Em Entrevista… Jorge Vala

18 Fev 2021

O presidente da Câmara, Jorge Vala, em entrevista, traçou um retrato geral das várias zonas industriais públicas do concelho. Com o principal destaque na futura ALE de Porto de Mós, considerada por muitos um dos maiores projetos do Município, nesta conversa há ainda espaço ao retrato geral das ZI do Juncal e de Mira de Aire. Jorge Vala reforça a importância do tecido empresarial para a dinâmica económica do concelho e aponta-a como um dos principais fatores de atração e fixação de população.

Começo por lhe pedir que trace um retrato geral da Zona Industrial (ZI) do Juncal.
Aquela zona industrial nasceu para dar apoio a uma dinâmica empresarial que o Juncal já tinha. Já nasceu há alguns anos, foi evoluindo, foram-se instalando ali algumas empresas… De todo o modo, a localização é boa mas tem um terreno meio inclinado, tem ali algumas dificuldades, nunca foi muito procurada para instalação de novas empresas. Aconteceu no anterior mandato existir uma empresa que ocupou a quase totalidade dos restantes lotes, e que está já a laborar, uma empresa de transformação de resíduos da floresta, que produz energia e outros componentes a partir dos restos das florestas.

Temos uma zona mais antiga com algumas empresas e depois a nova zona apenas com uma e a ocupar todos os lotes. Já disse que não gosta nem quer este modelo para o futuro. Qual é para si a desvantagem de, como no Juncal, uma ZI ser preenchida por apenas uma empresa?
O meu pensamento sobre isso não é de agora só que a empresa, quando chegámos ao executivo, já estava em fase de instalação, não havia grande coisa a fazer. Continuo a achar que uma zona industrial dinâmica deve ter instaladas empresas de pequena e média dimensão, de várias áreas, de vários setores, e não uma empresa apenas a ocupar toda a zona industrial, até porque não foi para isso que foi construída. Esta dinâmica empresarial garante o futuro, porque as empresas têm uma esperança de vida que não é eterna e a esperança média de vida das empresas tem que ser também o sustentáculo de uma região e de um território. Se instalarmos ali uma empresa com mil empregados para ocupar toda a área e daqui a uma dúzia de anos, essa empresa se for embora, não estaremos a pensar no futuro do concelho de Porto de Mós porque estaremos agora a criar condições para ser tudo cor de rosa, mas depois, no futuro, teremos, eventualmente, um problema.

Há alguma previsão de aumentar a ZI do Juncal ou o espaço está “fechado”?
Nunca está fechado. É muitas vezes a procura que nos faz desenvolver outras ideias. Neste momento temos alguma procura para um ou dois lotes no Juncal, vamos ver, estamos a estudar a melhor forma. Não gosto de adiantar aquilo que ainda não está consolidado, mas dentro do possível, vamos tentar perceber se vale a pena ampliar aquela zona.

Passando agora para outra ponta do concelho, Mira de Aire, como está aquela ZI?
Como foi nosso compromisso, fizemos a alteração administrativa da utilização, a ZI só podia ser utilizada para empresas com o CAE de indústria e nós fizemos um processo de alteração ao regulamento do plano de pormenor e neste momento, depois de ter sido aprovado por todas as entidades, está preparada para receber qualquer tipo de empresas e já temos algumas intenções de procura. A nossa ambição é que a ZI passe a ter uma dinâmica também diferente daquela que tem tido até agora, que se possam instalar ali empresas que criem condições para o mercado de trabalho que neste momento é escasso em Mira de Aire.
A maior dificuldade de atratividade desta ZI era precisamente essa. Até agora, a única hipótese de as empresas se instalarem era mesmo terem um CAE de indústria, esta alteração veio naturalmente trazer aqui outros interessados e temos a expectativa de poder comercializar os lotes. Estamos a pensar pedir por cada metro quadrado, nos lotes da ZI Mira de Aire, um euro, um preço simbólico, precisamente para podermos dinamizar aquela zona e sobretudo também proporcionar que o mercado de trabalho passe a ter uma oferta diferente em relação à procura que existe.

A ZI de Mira de Aire é, então, já uma Área de Localização Empresarial (ALE)?
Sim, continua a ter a mesma designação, mas é uma ALE.

