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Do pavilhão do Juncal às arenas helvéticas: uma vida de basquetebol e uma mudança por amor

23 Junho 2023
Bruno Fidalgo Sousa

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Bruno Fidalgo Sousa

23 Jun, 2023

Aos 29 anos, o internacional português João Grosso é destaque na Suíça.

Há 15 anos, era certo que quem passasse a pé pela casa de João Grosso, no Chão Pardo, iria ouvir uma bola de basquetebol saltar do cimento para o aro, por horas a fio, até sumir a luz do dia. Foi nesse lugar da freguesia do Juncal que João Grosso cresceu e foi precisamente no Juncal, no extinto IEJota, onde se formou enquanto basquetebolista, talvez o que, dessa formação, mais provas deu até hoje. Aos 15 anos, era o único atleta da seleção nacional sub-16 a jogar num clube fora de Lisboa ou Porto. Agora, com 29, regressa a casa para umas merecidas férias, no término de uma época onde se sagrou campeão da segunda divisão suíça e onde conquistou o prémio de Jogador Mais Valioso das finais da prova.

Uma dupla vitória no país helvético para onde se mudou no verão do ano passado, «uma decisão tomada em casal», dado que a namorada teve uma proposta profissional, e na carreira de basquetebolista «facilmente conseguiria encontrar [trabalho]». O caminho não foi assim tão linear: esteve algum tempo a treinar “à experiência”, vítima de um «mercado muito fechado». Mas «depois reconheceram valor e quiseram ficar comigo [a equipa Pully Lausanne Foxes]. Sendo que um estrangeiro vai sempre com uma pressão extra porque se não render facilmente é substituído», relata.

Destacou-se. Além de ser o segundo melhor jogador da equipa na temporada regular nos quesitos da pontuação, assistências e ressaltos, com um média de 23,5 minutos por partida, relativamente baixa para os números apresentados, foi peça chave na série derradeira do campeonato. Com um troféu para provar que foi o Mais Valioso – mesmo com um polegar partido nos últimos dois jogos. Agora, espera-o, na próxima época, a primeira divisão helvética, onde acredita que pode dar nas vistas. E surpreender? «Se não estiverem já à espera, que seja [surpresa]», graceja. As médias podem ser enganadoras quando o próprio João Grosso acredita que a liga suíça é um passo atrás na carreira, dada a qualidade do basquetebol. Mas uma decisão que tomou de boa vontade, sem arrependimentos, com o «apoio fundamental» da companheira, e que já deu frutos a nível de palmarés. Não que estivessem em falta. O internacional português tem no currículo, além da passagem pela seleção nacional, as época no Centro de Alto Rendimento do Jamor, Leyma Corunha, Dragon Force, BC Barcelos, FC Porto, Ovarense e UD Oliveirense, onde esteve nas três últimas temporadas, e onde foi treinado por Norberto Alves, atual técnico do SL Benfica, que João Grosso destaca como treinador e como exemplo: «Marcou-me muito. Mesmo quando estou a dar treinos aos miúdos, lembro-me de muitas vezes de coisas que ele dizia que dão para todas as idades, todos os níveis, tratava todos os atletas, acima de tudo, como pessoas». É isso que João Grosso está agora a tentar passar aos “seus” jogadores. Foi convidado pelo treinador principal dos Foxes a ser seu assistente numa equipa de atletas de alto rendimento e lidera uma equipa de sub-8, «que são um desafio», confessa, sorrindo, e «uma coisa que gostava muito de continuar a fazer».

Um «afortunado» da formação do IEJota

Na Suíça, mora em Vaud, uma pequena vila a 30 minutos de onde treina, e que é «possivelmente do mesmo tamanho que Porto de Mós, se for preciso mais pequena», até. Para já, não há planos, nem para ficar, nem para voltar “a casa”. Mas continuar no basquetebol é a direção: «Via-me a trabalhar como treinador», confessa. Embora o seu clube de origem, o IEJota, tenha encerrado em 2016, deixando em falta no concelho uma valência desportiva única, para sua pena: «É um desporto que já me deu muitas coisas e pode dar a muitos miúdos que querem jogar, haverá muitos por aí e deveriam ter as condições necessárias e vários opções de clubes. Pena que não haja, mas é esperar e fazer o possível para que os clubes se aguentem, os que há, e que apareçam novos».

João Grosso não foi o único talento a sair da formação do IEJ, como recorda. Cristóvão Cordeiro, das Pedreiras, foi em parte uma inspiração para o juncalense e, mais tarde, na Ovarense, colega de equipa. Fala ainda de João Ferreirinho ou Dário Mourato, que jogaram 1ª e 2ª divisão. João Grosso acredita que «o Juncal sem dúvida que dava condições ótimas para que nascessem ali bons jogadores», considerando-se um «afortunado por ter conseguido chegar ao alto nível». Nas memórias de uma já longa carreira, destaca momentos como a passagem pela seleção nacional, «um motivo de grande orgulho»; mas também a transição entre a formação e o basquetebol profissional, «muito exigente», e a Taça Nacional conquistada com a camisola do IEJota, em 2009/2010, com um grupo de amigos e atletas que ainda hoje se junta, não para jogar, mas para jantar, por vezes; brindar, de quando em quando; e recordar os tempos de formação. Aliás, um reencontro de todo o clube era «uma coisa a pensar seriamente», confessa perante a possibilidade.

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