Em Entrevista… João Carlos Ferreira

10 Mai 2021

João Carlos Ferreira termina daqui a poucos meses o primeiro mandato à frente da Junta de Freguesia do Juncal e avança já, nesta entrevista, que não será recandidato nas eleições autárquicas marcadas para este ano. O presidente faz um balanço positivo destes quatro anos, embora assuma que gostava que o Juncal tivesse evoluído mais, uma localidade onde o encerramento de indústrias foi uma realidade que entristece o autarca.

Que balanço faz destes quatro anos à frente da Junta de Freguesia?
O balanço é positivo. Para mim foi um primeiro mandato em que me deparei com muitas situações novas, com uma realidade diferente daquela a que estava habituado a trabalhar no dia-a-dia, no entanto, admito que é um balanço positivo.

Económica e socialmente, tem sentido que a freguesia se tem desenvolvido de forma sustentada?
Infelizmente, não tanto quanto eu e o executivo gostaríamos que tivesse acontecido e neste último ano temos sido confrontados com a situação da pandemia que não tem ajudado em nada. De facto, perdemos muita indústria no Juncal e portanto o desenvolvimento não é aquele que gostaríamos que acontecesse e que gostaríamos de ver. Dentro de alguns setores, felizmente, ainda se vai progredindo e continuando a desenvolver, mas de forma geral não era aquilo que se perspetivava.

Embora o mandato esteja na reta final ainda há projetos que quer realizar?
Neste momento temos três projetos que já estão em marcha. O primeiro é a obra do Largo do Brejo, está prestes a iniciar e queria concluí-la ainda no meu mandato. Será feita também a aquisição de um terreno para futuras instalações do estaleiro da Junta de Freguesia, que até aqui não tínhamos, o espaço que existia não era da Junta. Queremos ainda proceder à aquisição de uma máquina e de algum equipamento de complemento a essa máquina.

Será candidato nas próximas eleições?
Já decidi que não serei candidato. Para já, porque há quatro anos, quando me candidatei, havia uma perspetiva de vida diferente daquilo que eu estou a viver neste momento, algumas coisas aconteceram que não estavam previstas acontecer e tive que reestruturar um pouco a minha vida pessoal. Por tudo isto, a disponibilidade que tenho neste momento não me permite dar seguimento ao projeto numa Junta de Freguesia. Depois, porque as coisas têm vindo a alterar-se muito, a responsabilidade é bastante grande. Atendendo à minha escassez de tempo não me sinto confortável para me poder recandidatar por mais um mandato.

O Juncal é uma terra que teve em tempos uma indústria muito forte nomeadamente em termos de cerâmica. Tem também uma forte dinâmica de empresas de transporte de mercadorias. Daquilo que conhece, como é que está o setor industrial e em especial estas duas áreas?
Felizmente o setor dos transportes, penso que, neste momento, ainda vai conseguido resistir, mesmo com todas as dificuldades inerentes à pandemia que estamos a viver, é um setor que de facto ainda vai desenvolvendo. A questão da indústria cerâmica é que caiu muito. Há muitas cerâmicas que encerraram, nomeadamente na parte artística. As que estão a laborar, segundo a informação que vamos tendo, continuam a laborar bem. São admitidas mais pessoas, mas são menos as cerâmicas a trabalhar neste momento, havia muito mais indústrias, muito mais nicho de negócio que aquilo que existe atualmente. Neste momento está concentrado em duas ou três indústrias fortes e as pequeninas praticamente desapareceram. Tudo isto tem a ver com a situação global que estamos a viver, o mercado estrangeiro também fechou, a cerâmica é um mercado também um pouco cíclico e houve pessoas que não tiveram condições de acompanhar a evolução, deixaram de ter serviço e tiveram que optar por encerrar.

O facto da sede de freguesia ser uma vila traz-lhe algum benefício ou vantagem em relação a freguesias que contam só com aldeias?
Sim, acredito que possa trazer algumas vantagens, mas o Juncal infelizmente não tem conseguido dar esse salto que era suposto, que pretenderíamos que desse. Há coisas que não conseguimos que tivessem seguido o caminho que pretendíamos numa fase inicial.

Olhando apenas para a vila, o que é que mais falta lhe faz? E qual é a sua principal mais-valia, ou aquilo que de melhor tem?
Neste momento, uma das mais-valias que temos a nível do centro do Juncal, é de facto o Instituto Educativo do Juncal. É uma instituição que continua a trazer muita gente de fora, faz com que haja um movimento com alguma regularidade dentro do Juncal. Temos também a farmácia, temos da parte do comércio, o talho, a padaria, que faz com que venham algumas pessoas de fora da vila, das aldeias que fazem parte da freguesia e que se deslocam ao centro da vila. Depois, temos um grande problema que não conseguimos resolver neste mandato e é uma situação que terá que levar uma grande volta para se conseguir resolver que tem a ver com o estacionamento e as vias de circulação dentro do Juncal que são cada vez mais caóticas e difíceis. Tenho que admitir que isto afasta as pessoas, porque para irem para qualquer lado têm dificuldade, o trânsito é caótico, se chegarmos ao Juncal nas designadas horas de ponta, se é que podemos considerar horas de ponta, de facto é difícil circular dentro da vila, as ruas são estreitas, as pessoas estacionam os carros de qualquer forma e maneira e esquecem-se dos outros. Já para não dizer que mesmo durante a noite estacionam as viaturas de determinada forma que se houver necessidade de passar um carro de bombeiros, haverá sítios em que não é possível.

