“Deus esteve comigo nessa noite”: O testemunho de quem foi apanhado pela tempestade

12 Fevereiro 2026

Jéssica Silva

Além de serem os dois padeiros e colegas de profissão, Sílvio Moura e Alfredo Cordeiro têm também em comum o facto de ambos terem estado a distribuir pão no momento da passagem da depressão Kristin. Em locais distintos do concelho, ambos viram, o que a maioria apenas ouviu. Com os próprios olhos, testemunharam a fúria dos ventos provocados pela tempestade, já considerada como uma das mais fortes da história recente em Portugal.

“Temi pela minha vida”

Padeiro há 30 anos, Sílvio Moura não vai conseguir esquecer tão cedo o que sentiu nessa madrugada. «Naquela noite temi mesmo pela minha vida. Tive mesmo muito medo. Foi uma sorte», diz, com alívio, como quem agradece ao destino pelo desfecho positivo.

Nessa noite, vinha da Marinha Grande, onde esteve a ajudar o irmão, em direção a Porto de Mós, para começar a distribuir pão da Padaria da Pragosa, empresa da família, onde trabalha há vários anos. «Chovia muito e depois cheguei à Pragosa e parou de chover, estava uma noite calma. Até disse para o meu colega: “Ainda bem que parou de chover. Assim já é uma boa oportunidade para ir distribuir o pão sem me molhar”», recorda, o padeiro de 49 anos. Sozinho, Sílvio Moura deu início à distribuição, por volta das 4 horas, como hábito, mas pouco depois o tempo mudou drasticamente «Entre as 4h30 e as 5 horas começou o vento, um vento muito intenso. Quando estava em Chão de Oles e Casais dos Vales parecia o fim do mundo. Na descida, a carrinha não queria parar. O vento tinha tanta força que a estava a empurrar para o precipício e eu só pensei “seja o que Deus quiser”». E Deus quis que Sílvio continuasse, que continuasse na sua missão. 

Enquanto o padeiro ia percorrendo os locais definidos na sua rota, tudo lhe batia na carrinha, desde galhos a folhas. Ao mesmo tempo via árvores a cair na estrada, algumas delas teve  que contornar para conseguir passar. Mas, nalguns casos, as árvores eram tão grandes que impediam a passagem. «Podia desviar mas depois no desvio também tinha uma árvore que me impedia de passar. Até cheguei a ir aos bombeiros para os avisar e dar-lhe conta de alguns locais onde não era mesmo possível passar», conta. 

Nunca pensou em parar a distribuição e ir embora para casa?, questionámos. O padeiro garante: «Nos Casais dos Vales não conseguia mesmo». «Foi uma hora intensa, depois amainou e já consegui fazer as coisas minimamente, embora depois tenha apanhado muitas árvores no caminho. Tive que andar devagarinho», recorda. 

Mesmo por baixo de um temporal, conseguiu deixar pão em mais de 100 portas, nos lugares de Porto de Mós, Bairro de São Miguel, Casais dos Vales e Covão de Oles. Uma tarefa que, em alguns momentos, quase exigiu um esforço hercúleo da sua parte. «Para sair, tinha que segurar-me bem à porta da carrinha senão voava», descreve. «Se calhar alguns sacos nesse dia ficaram na porta, mas depois desapareceram», reconhece, bem disposto. Acabou a volta, cerca das oito da manhã, no Intermarché, quando eles abrem a porta para os fornecedores».

“Parecia que tinha rebentado uma bomba”

O padeiro reconhece que só no dia seguinte à tempestade é que teve noção da sorte que teve mas, ainda assim, garante que a sua sorte «começou logo no início da noite». «A gente costuma ir para a Marinha [Grande] às 23 horas fazer o pão e nessa noite, não sei porquê, disse ao meu colega para irmos às 22 horas. Saímos da Marinha eram 3h10, e dizem que a tempestade lá começou por volta das 4h30, portanto se naquela noite a gente fosse à hora que costumávamos ir acho a gente não se safava. Já passámos pela estrada da Maceira, em direção à Marinha, e parece que rebentou lá uma bomba», afirma. Agora, passado alguns dias, Sílvio Moura não tem dúvidas em afirmar: «Deus esteve comigo nessa noite». 