Relativamente às acessibilidades, considera que a proximidade às autoestradas e aos ICs são fatores diferenciadores das ZI do concelho e que isso tem, de facto, atraído empresas?
Sim, sobretudo Porto de Mós e Juncal. Mira de Aire tem mais dificuldade porque, apesar de estar próxima da A1, em Torres Novas, eventualmente também não muito longe da A1 em Fátima, temos tido algumas dificuldades. No início tentámos recuperar um projeto de ligação de Mira de Aire a Fátima, que implica investimento do Estado, e que é transversal a mais do que um concelho. Não conseguimos, mas não perdemos a esperança de poder, um dia, ou por força de fundos comunitários alocados ao concelho e numa parceria com o concelho da Batalha, ou por outra qualquer forma, criar um corredor de ligação de Mira de Aire à autoestrada, e parece-me que é mais fácil a Fátima.

O problema da falta de mão-de-obra especializada no concelho é recorrente. A Câmara fez parcerias com escolas com cursos profissionais para potenciar a fixação dos jovens nas empresas que exigem mão-de-obra diferenciada, qual tem sido o resultado disso? Os alunos do ensino profissional têm, de facto, ficado a trabalhar cá?
Sim. Depois do início do ensino profissional e tecnológico no IEJ, este ano letivo é aquele que vai fazer sair alunos do 12.º ano com o curso concluído. As empresas que têm na sua base a tecnologia associada, precisam deste tipo de mão-de-obra, sobretudo porque os alunos começam a trabalhar mais cedo, habitualmente com 18, 19, 20 anos, têm um curso profissional, mesmo não tendo licenciatura já têm algum conhecimento quer dos equipamentos, quer do seu manuseamento. O nosso objetivo é que estas empresas, que admitem funcionários e que os formam, recebam pessoas que já tenham alguma base para, quando entrarem ao serviço, irem com algum conhecimento e acrescentarem algum valor ao seu rendimento. O que nos temos apercebido é que, infelizmente, algumas também contratam fora porque o mercado de trabalho com esta formação é um bocadinho escasso e, portanto, os indiferenciados, sobretudo com mais idade, são aqueles que estão alocados nos centros de emprego, as pessoas com mais alguma formação, felizmente têm tido oportunidades.
Estamos a viver, sobretudo no último mês, uma fase muito atípica. No final do mês de dezembro, o concelho de Porto de Mós não tinha mais desempregados do que em dezembro de 2017. Tivemos aqui já uma situação de excelência, de pleno emprego, com menos de 300 desempregados, neste momento temos cerca de 550 registados. Estas pessoas são a nossa preocupação presente e por isso é que, em conjunto com alguns empresários e com o nosso Gabinete de Inserção Profissional estamos diariamente a procurar colocação para eles, no sentido de lhes continuar a proporcionar uma vida ativa normal aqui no concelho, porque a nossa ambição é não perder esta população para outros concelhos.

Passando agora à ALE de Porto de Mós, começava por lhe pedir que me explicasse, resumidamente, qual a grande diferença entre uma zona industrial e uma área de localização empresarial.
A ZI, como diz a designação, é uma zona onde se instalam empresas apenas com o CAE da indústria. Uma ALE é uma zona empresarial onde se instalam empresas de indústria, de serviços e de comércio, os armazéns de serviços, os centros de logística, lojas de materiais de construção, tudo isso cabe, há um conjunto vasto de empresas que se pode ali instalar.
A ALE de Porto de Mós está definida, portanto não se podem instalar indústrias em todos os lotes, como não se podem instalar serviços em todos os lotes e só se pode instalar comércio em alguns lotes, que são a minoria. A ALE de Porto de Mós passa a ter a instalação das empresas definida por regra no plano de pormenor.

Por que é que, para Porto de Mós em concreto, é mais vantajoso ter uma ALE?
Precisamente por podermos criar, naquela zona, uma dinâmica que vai um pouco além das indústrias. Vamos imaginar que há várias empresas ali que precisam de comércio de ferramentas e nenhuma empresa dessas se podia instalar ali, ter-se-ia que instalar fora. Somos um concelho forte, até pela localização central, em empresas da área dos transportes e da logística. Nenhuma dessas empresas se podia instalar ali. Somos um concelho com alguma dinâmica também na área do comércio por grosso a vários níveis. Nenhuma empresa se podia instalar ali, digo materiais de construção, um centro de distribuição de alumínios, de peças para automóveis, que hoje está muito em voga e a nossa centralidade pede-o. E temos várias empresas de referência nacional a solicitarem-nos reserva de lotes, precisamente também para essa área. Sendo, como eu espero, empresas que já existam que venham de outros concelhos para o nosso e que transfiram para cá também a sede da empresa, como é expectativa, até porque têm benefícios. Por isso, eu espero, com toda a honestidade, que este tipo de dinâmica acrescente valor à ZI e que levará certamente a pensar já na segunda fase de ampliação desta ALE.

