Em Entrevista… António Carvalho

by | 11 Ago 2022

António Carvalho é uma figura incontornável no Centro Cultural e Recreativo do Alqueidão da Serra (CCR). Durante 26 anos pertenceu à direção do clube, como secretário, vice-presidente e presidente e foi também, em grande parte, a cara da associação. Agora, por força da idade, decidiu passar para a Assembleia Geral, num passo que considera lógico para a saída em definitivo da estrutura do clube. Nesta entrevista, falou-nos daquilo que motivou a sua saída da direção e das perspetivas que tem para aquele que é o seu clube do coração.

Esteve 26 anos na direção do CCR, não é metade da sua vida mas é uma boa parte. Foi um tempo bem vivido e bem aproveitado?
Não é efetivamente metade, mas é mais de um terço e eu direi que se voltasse atrás, provavelmente iria fazer a mesma coisa. Estou ligado ao futebol desde sempre. Pelo andar da vida, sobretudo a partir dos 16 anos, fiquei, de uma maneira informal, a tomar conta do futebol no Alqueidão [da Serra] e fomos assim vivendo até a altura do 25 de abril, em que depois houve a possibilidade de transformar o futebol de informal em formal. Celebramos a data da constituição em 11 de julho de 1975, mas formalmente foi em 16 de abril de 1976 que foi feita a escritura pública da constituição do CCR. Tive um período de 1973 a 1982 em que por razões estudantis e profissionais, estive de algum modo afastado ou menos ligado à atividade do futebol. Dois anos depois de regressar, entrei na direção, como secretário onde estive durante seis anos. Depois voltei a estar fora, fundamentalmente num período em que me dediquei muito mais ao atletismo, praticamente todos os domingos corria. Em 2000, senti uma dor no tendão de Aquiles e vi que a carreira, em termos de atletismo, que nunca foi brilhante, tinha acabado. Entrei para a direção do CCR e para a Junta do Alqueidão da Serra e, se voltasse atrás, estou firmemente convencido de que voltava a fazer a mesma coisa.

Vai agora passar a estar na Assembleia Geral (AG), porquê deixar a direção?
Fundamentalmente porque o tempo passa, vamos perdendo condições, força de trabalho, o cargo cada vez é mais exigente. Senti uma grande marca que foi a existência da COVID-19, que esteve presente nestes dois anos em todos os momentos. Quase todos os dias a saírem orientações da Associação de Futebol de Leiria, que por sua vez estavam, algumas das vezes, não totalmente bem desenhadas com a Federação Portuguesa de Futebol. Esta, por sua vez, também não tinha as situações perfeitamente definidas com o poder central. Continuamente tivemos que saber se hoje usamos máscara ou não, depois sabíamos que tínhamos que fazer um conjunto de trabalhos prévios, saber como é que as pessoas podem entrar, se têm que estar registadas, se alguma delas tem algum problema. Tivemos que atender a um conjunto de situações que era muito mais exigente, logo em termos do espaço que controlávamos e no espaço em que estávamos relacionados. As assembleias [gerais] passaram a ser feitas não presencialmente, mas via Skype ou noutra modalidade parecida, com dificuldades que aparecem de todo o género, com reuniões abertas com mais de um quarteirão de pessoas a quererem intervir e a não saberem ainda manobrar os equipamentos de que dispunham. Não sou novo, muito longe disso, já fiz 75 anos e vi, nos últimos 20 anos da minha carreira, que nunca seria um bom informático, nem como utilizador. Entendo – hoje ainda entendo mais –, que isto são períodos da vida. Se nós aprendemos a trabalhar de uma determinada maneira, temos sempre aquilo que em psicologia chamamos de resistência à mudança e temos sempre a tendência de continuar a fazer as coisas da mesma maneira, sobretudo quando o modo já está consolidado. Essa foi uma das razões, talvez a principal, por que vou sair. Também tenho a noção exata de que se eu tivesse saído em 2002, 2004, 2006, 2008 e por aí fora, muito provavelmente teria muito mais dificuldade em ser substituído do que agora. Hoje, penso que o CCR está em condições de começarem a aparecer situações que nunca apareceram, aparecer mais do que uma lista, por exemplo. O CCR está numa situação que podemos considerar razoável ou mesmo boa, não temos endividamento nenhum, nunca tivemos, temos um clube com uma paz total, damo-nos muito bem com as restantes associações do Alqueidão, todo o património que temos, flui por todas as associações como se fosse de um só. É este o ambiente que hoje o Alqueidão tem, penso que melhor não poderá existir. Também nos relacionamos de uma maneira ótima com todos os clubes com quem jogamos. Tenho uma ótima relação com todos os presidentes de todos os clubes e sinto que aquela consideração e aquela amizade que transparece nos olhos é mesmo verdadeira. Tento retribuir da mesma maneira. O ambiente em termos de relacionamento das direções é efetivamente muito bom hoje, na Divisão de Honra.

