No passado dia 20 de janeiro chegou à caixa de e-mail d’O Portomosense uma mensagem de Adelino Caravela, com fotos de documentos antigos em anexo. Todos eles ligados a Porto de Mós e, segundo a informação no corpo do e-mail, seria documentação de uma coleção particular do “colecionador de Leiria”, como se autointitula, e da qual fazia parte um recibo de pagamento do jornal O Portomozense, anterior ao nosso jornal e que o inspirou. O recibo de um assinante de Alcobaça, referente ao pagamento da uma assinatura de 25 números, com um total de 600 reis, data de 2 de junho de 1900 e motivou a conversa que tivemos com Adelino Caravela.

Além do recibo e de algumas cartas manuscritas que também nos foram remetidas, o filatelista diz não ter «muito mais» sobre Porto de Mós. A isto, junta mais uma «carta segura», designação anterior das cartas registadas, com um dos primeiros carimbos de Porto de Mós, parte da sua principal coleção, que expõe frequentemente no estrangeiro. Tem ainda uma outra com «a marca dos Carvalhos, das Pedreiras, onde havia uma estação em que se fazia a muda dos cavalos que vinham de Lisboa para Coimbra. Paravam ali, dormiam, comiam e seguiam. Havia aí uma marca de correios porque as pessoas deixavam as suas cartas para seguirem para várias direções», explica. Sobre essa carta, Adelino Caravela escreveu já um artigo para um livro do Clube Filatélico de Portugal e que ofereceu à Câmara Municipal e à Junta de Freguesia de Pedreiras.

Os selos e documentos que possui, alguns deles desde a adolescência, quando começou a juntar, desordenadamente selos, «para colecionadores têm um valor alto», mas o filatelista explica que tudo «depende da raridade das marcas»: «De Lisboa, por exemplo, há cartas de 1800 e tal que devem valer para aí 20 euros. De Porto de Mós devem valer mais de 100 euros. Mas há outras, que são tão raras, principalmente se forem das colónias, Luanda, Moçambique, que são capazes de valer muito. Num leilão em que estejam duas pessoas interessadas, podem chegar aos cinco ou seis mil euros. Na minha coleção tenho cartas únicas, uma do Japão, de 1600, que veio para Portugal, anda toda a gente atrás dela», conta.

Interesse antigo dá origem a medalhas

O interesse de Adelino Caravela, hoje com 72 anos, por estes materiais vem «desde miúdo», na altura «mais ao nível dos selos»: «Comecei a juntar quando era miúdo e depois as pessoas sabiam que eu gostava, iam juntando coisas e davam-me. Só depois é que comecei a ter gosto pela parte das cartas mais antigas, sem selos, porque ninguém ligava àquilo», recorda, acrescentando que as pessoas achavam que se as cartas não tinham selo, não interessavam. No entanto, isso não é bem verdade: «Muitas das cartas que são do tempo em que não existiam selos têm muito mais valor do que outras com selo», afirma. «A nível de antes dos selos, é capaz de haver uns quatro ou cinco colecionadores que se interessam por isso, o resto é tudo mais virado para os selos», revela Adelino Caravela.

O documento mais antigo que tem data de 1460, «do tempo do Infante D. Henrique», mas este não integra a sua principal coleção «porque não havia correio nessa altura». Assim, o mais antigo que expõe é de 1516. São documentos que «valem uma fortuna» e é isso que faz Adelino Caravela mantê-los. «Há indivíduos com bastante dinheiro a procurar, já me desfiz de algumas coleções. Houve uma altura em que eu tinha uma coleção também deste período, nunca mais me largavam, depois ofereceram-me um valor interessante e eu vendi, já foi há mais de 20 anos», conta.

O que começou como uma brincadeira já valeu a Adelino Caravela várias medalhas e condecorações. Natural de Lisboa, fixou-se em Leiria em 1977, onde reside até hoje e por isso se autonomeia “colecionador de Leiria”, levando assim o nome da cidade ao círculo filatélico mundial, já que desde 1985 que concorre em exposições competitivas a nível nacional e internacional. Fez parte dos órgãos sociais de várias entidades relacionadas com a filatelia e foi também jurado de algumas exposições.

Com Isidro Bento