Referimo-nos a “mau tempo” quando está frio, chuva ou vento, mas nunca quando está um sol radioso. Quando os dias começam a ficar mais pequenos, isso é sinónimo, para muitas pessoas, de que a paciência e o bom humor também diminuem. Estudos científicos corroboram esta tendência e apontam alguns motivos. O inverno começou na passada segunda-feira e por isso, não há altura melhor, para refletir sobre o assunto. Alcina Rosa, psicóloga portomosense, confirma esta tese, embora frise que por si só, o frio não seja um fator de tristeza, a verdade é que «agudiza» alguns estados depressivos. «Há muitos fatores que afetam o nosso humor e o nosso equilíbrio e um deles são as condições climáticas», começa por referir. O humor é de facto menos favorável «quando chove, quando o céu está muito nublado»: «Quando saíamos à rua e está frio, está a chover, ficamos todos molhados, temos de andar com o chapéu. A pessoa tem mais dificuldade em levantar-se da cama. Tudo isto faz com que a pessoa não queira sair de casa e fique mais isolada», salienta.

Para quem as oscilações de humor são frequentes, isto obriga «a um esforço acrescido que algumas pessoas desenvolvem naturalmente» para se sentirem melhor. A psicóloga aponta algumas possibilidades: «A pessoa pensar que é bom viver, que não tem oportunidade de viver este dia outra vez, portanto mais vale tirar o melhor proveito possível». O inverno «também tem coisas positivas» e por isso é importante que a pessoa «aprenda a refletir a mudar a própria filosofia de vida, para poder aprender a reagir a isto de uma maneira positiva». «Há pessoas que gostam muito da roupa de inverno, por exemplo, é um fator para gostarem do inverno. Se as pessoas associarem o inverno a uma lareira, a bebidas quentes, ao Natal, essas associações vão permitir melhorar o humor», frisa Alcina Rosa.

Para quem tenha «condições financeiras mais desfavoráveis» o inverno pode ser ainda pior. «Partindo do princípio que temos casas bem calafetadas, aquecidas, que temos boas roupas, tudo melhora», para quem não consiga garantir estas condições «tudo se dificulta». O mês de janeiro pode ser o mais complicado, algo que pode ser explicado com os meses que o antecedem: «Em novembro há o Dia de Todos os Santos, em dezembro também há vários feriados. As pessoas convivem, saem mais, têm o Natal, janeiro é um mês em que as pessoas estão a recuperar das festas, financeiramente podem ter mais dificuldades». Acresce a isto o facto das «pessoas refletirem sobre os exageros da comida e sobre as despesas que fizeram». No final do mês, «quando os dias começam a crescer, então as coisas começam a mudar de figura», salienta.

Embora a psicóloga acredite no impacto do inverno no humor das pessoas, deixa uma nota de que esta não é uma situação exclusiva desta estação. «Pode parecer contraditório, mas a primavera também é um fator de agudização dos estados depressivos, quando se dá o nascer da folha», explica. «Temos o ciclo do inverno, de frio e a primavera é um renascer, então pode acontecer que as pessoas coloquem muitas expetativas nesta estação, que tudo vai acontecer de bom. E o que vai acontecer, não escolhe estações», conclui.

E quando o inverno até pode ajudar?

Cláudio Santos é professor de Biologia e Geologia do Instituto Educativo do Juncal há 20 anos e trabalha com alunos desde o 5.º ao 12.º anos. Na sua vida extra-professor sente de facto algum impacto do inverno: «Em termos familiares, posso dizer que se sente algum impacto, por exemplo com a minha mãe e alguns familiares mais próximos. Os dias são mais curtos, as pessoas recolhem-se mais, acabam por estar mais isoladas e aí sinto que possa ter algum efeito na animosidade das pessoas». No entanto, uma das temáticas sobre as quais queríamos refletir é se estes efeitos se sentem, por exemplo, no aproveitamento dos alunos e aí, a visão do professor é oposta.

«Eu não posso dizer que o inverno tenha um efeito diferente na minha prática pedagógica. Há uma série de variáveis que vão fazendo com que a motivação ao longo do ano varie, mas não identifico que tenha a haver especificamente com o inverno». Pelo contrário, Cláudio Santos acredita mesmo que o inverno pode ajudar. «Quando começa a surgir a primavera ou o verão, sentimos os alunos mais desconcentrados, com mais vontade de fazer atividades ao ar livre em vez de estar na sala de aula. O inverno até acaba por ser um bocadinho mais propício à sala de aula e ao trabalho. No meu entender, desde que hajam condições de conforto que promovam o bem-estar dos alunos, quer na sala de aula, quer em casa, eu acho mesmo que acaba por ser mais propício». Cláudio Santos até costuma usar o inverno como um incetivo: «Eu até costumo dizer aos alunos, quando estão estes dias de Inverno que está mesmo bom é para nós estarmos a fazer o nosso trabalho e a aprender umas coisas, a desenvolver as nossas capacidades, porque de facto lá fora não está agradável». Se «houver conforto», seja em casa, ou na sala de aula, o professor acredita que «acaba por ser mais fácil pegar nos livros, ou nos cadernos e trabalhar».

Cláudio Santos admite que o facto dos alunos «serem ainda muito jovens» faz com que possam sentir menos a questão do inverno como os adultos. Ainda assim, o professor defende que apesar das estações do ano poderem ter impacto, a predisposição dos alunos muda mais tendo em conta «as temáticas que se estão a trabalhar ou até a forma como o professor traz a matéria para a aula».