Disse que noutros anos seria mais difícil ver-se substituído na direção, o que é que mudou para que agora haja mais gente interessada em pegar naquele projeto?
Hoje temos uma direção, um grupo de trabalho, em que eu tenho toda a confiança e acho que é um grupo que se vai manter durante muito tempo. Desde que tenham um orientador principal e uma cabeça principal em quem acreditem, hoje é muito mais fácil agregar pessoas. Sentimos isso em muitos domínios, em muitas esferas de ação, por exemplo nas tasquinhas, onde o Alqueidão tem 80 pessoas ou talvez mais [a colaborar ao longo dos dias de Festa]. Temos um ótimo elemento, que é o Hélder Carvalho, e que é efetivamente um indivíduo brilhante, com um grande poder de comando e disciplina e essa é sempre uma das razões. Mas quando o pessoal sente que tem alguém à frente e alguém em quem pode acreditar, as pessoas unem-se. Nunca me poderei queixar muito também dos tempos que vivi para trás, mas hoje estamos muito melhor neste domínio.

Neste momento, o novo presidente é Nuno Carvalho, que é seu filho, como é que olhou para esta candidatura e que futuro vê para o clube com este novo presidente?
Foi uma surpresa completa. Fizemos a substituição da direção com todo o cuidado e com todo o tempo. No início do último mandato, disse logo que era o último. Quando cheguei a fevereiro deste ano, disse na direção que era melhor começarmos a preparar as eleições, que historicamente são feitas em maio. A partir de fevereiro começámos a pensar nisto, na altura foi-me perguntado se queria ficar em algum órgão social e eu disse que não. Viemos a marcar eleições em abril e quando estávamos já muito próximos da data marcada para as eleições, um dia, ao almoço, o meu filho surpreende-me: “Pai, se calhar, estava a fazer conta em candidatar-me”. Foi uma surpresa completa. Em termos de capacidade, é um dos homens indicados. Tem experiência porque talvez há 10 anos que me acompanha em termos de direção, formalmente enquanto secretário, e do ponto de vista real, em muito mais do que isso. Depois tem um bom grupo de trabalho, pessoas disponíveis, portanto eu vejo um bom mandato.
Quando há seis anos eu estive para sair, quem se perfilou na altura como potencial candidato, foi um genro meu com quem nunca falei sobre futebol. Depois apareceu outra pessoa, o Hélder Carvalho, e ele já não se candidatou. Mas na primeira oportunidade, quis saber porquê. E ele respondeu-me: “Depois do esforço que eu o vi fazer, não era capaz de deixar morrer aquilo”. Isso traz-me alguma emoção. Já vivi isto tudo, sou velho, mas por tudo isto, voltava outra vez atrás, são as boas e as más sensações que se têm, quase sempre partilhadas. Tanta vez fui para o travesseiro da cama a dizer: “A melhor coisa é sair amanhã”.

Passa agora para a AG. Qual vai ser a sua missão neste órgão?
A missão, agora, é efetivamente diferente. De acordo com os estatutos, é pouco mais do que orientar e disciplinar as AG, ter em atenção os direitos e os deveres dos sócios, dar a possibilidade de decisão acerca das quotas, quotas em atraso e o seu montante, e alguma disciplina também em relação a isto porque temos algumas falhas e temos que recuperar. Vou tentar enquadrar a minha atividade com aquilo que dizem os estatutos, tentando no mínimo cumprir os estatutos e ver o que é que está desatualizado ou não.

Passar para a AG é mais um passo para depois sair em definitivo da estrutura do clube?
Eu sempre disse, e é evidente, que quanto mais o tempo avança, quanto mais me aproximo dos últimos dias, naturalmente que menor é a esperança de vida, é inevitável. Neste caso, direi que é o passo lógico, é um passo de alguma perda de atividade, concentrar-me nos desejos e deveres dos sócios e ter uma atividade muito mais restrita e muito menos exigente.

Depois de tantos anos com uma missão tão grande dentro do clube e que lhe tomava tanto tempo, como vai ser agora a sua vida, sem o CCR?
Vou continuar a viver o CCR, agora como presidente da AG e como sócio e adepto, porque houve muitos momentos em que ouvi um turbilhão muito grande à minha volta, muita gente a falar e senti que era a única pessoa que não podia falar, porque era sempre ouvido de uma maneira diferente [por ser presidente] e, às vezes, que é o pior, de uma maneira que não era exatamente aquela que queria. Desde já, posso aqui garantir que as direções que ficarem não vão ter um crítico. Dei tudo ao CCR, mas o CCR não me deve nada. Apenas desejo sentar-me numa cadeira a ver o jogo da bola ou, num acontecimento qualquer dentro do CCR, sentir-me bem, sentir que fui mais um dos que – praticamente todos do Alqueidão – participou na construção do clube, sentir que sou também uma célula daquela cadeia e do correr da vida do CCR. Não quero mais nada do que isso.

Catarina Correia Martins
| texto e foto

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