Há estórias e pessoas que nos tocam profundamente. A estória de Carlos Matias, que lhe damos a conhecer nesta edição, é uma delas. Há quase 30 anos, tantos quantos tenho de vida, recebeu a notícia que ninguém desejaria ouvir, resumida em apenas três palavras: Esclerose Lateral Primária. “Teve azar. Calhou-lhe uma doença sem cura”, disse-lhe o médico, antes de revelar o diagnóstico que levou meses a chegar. Sofria de uma versão “menos agressiva” da Esclerose Lateral Amiotrófica mas, ainda assim, uma doença neuromuscular, rara, e que ia culminar consigo numa cadeira de rodas. Logo ele, que levou uma vida dedicada ao exercício físico, logo ele que era professor de educação física, dentro de anos iria deixar de se conseguir mover pelo próprio pé.
Para a maioria das pessoas, receber um diagnóstico destes, seria como ser abalroada por um automóvel, ser ferida por um objeto contundente ou “ficar sem chão”, como tanta gente descreve. Seguir-se-ia o choque, a revolta, a tristeza profunda, mas Carlos recusou-se a ir por esse caminho. Esses sentimentos não faziam parte do seu quotidiano, nem tão pouco se coadunavam com a forma como sempre encarou a vida e não era a doença que iria mudar isso. “A Esclerose Lateral Primária bateu-me à porta e eu deixei-a entrar”, diz, com a leviandade de alguém que parece ter aceitado a doença, antes mesmo de saber que esta lhe tinha invadido o corpo. Carlos levantou a cabeça e decidiu enfrentar a doença, com uma força e capacidade extraordinária de conservar apenas “a parte boa da vida” para viver. A esposa, os filhos, os netos, a fotografia…
Quase 30 anos depois, os efeitos da Esclerose Lateral Primária já são bem visíveis. A doença que causa rigidez, lentidão e fraqueza progressiva nos músculos da face, braços e pernas, afetou-lhe a fala e fê-lo perder grande parte da sua mobilidade. As idas à serra para fotografar já não são frequentes como antes e apesar de hoje estar limitado na sua independência, nem por isso Carlos se mostra de mal com a vida. Muito pelo contrário. Carlos Matias é feliz. Afinal, garante-nos, tem tantas coisas boas na vida que o fazem feliz.
Ouvir isso é como levar um murro no estômago. Não que o desejássemos infeliz mas porque é impossível não ouvir isso e refletir. Aliás, é impossível ouvir o testemunho de vida de Carlos e ficar indiferente. É impossível ouvir alguém que não desistiu, mesmo depois da sua vida ter ficado virada de pernas para o ar, e não refletir sobre a vida e a forma como a andamos a viver. Carlos, sem saber, permitiu-me fazer essa reflexão. Podemos até ter tudo, que aos nossos olhos esse tudo nunca será suficiente. Mesmo com tudo, o sentimento de permanente insatisfação e o queixume repetido continuam a ser também eles uma constante. Mas se temos “tudo” e há quem não tenha “nada”, do que nos andamos nós a queixar, afinal? Do que nos queixamos nós se há pessoas a quem lhes foi retirado quase tudo e continuam a sorrir? A reflexão não é nova, bem sei, mas parece-me ser daquelas reflexões sobre a qual refletimos num momento específico e nunca mais voltamos a ela. Porque a vida continua, porque a vida pede pressa e não há tempo a perder, muito menos em reflexões que tantas vezes não vão ter a lugar algum.
Num livro publicado em maio, também Carlos faz uma reflexão. Diz que deixou de viver com pressa. A frase deve provocar um baque. Vivemos com pressa, em permanente urgência, uma rapidez que tantas vezes nos impede de conseguir apreciar as coisas boas da vida, as mesmas que tantas vezes nos fazem sentir que vale a pena viver. Há aqui um certo contrassenso que me leva a questionar: Afinal, vivemos com pressa porquê e para quê? Essa constante roda-viva, já sabemos, tem-nos roubado tantas coisas mas é como se fosse necessário um esforço hercúleo para conseguir fazê-la parar. Até quando vamos aguentar viver a este ritmo? Até quando vamos aceitar que é normal viver assim?


