Há 35 anos nascia aquilo que viria dar origem ao que é hoje a Rádio Dom Fuas, na altura Rádio Pedreiras, pirata, a emitir precisamente a partir da terra que deu nome ao projeto. Pelas mãos de Luís Oliveira nascia o “bebé” que hoje tem duas frequências e é ouvido em toda a região. Depois de 35 anos, muitos deles já na Cincup, detentora da rádio e deste jornal, já muito se disse e contou sobre a Dom Fuas, por isso, desta vez, decidimos incidir sobre a programação do antes e do agora, conhecer as diferenças e a opinião de alguns dos principais intervenientes sobre elas.

Quando criou a rádio, as escolhas musicais de Luís Oliveira respeitavam um critério simples: derivavam dos discos que tinha. «Fazia matinés no clube, tinha discos, os discos dos tops, ainda com vinil na altura, e estava sempre atualizado. Os meus programas eram baseados nesse tipo de música, mais comercial», conta, acrescentado que «a rádio não obedecia a quaisquer regras». «Rapidamente se juntaram outros colaboradores» e todos usavam exatamente o mesmo critério: os gostos pessoais e os discos que tinham disponíveis. Nessa altura, entre música portuguesa e estrangeira havia uma relação de «50-50», embora «houvesse programas que não tinham música portuguesa».

Um programa que foi «prato forte» da rádio nos seus primeiros anos foi o de discos pedidos: «Fez parte da programação durante vários anos. Tínhamos programas diários de duas horas de discos pedidos, era quase obrigatório», recorda Luís Oliveira, acrescentando que eram essas chamadas feitas pelos ouvintes que permitiam «manter o contacto» e que davam «diretrizes» sobre o que as pessoas gostavam de ouvir. «Gostávamos de saber quem nos estava a ouvir e de onde», refere, acrescentando que o auditório da rádio passava muito pela zona norte do distrito e até pela Figueira da Foz, «mais do que no próprio concelho». Porém, também razões técnicas levavam a este facto: «Quando começámos a emitir das Pedreiras, estávamos limitados geograficamente. Estávamos do lado oeste da serra e a potência de emissão era reduzida. Portanto, não servíamos bem a zona este do concelho. Além disso, por uma situação natural, a propagação sempre se fez melhor para norte», lembra.

Antes da legalização da rádio e já em Porto de Mós, a rádio era ainda «formada por amadores, ninguém usufruía de qualquer remuneração (salvo um caso ou outro)», depois da legalização, «as exigências passaram a ser outras», tendo-se vivido «uma fase de transição má ao nível económico». Foi nessa altura que Luís Oliveira optou por deixar de fazer parte da estrutura diretiva da rádio, «por motivos profissionais» e «por achar que a rádio já não era mais uma rádio pirata, amadora e que estava a profissionalizar-se». «Era nesses moldes que tinha que continuar, mas já não comigo. Eu já tinha feito o meu trajeto e isso já não pertencia exatamente ao meu domínio», afirma. Na altura «houve alguém que tomou conta da situação e encaminhou a rádio para onde considerava ser o melhor caminho». «Se me perguntarem se estive de acordo? Inicialmente, e ainda hoje mantenho parte dessa linha de pensamento, achava que não fazia sentido colarem-se às grandes rádios nacionais. As rádios locais deviam ser vistas de uma perspetiva um bocadinho diferente, viradas para o público local, dando mais importância à terra e a todas as zonas limítrofes, tendo menos a preocupação de nos equipararmos às rádios nacionais. Por outro lado, sinto que, em termos económicos, esse podia ter de ser o caminho», conclui.

