E se deixássemos de oferecer presentes no Natal?

4 Dezembro 2025

E se deixássemos de oferecer presentes no Natal? Deixo a pergunta no ar, como quem gostava de colocar essa ideia em prática mas que, ao mesmo tempo, sente obrigação de oferecer por querer corresponder aos padrões impostos por uma sociedade cada vez mais consumista. Temos noção que somos esse tipo de sociedade mas, mesmo assim, insistimos em continuar a alimentar essa monstruosa máquina capitalista. Não quero com isto dizer que sejamos inteiramente culpados por isso. Não, não somos. Seria incorreto e injusto da minha parte fazê-lo. Atribuir uma culpa às pessoas por comprarem (tantas vezes) de forma desenfreada, esquecendo todo o sistema que está montado por detrás e que as leva precisamente a comprarem mais e mais. 

Reconheço sim que temos uma quota parte de culpa porque, enquanto seres humanos, com poder total de decisão sobre as nossas ações, deveríamos fazer um esforço para sermos mais contidos no que toca a adquirir coisas, sem grande ponderação. Mas sei que caminhamos exatamente para o sentido contrário. Hoje em dia, é tudo muito fácil, sobretudo o que envolve gastar dinheiro. Cabe a cada um de nós, colocar a mão na consciência e fazer um esforço – que se revela, por vezes, quase hercúleo – de tentar pensar se aquilo que se está prestes a comprar é realmente necessário ou não passa apenas de uma compra por impulso. Devemos dizer  “Dia de Natal” ou “Dia das Prendas”? Parece que o Natal, tal como o conhecíamos, já não o é mais. Chegámos a um ponto em que interessa mais qual a marca e o tipo de presente que se recebe do que a harmonia familiar, o tentar saber como está o outro. 

Volto à pergunta inicial: E se deixássemos de dar presentes no Natal? Será que voltaria o espírito que tanta gente diz que já se perdeu? Será que voltaríamos a focar-nos apenas e só no essencial? E se combinássemos todos que passaríamos a oferecer algo a alguém, em momentos aleatórios do ano, sem que ninguém estivesse à espera? E se a certeza e a garantia de que irá receber um presente, no dia 24 ou no dia 25, desse lugar à imprevisibilidade de o receber num outro qualquer dia do calendário? Já imaginou como se sentiria se isso acontecesse? Embora sejam muitos aqueles que não gostem de ser surpreendidos, a verdade é que não tenho dúvidas de que algo de bom iria sentir, se numa quarta-feira cinzenta, completamente consumido pela rotina, alguém lhe chegasse a casa e lhe desse um presente. Apenas porque sim. 

Sei que esta minha ideia, para muitos poderá aproximar-se de uma utopia, e embora reconheça que essa decisão seria um passo de gigante, que poderia vir a ter consequências desastrosas na economia, acredito que os benefícios que nos ofereceria seriam, também eles, muito expressivos e benéficos. Mas enquanto não se chega até aí, partilho aquela que é tradição na Islândia, onde por ocasião do Natal não se trocam prendas mas sim livros. O livro, embora também ele seja um bem material, abarca em si uma série de características que o tornam único. Por isso, fica a sugestão: e se neste Natal todos escolhêssemos oferecer livros uns aos outros? Daqui a um ano teríamos, com toda a certeza, uma sociedade um bocadinho mais culta e não há nenhum outro presente que consiga rivalizar com tudo aquilo que um livro nos consegue dar.