Depois de ter vivido uma experiência tão intensa, a que podia não ter sobrevivido, Sílvio tem a certeza que aprendeu uma lição: «Juro que nunca mais isso acontece». «Para a próxima, quando isso acontecer, eu já avisei o meu irmão que nunca mais saio da padaria com o pão para lado nenhum», acrescenta. E a verdade é que a experiência pela qual passou, trouxe-lhe algumas aprendizagens, e já o levou a alterar o seu comportamento. «Há dias estava a fazer a venda e começou a chover muito. O que é que eu fiz? Parei a carrinha e deixei-me estar, até parar. Demorei mais uma hora, mas não faz mal», diz, convicto de que tomou a melhor decisão. 

“Estaria a mentir se dissesse que não tive medo”

Na mesma madrugada, Alfredo Cordeiro, de 51 anos, padeiro de profissão, saiu da Padaria da Pragosa, onde trabalha há tantos anos que já perdeu a conta, por volta das 4 horas, para mais uma noite a distribuir pão. Contrariamente a Sílvio – que foi sozinho – Alfredo realizou a distribuição acompanhado do colega, Paulo Jorge. «Quando abalámos para fazer a venda estava a chover, depois quando parou a chuva começou esse vento. Era mesmo muito vento, foi assustador», recorda.

Alfredo Cordeiro Paulo Jorge Padaria da Pragosa DR | Jornal O Portomosense 

À medida que iam percorrendo as diversas localidades, que faziam parte da sua rota e onde havia paragens a serem feitas, Alfredo descreve o cenário que foi encontrando: «Eu nem sei de onde é que choviam tantas cadeiras de plástico. Andava tudo pelo ar e pela borda da estrada: cadeiras, chapas, plásticos, árvores…». Enquanto iam avançando, iam encontrando cada vez mais obstáculos que impediam a passagem, sobretudo árvores caídas na estrada, condicionando o seu trabalho. «Ali ao pé da Cercilei, estava uma árvore no chão, tivemos de voltar para trás, depois na Valicova estava outra, já não conseguimos passar, tivemos de dar a volta pelo outro lado», refere, a título de exemplo. 

A certa altura, ao verem o rasto de destruição causado pela passagem da tempestade, Alfredo e o colega decidiram tomar uma decisão. «Quando começámos a ver muitas árvores no chão, parámos a carrinha, mas tínhamos mais medo dela parada do que a andar. Porque quando estava parada abanava toda. Como estávamos a andar devagarinho, não tínhamos a noção do quanto ela abanava», recorda. A partir desse momento, Alfredo admite que «começou a ganhar medo». 

Contra toda as probabilidades, nessa noite distribuíram mais de 50 sacos de pão, em casas entre Ribeira de Baixo, Fonte do Oleiro e Alqueidão da Serra, uma tarefa nem sempre fácil e que, por vezes, revelou-se verdadeiramente desafiante. «Eu e o meu colega tínhamos os dois de segurar a porta do carro, metíamos o pão dentro do saco e lá íamos entregar», afirma. Apesar de todas as dificuldades, o padeiro garante que só houve um cliente que ficou sem pão. «Estava uma árvore de um lado, não conseguimos passar, tentámos dar a volta pelo outro lado, mas estava lá também uma árvore, por isso não conseguimos aceder à casa», explica. 

Questionado sobre se em algum momento quis terminar a volta mais cedo, o padeiro garante que nunca pensou nisso, até porque, justifica, a certa altura, o vento começou a abrandar. «O forte foi ali das 4h45 até às 5h30, depois parou», refere, admitindo, contudo, que a dada altura «só queria acabar a volta para ir embora» e quando isso aconteceu, por volta das 6 horas, garante que «o vento era nulo». Volvidas mais de duas semanas, desde essa madrugada que tão cedo não esquecerá, e agora com uma visão distanciada dos acontecimentos, Alfredo admite que chegou a temer pela vida: «Se disser que não tive medo, estarei a mentir», admite. 

Foto | DR

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