Em Entrevista… Armindo Vieira

18 Jan 2021

Em edição de aniversário, conversamos com Armindo Vieira, o jornalista mais antigo “da casa”. Entrou em 1993, tinha O Portomosense 10 anos de existência. Passados quatro anos, saiu para abraçar novo desafio profissional. Anos depois, regressou, e até meados de 2020 foi membro ativo da nossa redação, com a qual vai mantendo colaboração esporádica.
Pela mão de Armindo Vieira, evocamos os primeiros anos de O Portomosense, lembrando ainda o fundador, João Matias. E claro, aproveitamos os seus quase 30 anos de experiência para falar de várias temáticas em que o jornalismo é figura central.

O Armindo é o elemento da redação que mais cedo tomou contacto com O Portomosense. A sua ligação ao jornal começou quando e de que forma?
Começou em setembro de 1993, mas a minha estreia nesta área foi uns anos antes, na minha terra, aos microfones da Rádio Pedreiras. O Luís Oliveira, um dos principais impulsionadores da rádio no concelho e considerado por muitos como o “pai” da Rádio Dom Fuas, sabia que eu de vez em quando fazia umas notícias locais para os jornais de Leiria, nomeadamente para A Voz do Domingo e O Mensageiro e, uma vez ou outra, para o Região de Leiria, e então convidou-me para fazer uns noticiários na Rádio Pedreiras que funcionava num barracão junto à sua casa. Anos depois, foi criada a Rádio Dom Fuas, com a qual comecei a colaborar agora como locutor. Em 1993, o João Neto assumiu a direção de O Portomosense e foi então que fui convidado para integrar a redação.

Redação que se bem me recordo contava apenas com uma pessoa a tempo inteiro…
A tempo inteiro, sim. O José Vigário (“Zeca Vigário”, como é mais conhecido) também fazia vários trabalhos para o jornal mas a sua ligação principal era à rádio e então cabia-me a mim orientar a edição sob as diretrizes do diretor. Mais tarde, o Isidro, que já era colaborador da rádio, veio para a Cincup fazer um estágio na área da informática, e foi-me pedido que fosse seu orientador e visse se «teria jeito para fazer alguma coisa para o jornal». Foi assim que fomos criando a nossa pequena redação.

A sua entrada no jornalismo dá-se numa altura em que já tinha atrás de si toda uma série de outras experiências profissionais e numa idade pouco comum nesta área…
Sim, eu costumo dizer que foi uma descoberta tardia da vocação. Antes, trabalhei na área administrativa de várias empresas e cheguei também a ser vendedor. Na altura em que o Luís Oliveira me desafiou para a rádio, estava a trabalhar com a minha mãe na mercearia que ela tinha nas Pedreiras. O convite para o jornal, portanto, o meu arranque efetivo no jornalismo escrito, deu-se apenas aos 47 anos.

Começa com João Neto como diretor, mas tem ainda a possibilidade de conhecer de perto o fundador do jornal, João Matias. Como foi essa experiência?
Foi muito interessante e daí nasceu uma boa amizade. João Matias era uma pessoa afável, amigo do seu amigo e, além de escrever muito bem, gostava de ensinar. Eu não sabia nada daquilo e foi o senhor João que me deu algumas instruções e me ensinou todos os passos para a feitura do jornal. Comecei por ir com ele à tipografia Capaz, em Mira de Aire , para acompanhar o processo de paginação e perceber o trabalho que era necessário fazer e só algum tempo depois é que passei a assumir essa responsabilidade sozinho.

Apesar dessa mudança, João Matias continuou a colaborar com o jornal…
Sim, manteve-se como simples colaborador, como era seu desejo, mas até ao último dos seus dias viveu sempre intensamente o jornal.
Qualquer pessoa que olhe para o trabalho realizado por ele na fundação e na primeira década do jornal reconhecerá que foi muito e de grande valor. Veja-se a rede de colaboradores que criou ao nível das freguesias e o elevado número de assinantes que, em colaboração com pessoas a quem pediu ajuda ou que se voluntariaram para o efeito, conseguiu reunir em todas as partes do mundo onde houvesse portomosenses. Os tempos são outros, perdeu-se muito do bairrismo, mas hoje seria muito difícil levar essas duas tarefas a bom porto.

