Em Entrevista… Cristina Meireles

9 Dez 2020

Cristina Meireles é a presidente do Conselho de Administração da Cooperativa de Ensino e Reabilitação de Crianças Inadaptadas de Leiria (CERCILEI) e foi a escolhida pel’O Portomosense para ser a entrevistada desta edição. Na conversa, fala-nos das adaptações que foram, necessariamente, implementadas na instituição por força da chegada da COVID-19, assim como da reação dos jovens a essas mesmas medidas. Na entrevista coube ainda um dos maiores objetivos da CERCILEI: a construção de uma nova unidade residencial.

Estamos todos a viver um período complicado e diferente de tudo o que experimentámos até agora. As instituições e associações estão a ajustar-se todos os dias. No vosso caso, que adaptações foram necessárias?
Foi um choque em março, quando tivemos que ir todos para casa, tomámos consciência da gravidade da situação e dos cuidados a ter. Quando foi o recomeço progressivo da atividade, baseámo-nos em orientações da Segurança Social, da Organização Mundial de Saúde e cumprimos, como ainda hoje, à risca, todas essas orientações. Reduzimos o grupo para conseguirmos manter o distanciamento social. Hoje, continuamos a funcionar com grupos de seis em cada sala. As refeições são feitas por grupos, se tínhamos dois turnos de almoços, passámos a ter três, se as refeições eram feitas só nos refeitórios, nalguns grupos passaram a ser feitas na sua sala. Os intervalos também são por grupos, distanciados uns dos outros. À entrada das carrinhas ou à entrada da instituição, é-lhes medida a febre, há a higienização constante das mãos e do calçado à entrada. Usam uma bata que fica na instituição o tempo todo e não podem trazer nada de casa. Acabámos com todas as atividades feitas fora da instituição.
É uma tristeza vê-los de máscara, mas eles cumprem… Há alguns casos em que é extremamente difícil, têm menos capacidade e mais dificuldade em aguentar a máscara ou a viseira, mas todos os outros conseguem. Foram algumas regras que tivemos que implementar, mas que eles aceitaram e que cumprem e acabam por ser felizes e é essa a nossa principal preocupação. Aquilo que eu gostava de referir é que só o facto de terem regressado à instituição, de se verem e de poderem conversar, ainda que à distância, foi uma alegria para eles. Mais para eles do que para nós. Para nós, técnicos, é um constrangimento ter que funcionar desta maneira.
Os nossos jovens das unidades residenciais são os únicos que não vão à instituição e temos técnicos definidos da valência ocupacional, que trabalham nos lares, para que eles possam continuar a beneficiar das atividades.

Muito se tem falado acerca dos cidadãos portadores de deficiência, sobretudo mental, e da dificuldade acrescida que têm sentido nesta fase. Como tem sentido estas dificuldades junto dos utentes da CERCILEI?
A falta do toque foi terrível, porque eles aproximam-se para nos abraçar e para dar e receber afeto e tivemos que dizer que não podia ser, que agora simulamos o coração e os abraços, mandamos beijinhos uns aos outros e acaba por ser assim. Há um reforço positivo quando conseguem fazer alguma tarefa que lhes é proposta, o elogio é constante. Outros têm mais dificuldade, temos alguns autista que têm que ser contidos. Quando entram em agressividade, para não permitirmos que possam ser agressivos com os outros e com eles próprios, tem que haver uma aproximação e contacto físico. É um bocado complicado, mas também entendemos que devemos dar resposta a esses para aliviar um bocadinho as famílias.

Qual acha que é o real impacto de todas estas medidas na vida deles?
Do conhecimento que temos junto das famílias, eles gostam de vir à instituição. Penso que as famílias também confiam muito em nós e tiveram um trabalho extraordinário porque os jovens já vinham habituados ao uso da máscara. Sinceramente, tinha menos expectativas e estava mais reticente do que eles, o que significa que em casa houve um bom trabalho, naquele período de confinamento, e a transição para a instituição fez-se com alguma tranquilidade. Os nossos miúdos do lar têm muitas saudades de ir ao Centro de Atividades Ocupacionais, estar com os colegas, mas há a esperança que venha a vacina e que tudo volte ao normal.

E para a instituição, quais as maiores consequências?
Tem repercussões financeiras e encargos para a instituição porque não se comprava este tipo de material, tivemos ajudas de programas para o efeito, mas as ajudas não são eternas. Queremos cobrir dois pátios de modo a que, no caso da formação profissional, eles possam ter um abrigo para a refeição. Tudo isto são encargos para a instituição, agravados pelo facto de não podermos fazer angariações de fundos.