A Rádio Dom Fuas agora

No início dos anos 2000, algumas alterações foram operadas na rádio, começando a guiá-la para o estilo e forma que hoje apresenta. Luís Carvalho, ainda hoje voz das manhãs na Dom Fuas, foi então chamado a agir. Já com experiência noutras rádios, onde havia sido, além de locutor, diretor de programas, foi contratado para “transformar” o projeto. «Naquele momento, a Rádio Dom Fuas carecia de uma estratégia, de um rumo. O primeiro passo foi definir uma estratégia pensada a médio prazo, que fosse possível de implementar com os poucos meios disponíveis. Foi preciso definir uma programação musical homogénea e estruturada, a pensar num público-alvo o mais largo possível. [Era preciso] Apostar, na medida do possível, na divulgação de eventos culturais na região. Com o tempo, tentar ganhar relevância na região e, consequentemente, crescer comercialmente para poder ir aumentando a quantidade e qualidade dos conteúdos e de recursos humanos», recorda, falando daquilo que foi o começo do seu trabalho na Cincup. A estratégia passou por «replicar casos de sucesso, mas adaptados à nossa escala»: «Atualmente a Rádio Comercial e a RFM têm quase 40% da audiência global. Ora, por que não replicar o que se sabe que as pessoas comprovadamente gostam de ouvir, acrescentando, numa dose certa, algo que essas rádios nunca poderão dar à população da nossa região? O foco na informação da região e divulgação de eventos locais são algo que nos diferencia sempre. É a nossa mais-valia em relação a rádios nacionais. Será sempre David contra Golias, pela diferença de meios disponíveis (físicos e financeiros), mas a única forma de minimizar essa diferença é potenciar aquilo que nos pode distinguir», considera. Duas décadas depois, Luís Carvalho diz ter «orgulho em ter tido a possibilidade de colocar em prática algumas mudanças» que «acabaram por resultar e vingar ao longo do tempo».

Hoje, sem programas de discos pedidos ou similares, o contacto com o público é menos evidente e, também por isso, é «difícil perceber com grande pormenor qual é o nosso público». Porém «sabemos, pela vivência diária, que a faixa etária que nos ouve é relativamente larga e que somos a companhia musical de uma boa parte da população da região durante o seu dia de trabalho e enquanto conduzem de e para o trabalho. Vamos tendo esse feedback, felizmente», revela. Luís Carvalho considera, no entanto, que «a importância das audiências é relativa»: «Não nos podemos mover a pensar exclusivamente nelas. O mais importante é ser sempre o mais relevante possível, ter impacto em quem nos ouve. Obviamente que se não tivermos uma determinada quantidade de audiência, também não faz sentido estar a trabalhar. E só com uma boa audiência é que é possível ter retorno financeiro para continuar com o projeto de pé», conclui.

O que tornaria a rádio melhor?

Aniversário é sempre tempo de balanço e, nessa perspetiva, quisemos saber em que é que Luís Oliveira e Luís Carvalho consideram que a Rádio Dom Fuas podia ser melhor. «O que gostava era de, mesmo nos moldes em que a rádio funciona hoje, ter mais palavras, mais pessoas em direto, falar-se com o ouvinte», refere o fundador da Rádio, acrescentando que, na sua opinião, é também «essencial ir para a rua, seguir os acontecimentos, com reportagens exteriores, palpar o pulso às pessoas, ouvi-las, que é uma coisa que eu acho que se tem feito pouco». Luís Oliveira ressalva no entanto que tem «a consciência de que isso tem custos, porque obriga a ter mais gente e cada direção é que sabe os valores com que pode contar».

Já Luís Carvalho, desafiado a pensar no que implementaria se fosse hoje convidado, como foi há 20 anos, responde que se não tivesse qualquer limite, a sua prioridade passava por «aumentar os recursos humanos, com mais profissionais experientes e jovens em início de carreira, que possibilitassem aumentar a quantidade e qualidade de conteúdos – em áudio e vídeo – na rádio, site e redes sociais; crescer no ambiente web, sem nunca esquecer a essência da rádio tradicional porque é essa que justifica tudo o resto», refere.

Foto | Jéssica Moás de Sá