Em entrevista… João Henrique Correia

19 Ago 2021

Sportinguista desde “que se lembra”, João Henrique Correia é, atualmente, supervisor da área de recrutamento da Academia do SCP, uma função que reconhece ser “essencial” em qualquer clube. Nesta entrevista fala sobre a necessidade de haver o “máximo rigor” na contratação de um jovem, a influência dos adversários nesse processo e destaca também a vertente psicológica como uma das características mais importantes num atleta. O portomosense frisa ainda a importância da aposta na formação para que Portugal se torne “cada vez mais atrativo” para o futebol.

É um sportinguista assumido. Quando é que o clube leonino passou a fazer parte da sua vida?
O Sporting faz parte da minha vida desde que me recordo. Principalmente através da família da parte da minha mãe, do meu avô que era um verdadeiro sportinguista. Desde muito pequenino que me foi dada essa educação, essa cultura e que acolhi, obviamente, porque eram as referências que tinha dentro de casa. Eu sentia, em cima de mim, uma espécie de responsabilidade muito grande por ser do Sporting.

Como é que começou o seu gosto pelo futebol? Sempre viu nessa modalidade uma paixão?
Acho que isso já nasce um bocadinho connosco. A nossa cultura leva a que isso aconteça porque desde muito novos que somos incentivados a gostar de futebol. Apesar de nunca ter sido um grande praticante, joguei futebol dos 7 aos 17 anos. Sempre fui um apaixonado pela modalidade e aos 13 anos, na altura em que o José Mourinho ganhava tudo, meti na cabeça que queria trabalhar no ramo do futebol. Durante o percurso tive desvios mas o foco esteve sempre lá. Quando olhava para o horizonte eu sabia exatamente o sítio onde queria chegar. Não foi nada fácil e demorei algum tempo porque não tinha nenhuma referência no Sporting que me pudesse ajudar. Então tive de ser eu, de forma espontânea, a ir à procura, a criar a minha oportunidade para entrar lá mas consegui.

Desde 2016 que está ligado ao Sporting Clube de Portugal (SCP) através de um vínculo laboral. Como é que conseguiu “furar” todas as barreiras e entrar num dos “grandes”?
Na altura em que estava a terminar a licenciatura em Marketing e Publicidade e tinha que fazer o estágio, que podia ser realizado em Leiria ou Lisboa, optei por ir para a capital porque tinha em mente fazer um mestrado em Gestão de Desporto na Faculdade de Motricidade Humana. Durante o dia estagiava no Montepio e à noite tirava o mestrado. Tentei, por diversas vezes, entrar no mundo do futebol mas o meu background era muito curto, ninguém me conhecia e não havia referências. Então tive a ideia de me apresentar e fui falar com o senhor Aurélio no jantar Rugidos de Leão que foi feito na Batalha. Obviamente que o primeiro contacto é só mais um mas eu não desisti. Fui sempre insistindo, aliás estive algumas vezes na Academia para ir tentar falar com pessoas e não me recebiam. Mas “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”, que um dia me disseram que tinham uma entrevista para me fazer. Esse foi o primeiro passo. Nesse momento percebi automaticamente que não conseguiria conciliar o trabalho que fazia na banca com o futebol e então despedi-me. Durante seis meses estive a trabalhar na Academia, para onde me deslocava todos os dias, e trabalhava nas obras à noite, a fazer demolições, para me conseguir sustentar. Passado esse tempo há um dia em que me fazem o meu primeiro contrato, a receber o ordenado mínimo. Nesse dia senti-me verdadeiramente feliz e orgulhoso porque tinha custado tanto, tinha lutado tanto por aquilo… E depois fui crescendo, sempre com muito trabalho, e muita dedicação.

É natural de Porto de Mós mas, hoje em dia, a sua vida profissional está centralizada em Lisboa. Custa-lhe estar longe da sua “terra natal”?
Custa sempre mas é o preço da oportunidade. A qualidade de vida que se tem aqui não temos em Lisboa. Eu se pudesse ter o emprego que tenho e viver aqui em Porto de Mós, vivia. É aqui que tenho as minhas origens, os meus amigos e as minhas vivências. Penso nisso imensas vezes mas neste momento não consigo fazê-lo, por isso, faço sempre questão de vir cá e desfrutar ao máximo o tempo que aqui estou.