A CERCILEI tem uma forte âncora na relação com os pais e no esforço que faz para que os jovens sejam devidamente integrados na comunidade local. Considera que a relação com o exterior é um pilar fundamental quer para a instituição, quer para o desenvolvimento dos jovens?
Sim, sem os pais, dificilmente conseguiríamos fazer um trabalho com qualidade. Essa relação sempre existiu, sempre tentámos envolver os pais, aliás os órgãos sociais têm pais. Se eles estiverem envolvidos, o barco anda, se não, tem mais dificuldade em andar e, se for ao fundo, os pais estão de fora. Se fizerem parte da comitiva do barco, a responsabilidade é de todos. Procuramos sempre o envolvimento dos pais, pô-los a par da situação, dar-lhes liberdade de optar e de sugerir. É fundamental esta articulação, assim como a compreensão da comunidade. Tínhamos jovens integrados em Atividades Socialmente Úteis e é evidente que deixaram de poder estar. Houve a compreensão e esperemos que, quando esta fase passar, as empresas estejam novamente recetivas a ter os nossos jovens, porque para eles é muito importante.

Eles sentem muita falta dessas atividades?
Sentem a falta do trabalho e da remuneração que recebiam por ele. Nas salas, estão em atividades, mas ocupacionais, não são produtivas, não há a responsabilidade do trabalho, logo aí há uma diferença. Na nossa equipa de jardinagem, por exemplo, têm o chefe de equipa, e falam de como correu o trabalho, comungam das preocupações dos jardineiros. Tudo isso faz falta.
O mais complicado é gerir a parte emocional. Recebo muitos telefonemas dos jovens do lar para saber como estamos, quando vem a vacina, quando se volta ao trabalho… Esta relação de transparência, ouvi-los, compreendê-los, tem sido muito importante e julgo que se o vírus serviu para alguma coisa, foi para humanizar ainda mais as pessoas e pensar no coletivo. A sociedade estava muito egoísta, muito individualista. Neste momento somos todos iguais, estamos sujeitos às mesmas regras de um vírus invisível que insiste em permanecer. E não é só a população com deficiência que muitas vezes é posta de lado e afastada. Algo apareceu que nos obriga a estar afastados uns dos outros, a descriminarmo-nos uns aos outros, talvez assim as pessoas possam dar mais valor à proximidade, à conversa, à presença e a sermos uns para os outros.

Uma das ambições da CERCILEI é a construção da estrutura residencial para pessoas com deficiência intelectual, um objetivo que está agora mais perto. Pode falar-nos um pouco acerca do projeto?
Está mais perto, porque abriu a candidatura ao programa PARES [de financiamento comunitário] para as unidades residenciais. É uma luta que vamos travar, porque o financiamento não é a 100% e, portanto, o resto tem que ser a própria instituição a adquirir. Estamos a contar com a colaboração das Câmaras, temos tido reuniões com as diversas autarquias e estamos convencidos de que, sendo um bem social necessário, vão continuar recetivas e apoiar-nos para que este projeto seja, de facto, uma realidade. Iremos contactar também empresas, porque todas as ajudas são importantíssimas. Vamos ter que fazer um empréstimo ao banco e depois acreditamos que a mãozinha do céu que nos está sempre a ajudar, a proteção divina, se vai encarregar de nos orientar e de nos dar sinais para que possamos ter esta obra, tão necessária.

Que infraestrutura é esta? Porque é que é necessária? E qual a diferença desta resposta para aquelas que a CERCILEI já tem?
Temos duas unidades residenciais, uma em Amor e a outra em Leiria. A de Amor corresponde às exigências legais e é uma moradia adquirida. Está muito bem situada, no contexto da comunidade e está a funcionar muito bem. A de Leiria é uma casa mais antiga, arrendada, e que não consegue satisfazer as exigências. Tem escadas, por exemplo, não tem acesso a cadeiras de rodas ou a pessoas com mobilidade reduzida. Tem continuado a funcionar, sempre na expectativa de, logo que seja oportuno, construirmos um lar de raiz com as tais exigências impostas.
Temos terreno que foi cedido pela Câmara Municipal de Leiria, nos Marrazes. Esta unidade residencial vai dar resposta não só aos 12 jovens que temos no lar em Leiria, como também vai alargar mais 18 lugares. Está muito bem situada, ao pé da igreja dos Marrazes, no meio da comunidade, com a facilidade de se poder ir à cidade, tem tudo perto e acho que vai ser muito bom para eles.

Enquanto presidente, qual a importância que atribui a uma instituição como a CERCILEI para a comunidade em que está inserida?
É uma instituição que trabalha muito com parcerias, sozinha não consegue fazer nada, e que espera continuar, apesar destas crises todas, a poder ser considerada um parceiro na sociedade. É uma resposta não só para as pessoas que atende, mas também para as famílias, porque lhes possibilita espaço para poderem trabalhar e serem cidadãos como todos os outros. Ninguém tem culpa de ter um elemento na família impossibilitado de ter uma vida igual aos outros. Acho que fazemos parte da sociedade, temos que ser vistos como tal e temos que receber o apoio de todos para podermos ser humanos e estarmos todos na mesma sociedade e com os mesmos direitos.