Carlos Cruz

(DES)Evolução Rural

23 Jun 2019

Nem sempre é fácil fazer a gestão das propriedades, aliás, eu diria mesmo que é até bastante complicado, por uma série de motivos, e que se mostram cada vez mais.
Há uns anos, no tempo dos nossos pais, avós, bisavós, a vida de campo e floresta era o dia-a-dia e o sustento de tantas casas, era uma vida difícil, mas saudável e em que se sentia a união da família, tudo se aproveitava ou para vender, ou para aquecer, ou para alimentar mais uma boca. Era difícil encontrar um terreno por gerir, um terreno “sujo”, as pessoas não podiam simplesmente ignorar as suas terras, quando vinha delas o seu ganha pão, mas além disso existia um orgulho em manter tudo bem arranjado.
Com o passar do tempo a situação foi-se alterando, a procura de uma vida melhor, a busca de uma situação financeira mais confortável, o deixar as botas sujas de terra e as mãos cansadas da enxada por um emprego onde se está sentado atrás de uma secretária, numa cadeira confortável e com uma roupa limpa, não rasgada, nem tingida com a terra e o suor do trabalho de campo, trocou-se o ar puro e o cansaço físico, pela poluição das cidades e pelo cansaço psicológico. Com isto, as terras começaram a criar mato, silvas e toda uma panóplia de vegetação que não se vira naquelas terras há muitos e muitos anos, ou mesmo nunca. As pessoas não queriam saber das terras. Porquê limpar? Porquê gastar dinheiro na limpeza quando não vou lá fazer nada? Foi, é a mentalidade de muita gente, pois como se diz “só se lembram de Santa Bárbara quando troveja”, e só se lembram que têm as propriedades quando algo de mau acontece, como é o caso dos incêndios rurais. Quantas pessoas sofreram por essa mentalidade? Quantas pessoas que tinham as terras limpas e com uma boa gestão perderam tudo por causa de um vizinho que não tinha essa preocupação? Não é minha intenção deixar um “sermão”, mas alertar para um perigo que é real.
É muito fácil sermos hipócritas e apontarmos o dedo ao outro, mas mostra um grande caráter quem assume a culpa e corrige os erros, e mesmo depois de tanto desastre ainda há quem não se preocupe.
Hoje a situação começa a reverter-se, por situações políticas e económicas, algumas pessoas vêem-se forçadas a regressar às terras, umas por necessidade, outras por cansaço de um dia-a-dia cheio de problemas, num mundo complicado que outrora foi simples e do que partem agora em busca.
Já se vê o interesse das pessoas em procurar tirar rendimento das suas propriedades, seja pelo meio agrícola, florestal ou mesmo por turismo rural, para o qual procuram ajuda e aconselhamento, e aos poucos algumas das propriedades outrora abandonadas, começam a mostrar as cores vivas da vegetação que agora é cuidada.
É preciso perceber a riqueza que temos nas nossas mãos e tirar o melhor proveito disso, porque se hoje a cultura agrária é posta de parte, como será no tempo dos nossos filhos e netos? Dá que pensar.

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