já fez a descoberta de duas novas espécies para a flora portuguesa, precisamente numa área protegida que tão bem conhece mas ainda com muito para revelar a quem a queira descobrir.

Foto: António Flor – “flora-on”