Concorda com quem diz que o jornal era como que o terceiro filho de João Matias?
Sim, sem dúvida. Ele viu sempre o jornal como um filho e foi, certamente com pena, que deixou a direção, mas tinha consciência das limitações que a idade já lhe começava a colocar e sabia que, para o projeto poder desenvolver-se, era necessário contar com mais gente e avançar-se para a criação de uma redação.

Esse desenvolvimento começa a dar os primeiros passos precisamente nessa altura…
Sim, procurou-se evoluir, mas respeitando o espírito e os valores do jornal que João Matias deixou bem vincados no seu primeiro editorial. Começámos a ter temas de destaque, a fazer outros trabalhos e a dar maior relevo ao desporto. Com a mudança de tipografia [o jornal passou a ser impresso em Oliveira de Azeméis] mudou-se também o grafismo e foi por essa altura que se deram os primeiros passos na informatização, já que até ali escrevíamos os textos à mão ou à máquina.

A sua ligação “inicial” a O Portomosense durou até maio de 1997, altura em que decidiu abraçar outro desafio profissional. Passados 15 anos, regressou. Como é que se deu esse regresso?
Eu não saí zangado ou porque não gostasse daquilo que fazia. Saí porque na altura a Cincup atravessava grandes dificuldades financeiras e para quem tinha uma família para sustentar não era fácil aquela instabilidade. O meu regresso dá-se por convite da direção então presidida por Eduardo Amaral, pouco depois de me ter reformado. A redação estava algo desfalcada de elementos e acharam que eu, que já ocasionalmente colaborava com o jornal, podia vir dar uma ajuda pela minha experiência e porque conheço bem o meio e as pessoas. E aqui estou. Até ao início da pandemia, estive a meio tempo e agora vou colaborando conforme é necessário.

Trabalhou quase sempre com pessoas muito mais novas. Como é que foi essa experiência?
Muito interessante. Os mais jovens trazem novos conhecimentos e nós tentamos transmitir-lhes aquilo que sabemos. Nesta área, a experiência conta muito, no entanto, nem todos o reconhecem e há quem não aceite muito bem os alertas. Vêm dos cursos com uma ideia que nem sempre corresponde à realidade do terreno, mas enfim, são tudo experiências e é assim que se aprende.
Procurei sempre colaborar com eles e penso que da sua parte aconteceu o mesmo. Criei alguns laços de amizade, recebi ensinamentos e julgo que também transmiti alguns. A diferença de idades nunca foi entrave.

Costuma dizer que aprendeu muito por onde passou antes de se tornar jornalista. É isso que justifica a sua facilidade em lidar com todo o tipo de pessoas e o não demonstrar grande incómodo com as críticas a que está sujeito como qualquer outro jornalista?
Sim, antes de enveredar pelo jornalismo, tive de lidar com todo o tipo de pessoas, desde patrões, a colegas de trabalho e clientes, e isso deu-me uma experiência que se calhar muitos não têm e que ajuda a lidar com situações e pessoas difíceis. De qualquer modo, eu já sou, por natureza, uma pessoa calma, relaciono-me bem com toda a gente e a minha forma de agir é a conversar.
Quanto às críticas, vejo-as como salutares. Nunca me aborreci muito com isso. Aceito-as e vejo se são construtivas. Não sou pessoa de ficar muito tempo a matutar no assunto ou a procurar justificar-me.

Por falar em críticas, diz e já o escreveu mais que uma vez, que o poder autárquico lida mal com a comunicação social regional. Quer explicitar melhor essa sua ideia?
Daquilo que conheci em contacto com autarcas de vários concelhos e do que vou vendo, penso, de facto, que muitas vezes lidam mal com a comunicação social regional ou local. Não é que queiram mandar ou interferir nos jornais, mas não aceitam que o jornalista diga ou critique algumas coisas. Sentem-se injustiçados. Parecem pensar que por estarem a trabalhar em prol da população isso, por si só, os coloca acima de qualquer crítica ou que o seu trabalho só merece elogios e não pode ser assim.