Além de observador técnico, a função que exerceu quando passou a integrar a equipa de recrutamento do Sporting, também já exerceu muitas outras, como ser treinador-adjunto de Sub 14, assessor e agora supervisor. De forma sucinta, consegue explicar o que fez, concretamente, em cada uma dessas funções?
Eu entrei como observador técnico, ou seja, andava de campo em campo a observar os jogos e a recolher dados dos meninos que se destacavam mais para depois fazermos a nossa avaliação interna. A partir desse momento, como eu tinha outras valências, chamaram-me para começar a ajudar o coordenador de recrutamento e foi aí que comecei a integrar a pasta da assessoria. Isso enriqueceu-me muito porque tive a oportunidade de lidar diariamente lado a lado com o coordenador. Bebi muita informação, todos os conselhos que eram tidos no recrutamento, a definição da própria estratégia e o processo de recrutamento acabava por ter um bocadinho daquilo que era a minha sensibilidade. Nessa altura, paralelamente, decidi tirar o curso de treinador para conseguir ter mais conhecimento sobre o jogo e a perspetiva com que o treinador olha para o jogo. Aprendi muito enquanto estive no departamento de assessoria, contudo, passado quatro anos senti que já não era mais o meu espaço, que estava demasiado acomodado e aí decidi saltar novamente do backoffice para o terreno. Havia uma vaga de supervisor para ficar com a área sul do país (Beja, Algarve, Madeira e Açores) foi-me lançado esse desafio e obviamente que aceitei. Agora tenho a oportunidade de ir para o terreno implementar aquilo que foram as estratégias que adquiri em todos os anos que passei atrás da secretária enquanto assessor.

Que fatores são utilizados para analisar a performance de um jogador? De que forma é que são analisados?
Nós temos dados concretos para fazer a avaliação dos meninos, dentro de cada uma das faixas etárias mas tem sempre a ver com as componentes técnicas, táticas, físicas, cognitivas e sociais. Dentro de cada uma destas componentes temos diversos parâmetros que consideramos relevantes ou não, em determinada idade, e consoante aquilo que conseguimos avaliar, fazemos uma caracterização dos miúdos.
Numa primeira instância, eles são sempre observados dentro de campo. Nós não gostamos de tomar decisões precipitadas porque sentimos que a partir do momento em que estamos a convidar um menino para integrar uma das nossas equipas dentro do Sporting é uma grande responsabilidade, criam-se expetativas do tamanho do mundo. Então, temos que ter o máximo de rigor e conseguir criar o máximo de estratégias possíveis para despistar informações e, assim, ter a certeza de que a decisão que estamos a tomar é a mais correta. Caso não façamos uma boa avaliação, passados seis ou sete meses podemos estar a olhar para dentro e constatar que cometemos um grande erro e depois temos uma família que se desmoronou, um miúdo que estava cheio de sonhos e que acabou de os perder, que vai voltar à realidade, e que na escola vão olhar para ele e lhe dizer: “Então eras tão bom, foste para o Sporting e já aqui estás outra vez?”. Estamos a mexer com crianças, temos que ter algum tipo de sensibilidade. No entanto, hoje em dia esta situação torna-se mais difícil devido à rivalidade porque a informação que um menino foi visto e abordado por alguém do Sporting passa muito rapidamente para os nosso rivais. E depois nós somos obrigados a agir de uma forma muito mais rápida, sob pena de perder o jogador.

