Telhas, coberturas, lonas, caixilharias, vidros, lanternas, geradores… a lista dos itens mais procurados depois do passado dia 28 de janeiro, bem que podia continuar. Horas após a passagem da depressão Kristin, as pessoas desdobraram-se em esforços para tentar reparar os danos causados pela tempestade que provocou praticamente os mesmos danos em todas as estruturas e deixou quase toda a gente a braços com as mesmas necessidades. Sob a ameaça constante de chuva e vento, essa procura transformou-se, muitas vezes, numa corrida (literalmente) contra o tempo.
“Fui apanhado por uma fila de gente”
Passavam poucos minutos das 8h30, da manhã seguinte à tempestade, quando Américo Santos se deslocou à empresa da qual é responsável, na Cruz da Légua, para verificar apenas se as instalações tinham sofrido danos e nunca mais de lá saiu. À nossa chegada, diz-nos que foi «apanhado por uma fila de gente» à procura de telhas. «Uns levaram um cento de telha, outros 50, outros 30 e outros levaram telhões», referiu, ao mesmo tempo que já dizia saber que havia por aí «muita coisa estragada». «Nunca mais me largaram. Nem a pasta trouxe, nem papéis, não tinha nada», disse, ao nosso jornal, momentos antes de sair da empresa para ir almoçar e buscar mais material, que entretanto já tinha esgotado.
“O primeiro cliente queria um gerador”
Dias depois do eclodir da catástrofe, mas ainda com centenas de pessoas sem acesso à rede elétrica, parámos na Bricomós, loja que se dedica, entre outras coisas, ao comércio de ferragens e ferramentas. Os clientes que vão fazendo fila no interior do estabelecimento para serem atendidos parecem fazer antever que há ainda muita gente a necessitar desse tipo de produtos.
Marco Ribeiro, sócio-gerente, conta que a loja, instalada no centro da vila de Porto de Mós, abriu logo no dia seguinte ao temporal, mesmo sem acesso à eletricidade: «A primeira pessoa que atendi, ajudou-me a abrir a grade e comprou um gerador». «O nosso comércio ajuda as pessoas também, temos coisas que são essenciais para as suas casas», justifica.
Durante os primeiros a azáfama era tanta que havia hora para abrir a loja mas não havia hora para fechar. «Só tivemos noção da catástrofe, na quinta-feira. Já nem me lembro bem porque passou uma semana em que estive todos os dias a trabalhar e foi cansativo», desabafa Marco Ribeiro. Entre os produtos mais procurados estavam os «fogões portáteis a gás, trempes, lanternas portáteis a pilhas, rádios a pilhas, pilhas…». «Tudo o que permite criar autonomia», refere. Ao longo desse tempo, a procura foi tanta que o sócio-gerente teve que ir ao Porto duas vezes buscar material, sobretudo geradores. «Ainda consegui arranjar uns pequeninos silenciosos, que são o ideal para um apartamento, e que aguentam com duas arcas e uma iluminação, mas estava tudo esgotado já. A nível nacional foi uma procura muito grande», garante.
“Romaria à procura de lonas usadas”
Nos primeiros dois dias, após a passagem da tempestade «houve uma romaria à procura de lonas usadas», garante Bruno Serra, comercial na Gonçaltir, empresa que se dedica ao fabrico e comercialização de toldos, em São Jorge. «Temos as lonas aqui até serem recicladas, estavam aí algumas, e levaram isso tudo, mas não havia muita coisa», refere, explicando que nunca têm muito stock porque trabalham, acima de tudo, «para fábricas e reboques novos» e também porque, normalmente, quando são colocadas lonas novas as antigas são levadas.
Questionado sobre se têm sido muito procurados para a aquisição de lonas usadas, Bruno Serra afirma que têm tido alguns contactos nesse sentido mas admite que pensava que teria mais. «Deduzo que a maioria não nos conheça sequer, embora toda a gente que trabalha nos transportes nos conhece», refere, acrescentando que para já, não há previsão de quando voltarão a ter: «Tão depressa não vai haver, de certeza. Nunca sabemos quando vêm cá clientes que trocam lonas e deixam as antigas, podem vir dois ou 20». No caso de alguém que queira adquirir uma lona nova, Bruno Serra confirma que é possível mas adverte para o facto de esse serviço nunca ser feito «na hora».
Embora as instalações da empresa não tenham sido afetadas pelo mau tempo, a paragem a que foram obrigados teve impacto no seu funcionamento. Por isso, agora é tempo de recentrar e focar na produção. «Temos as nossas encomendas muito atrasadas porque tivemos dois dias sem produzir nada e com algumas baixas de pessoal, como é natural. E mesmo quando voltou a energia, foi muitas vezes abaixo, por isso a nossa produção está muito atrasada. Estamos a correr contra o tempo», frisa.
“Reparações mais urgentes já foram feitas”
Depois de um encerramento forçado de dois dias, motivado pela inexistência de corrente elétrica e Internet, a Trovão & Vala reabriu portas. Nos primeiros dias após a tempestade, o trabalho da empresa, especializada no fabrico, comercialização e montagem de caixilharia e estruturas em alumínio, passou, sobretudo, por resolver «casos mais problemáticos». «Fizemos algumas reparações mais urgentes, de coisas que estavam mesmo a necessitar de serem reparadas», explica Tony Trovão, o proprietário. «Basicamente foi mesmo um SOS, para tentar pôr as pessoas nas casas com as mínimas condições. Para depois, à posteriori, fazer as coisas como deve ser», acrescenta.
Solucionadas as situações mais urgentes, agora é tempo de contabilizar os danos causados pela depressão Kristin. «A maior procura é por orçamento e valorização dos estragos, para fazer participação às seguradoras», revela Tony Trovão. Desde que reabriram já foram contactados por cerca de 30 pessoas, a grande maioria do concelho de Leiria. As solicitações chegam, sobretudo, de pessoas que já eram clientes mas também de outras que nunca tinham mantido contacto com a empresa.
O empresário alerta, contudo, para o facto de existir sempre «algum período de espera», seja pelo desenrolar do período burocrático dos seguros, seja pelo tempo necessário para que determinado produto esteja concluído: «Alguns materiais não há em stock, normalmente são coisas que são feitas por medida». Tony Trovão conclui dizendo que o objetivo agora é «tentar resolver os problemas da melhor forma possível, o mais rápido possível».
Foto | Jéssica Silva
Com Jéssica Moás de Sá