Com frequência ouve-se falar de pressões sobre a comunicação social por parte do poder político e algumas vezes por parte do poder económico. Há ou não pressão?
Qualquer órgão de comunicação social, grande ou pequeno, sofre tentativas de pressão, umas mais discretas que outras, e então nos meios pequenos isso ainda se sente mais. Há vários tipos de pressão e o dizerem-nos «você fez assim e devia ter feito assado», ou o «eh pá, não gostei muito daquilo que vocês fizeram», são tudo formas de nos pressionar.
No caso das empresas a pressão sente-se de outra forma. Há alguns empresários que dizem que só compram publicidade se se fizer um trabalho sobre a sua empresa. Ora, isto é ilegal, tanto para quem o pede como para quem, eventualmente, o faça. Uma coisa é publicidade, outra é informação, e esta não é paga nem está à venda.
Pressões ou tentativas de pressão sempre houve e haverá, umas são é mais claras que outras. Em suma, é difícil fazer jornalismo isento nos meios pequenos mas temos essa obrigação, por nós próprios e pelos nossos leitores e ouvintes.

Projetos como O Portomosense são devidamente acarinhados pelo cidadão comum e pelas entidades locais?
São, mas deviam ser ainda mais, embora O Portomosense até nem seja dos menos acarinhados. No geral, é um projeto com muito boa aceitação em todo o concelho. Infelizmente, há ainda é a ideia, junto de alguns, que aquilo que vem de fora é que é bom. Podemos ter um jornal ou uma rádio tão bons ou melhores que outros da região, mas para essas pessoas os de fora são sempre melhores.

Com o aparecimento da internet e das redes sociais, há quem defenda que os jornais em papel vão desaparecer. Acredita nisso?
Talvez dentro de alguns anos possa acontecer. É certo que as notícias, quando saem em papel, o essencial já é conhecido do público, mas um jornal não é só a notícia “pura e dura” e mesmo essa deve trazer mais informação que a que está disponível online. Os jornais em papel ficam a perder em rapidez, mas podem ganhar na qualidade. Saber-se que a informação impressa num jornal é fruto do trabalho de um profissional devidamente preparado para o efeito e que está sujeito a um conjunto de regras, dá outras garantias.
Por outro lado, ainda há muita gente que não tem acesso ou não sabe trabalhar com estas novas ferramentas de comunicação e há aqueles que continuam a preferir manusear o jornal, sentir o cheiro do papel impresso. A informação em papel tem mais hipóteses de se poder guardar e ficar para a história. Eu, por exemplo, tenho todos os exemplares de O Portomosense.

O que pensa do jornalismo que se faz atualmente em Portugal?
É um jornalismo com alguma qualidade, mas que tem vindo a tornar-se algo sensacionalista e isso é mau. Veja-se a cobertura à chegada da vacina contra a Covid-19 ou ao início da vacinação, em que tivemos jornalistas sempre atrás da ministra da Saúde e depois a perguntarem às pessoas que eram vacinadas tudo e mais alguma coisa, inclusive se tinha doído. Ora, para informar, não é preciso todo esse espetáculo. Também não acho bem as televisões estarem dias inteiros a bater sempre na mesma notícia, sem acrescentarem nada de novo. A nível regional, temos um jornalismo de qualidade e que ainda vai resistindo ao sensacionalismo.

Acredita nas novas gerações?
Sim, claro, mas temos de as apoiar. Não basta a formação académica, temos de ter um bom acompanhamento, tanto ao nível dos estágios curriculares como profissionais. Os ensinamentos da escola têm de ser reforçados com boas práticas e aí entra não só o ensinar a fazer bem o trabalho, mas, muito importante, a transmissão de valores, nomeadamente o respeito pelo nosso código deontológico. O exemplo é uma das melhores formas de ensino. Há pouco falávamos do sensacionalismo e é óbvio que se um jovem for estagiar para um jornal sensacionalista, mesmo que lá não fique, tenderá, no futuro, a atuar da forma como foi treinado. É por isso que precisamos, também a esse nível, de boa formação.