O que é que diferencia o Juncal das outras freguesias?
Acho que temos de facto um centro em que estamos servidos com o banco, com os cafés, com a padaria, com o talho, a farmácia, tudo centralizado. Depois temos o turismo, alguns locais bastante interessantes. Cada vez mais o turismo rural está em crescimento e nós temos sítios agradáveis para poder visitar e conhecer a freguesia, não estou a dizer que não existam noutras freguesias, mas acho que são questões que de certa forma diferenciam a freguesia do Juncal.

A comunidade local tem sido uma aliada durante a sua presidência?
Tenho que admitir que, no geral, não. Em muitas situações sim, mas temos sentido sempre que há algumas dificuldades, algumas situações complicadas de conseguir ultrapassar. As pessoas são cada vez mais insatisfeitas, cada vez mais exigentes mas também cada vez menos participativas.

Mas abordam-no muito?
Sim. Vão abordando pontualmente alguns assuntos comigo de situações que gostariam de ver melhoradas ou resolvidas, mas muitas vezes eu peço às pessoas para irem ao local público, à sede da Junta, para exporem a situação e para tentarmos conversar mas depois não aparecem. Mesmo nas próprias Assembleias de Freguesia, infelizmente, aparecem duas ou três pessoas, não mais do que isso. Mas eu sei que muitas vezes as coisas na rua são faladas, não são é faladas no momento e no local próprio para serem tratadas.

Na freguesia existe um dos três corpos de bombeiros do concelho. Que importância atribui à associação humanitária e ao seu corpo de bombeiros?
O quartel é bastante importante, como em qualquer localidade onde possa existir um corpo de bombeiros, acho que é sempre bastante interessante podermos beneficiar deste serviço. Agora, é pena, por vezes, não conseguirmos dar um apoio diferente, dar um acompanhamento diferente, mas obviamente que é bastante importante e bastante útil para a freguesia. A corporação também está todos os dias a tentar evoluir, em função das situações com que vai sendo confrontada, mas neste meu mandato, é de salientar aquilo que eles têm vindo a fazer ao longo destes anos.

A freguesia do Juncal teve sempre um movimento associativo dinâmico. Se pensarmos numa realidade anterior à pandemia foi esse cenário que encontrou quando se tornou presidente de Junta?
O movimento associativo é sempre muito importante e antes da pandemia obviamente que tinha um poder muito superior porque de facto, neste momento, teve uma redução significativa, inclusivamente algumas das associações estiveram praticamente paradas. Algumas coisas estão agora a ser retomadas mas a perceção que temos é que o movimento associativo não vai conseguir retomar com a força com que gostaríamos e com que estava anteriormente a funcionar. Obviamente que isso trouxe uma quebra bastante significativa ao nível da freguesia, eram pontos de encontro, eram locais de convívio, e neste momento são locais de onde as pessoas estão afastadas, porque os tempos não estão propícios ao convívio mais próximo entre as pessoas.

Há associações que dizem mesmo que podem não conseguir aguentar depois da pandemia. Qual é o feedback que tem recebido das associações do Juncal?
As dificuldades existem e vão continuar a existir, mas do cômputo geral, a informação que eu tenho, é que todas as associações vão reabrir e dar continuidade. Agora, resta saber se a continuidade vai poder ser aquilo que estava a acontecer antes da pandemia. Nós achamos que pode ser um pouco difícil.

Como autarca, que dificuldades é que esta pandemia lhe trouxe?
O trabalho de autarca é um trabalho que já não é fácil de todo, vamos sendo confrontados todos os dias com muitas alterações, muitas regras, muitas imposições, uma quantidade de situações de legislação que estão constantemente a alterar. Com isto da pandemia tem sido tudo muito mais inconstante, ou seja, têm havido muito mais alterações, o que muitas vezes dificulta que consigamos fazer a nossa adaptação às constantes mudanças que estão a existir no dia-a-dia. Como autarca sinto que é complicado hoje em dia dar resposta a todas as dificuldades com que vamos sendo confrontados. A vida de um autarca não é fácil.

Acumula a sua profissão com o cargo de presidente de Junta. Tem sido difícil conciliar ambos?
Neste momento, tendo em conta a função que desempenho a nível profissional, tem sido muito difícil fazer um acompanhamento como gostaria e como inicialmente comecei por fazer a nível da gestão da freguesia. O meu trabalho ocupa-me bastante tempo, tento fazer a diferenciação entre o que é a vida profissional e o que é a vida como autarca mas isso nem sempre se consegue fazer. Estes últimos tempos têm sido um bocado complicados, porque efetivamente não tenho a disponibilidade que gostaria e que a freguesia também necessita que haja para fazer o acompanhamento das situações do dia-a-dia. Implica que muitas vezes, fora de horas, tenha que ir à Junta de Freguesia, tenha que tentar agendar sempre para o final do dia para poder estar mais disponível para os assuntos em concreto.