Que características consideradas “ideais” um jovem tem que ter para, eventualmente, ser recrutado para a academia do Sporting?
O fator mais importante para alguém alcançar o sucesso, seja jogador ou não, tem sempre a ver com a vertente psicológica. Podes ser o jogador com mais técnica do mundo mas se a parte cognitiva não estiver lá, se não tiveres bons princípios, cultura de trabalho, se não fores educado, se não souberes olhar para o espelho e fazer autocríticas a ti mesmo e não estares sempre a meter a culpa do teu insucesso nos outros, se não tiveres esta humildade de trabalhar todos os dias e conseguires ser sempre melhor, dificilmente vais conseguir alcançar aquilo que poderás vir a alcançar. Nós vemos muitas vezes craques que com 15 ou 16 anos começam a despontar por aí e passados uns tempos já ninguém sabe onde andam. Deixam envaidecer, aborrecem-se com o trabalho, relaxam e pensam que já são os maiores.

Acredita que a função que hoje exerce é fundamental em qualquer clube?
Não tenho dúvida nenhuma, sobretudo em Portugal porque somos um país exportador de talento. Os clubes estão quase todos a virar-se para dentro porque torna-se cada vez mais difícil buscar jogadores lá fora. Aquele que é o nosso objetivo é recrutar os melhores, ter o melhor processo de evolução para os nossos meninos, fazê-los evoluir, dar-lhes oportunidades dentro do clube porque eles mais tarde vão seguir a sua carreira lá fora em clubes maiores. A única forma de nós conseguirmos sustentar os nossos clubes é esta. Daí nós vermos que os clubes estão cada vez mais a apostar na formação e Portugal só tem a ganhar com isto porque quanto mais fortes forem as equipas na sua formação, quanto mais qualidade tiverem, mais facilmente vamos conseguir ter jogadores na nossa seleção e exportar jogadores lá para fora. E assim, conseguir que o nosso país se torne cada vez mais atrativo para o futebol.

Uma vez que a sua área está relacionada com o recrutamento de jogadores, qual é a sua opinião sobre o atual mercado de transferências? Considera que o facto de, tantas vezes, se envolver valores exorbitantes pode contribuir para desvirtuar o futebol?
Os jogadores valem aquilo que nós estamos dispostos a pagar por eles. Todos os negócios e setores vão evoluindo e o futebol, como todo o mercado, tem que se atualizar e correr atrás das tendências. Para, assim, continuar a somar adeptos e a despertar estas paixões nas pessoas, porque senão são cada vez menos, e hoje em dia isso já é notório. As pessoas estão a perder o amor ao futebol. O futebol está a perder espaço para outras indústrias e por isso vai ter que se reinventar de alguma forma porque caso não o faça, não nos vamos conseguir tornar apelativos para as próximas gerações e o futebol vai acabar por morrer. Há 15 anos faziam-se filas para jogar futebol nos sintéticos em Porto de Mós, era de manhã à noite, hoje passamos e não está lá ninguém. Se as crianças não estão a jogar futebol estão a fazer o quê? Estão focadas noutra indústria que lhes está a despertar mais interesse do que o futebol.

Depois de tantos anos a trabalhar nos leões, considera-se realizado profissionalmente? Quais são as ambições para o futuro?
Realizado estou, faço aquilo que gosto e saio todos os dias de casa motivado para ir trabalhar. Relativamente a ambições dentro do futebol, neste momento estou a desfrutar destas novas funções que tenho. Está a ser desafiante porque estou a conseguir construir um processo à minha imagem e isso deixa-me verdadeiramente feliz. 

PERFIL

João Henrique Correia nasceu em Porto de Mós há 32 anos. Licenciou-se em Marketing e Publicidade e, mais tarde, tornou-se mestre em Gestão de Desporto. Após várias tentativas infrutíferas para conseguir entrar no mundo do futebol, em 2016 decidiu abdicar de um emprego estável na banca para se entregar de corpo e alma ao clube do seu coração. A decisão “arriscada” de correr atrás do sonho, levou a que tivesse de fazer esforços acrescidos para se conseguir sustentar. Durante “seis dolorosos meses” dividiu o seu tempo entre a Academia do Sporting Clube de Portugal e o seu trabalho nas obras, à noite. Cinco anos depois de muito trabalho e muita dedicação, considera-se um homem realizado profissionalmente.