De forma genérica, como se caracteriza a ALE?
A ZI neste momento tem 56 hectares, é dividida por um conjunto de empresas que já estão instaladas. Nesta primeira fase da ALE, vamos fazer uma ampliação de 25 hectares. A ampliação total são 65 hectares, cuja construção de infraestruturas será dividida em três fases. A primeira é aquela que lançámos o concurso agora, de 4,2 milhões de euros; a segunda fase já temos o anteprojeto e já fizemos uma intenção de pré-candidatura a fundos comunitários, uma vez que temos tido uma procura muito grande para os lotes da primeira fase que serão 38. Estes lotes em princípio serão praticamente todos absorvidos e ficaremos de novo, nos próximos dois ou três anos, com a ALE a necessitar de ampliação. Quando estivemos a fazer negociação de terrenos para esta primeira fase, onde já investimos 1,2 milhões de euros, adquirimos terrenos que vão integrar a segunda fase, nalgumas situações para não haver fracionamento, noutras porque as pessoas nos vieram oferecer e tentaram desfazer-se deles. Esta segunda fase será, no próximo mandato, uma obra estruturante. É um número de lotes idêntico à primeira e o valor que está estimado também é idêntico. A terceira fase concluirá os restantes lotes.

Há ou está previsto haver algum regulamento de admissão de empresas? Como será feita essa escolha?
Temos um regulamento e uma comissão que é composta pelas três forças que estão no executivo. Esta comissão analisará os pedidos em função da atividade e do regulamento em si. Depois serão entregues os lotes em função dos pedidos. Vamos anunciar entretanto [o arranque das candidaturas] até porque estamos na fase de expropriação de alguns lotes e precisamos de ter todo o loteamento registado mas ainda vamos esperar pela fase seguinte, a adjudicação da empreitada, e quando isso estiver em curso, então sentar-nos-emos para pensar no momento de vincular aqui a ligação da intenção das empresas à aquisição dos lotes.

A ZI, futura ALE de Porto de Mós, é a mais dinâmica das três. Considera que essa dinâmica se sente na vila sede e nas zonas limítrofes, ou seja, acha que, por causa daquelas empresas há mais gente a almoçar, a fazer compras ou a viver nas zonas envolventes?
Sem dúvida nenhuma. Estamos a viver uma fase tão atípica que até é difícil falar nisso porque os comerciantes vão dizer que não se nota porque estão fechados, mas em condições normais não tenho dúvidas. Existe uma pressão muito grande para habitação que, infelizmente, temos pouca oferta para aluguer e muito pouca para venda. Temos que nos lembrar que, além da ALE, temos uma zona muito importante na Moitalina e Cruz da Légua, que emprega muita gente, e estas empresas também precisam deste apoio e da criação desta dinâmica e aquilo que eu sinto da parte dos empresários é exatamente a falta de habitação para arrendar. Depois isto conjuga com a falta de mão-de-obra. Não há mão-de-obra aqui, os empresários têm que ir buscar a outros concelhos, às vezes até ao estrangeiro, e depois não existe aqui o apoio de retaguarda que é a habitação. Relativamente ao comércio, tem uma dinâmica própria. Não é por acaso que nestes últimos tempos, abriu mais uma grande superfície comercial em São Jorge, prevê-se eventualmente mais, e isso é porque a dinâmica das empresas proporciona o negócio a estas superfícies, mas também ao comércio tradicional, que tem vivido com muita resiliência, mas que continua a sobreviver e a ter alguma procura.

Porque é que este projeto é considerado tão importante para o concelho?
Porto de Mós é um concelho que tem muito para explorar ao nível do turismo e do turismo de natureza, temos imensas oportunidades para os nossos cidadãos poderem viver numa ligação forte com aqueles que nos visitam. A nós, cabe-nos criar as condições para isso mas não podemos pensar que somos só um concelho de turismo e que vamos viver toda a vida de turismo, portanto o nosso pensamento é agarrar todas as oportunidades e a fundamental e aquela que acrescenta valor são aqueles que produzem. A extração de pedra é um negócio do setor primário que por si só vale muito em termos de entrada de capital sob o ponto de vista económico no concelho, mas depois a transformação acrescenta-lhe muito valor e nós acarinhamos muito que estas empresas de transformação se possam instalar cá, reinstalar sempre que necessário e, eventualmente, que sejam criadas novas empresas. Por outro lado temos as empresas da área tecnológica, temos empresas da área dos moldes, estamos próximos da capital dos moldes, que é a Marinha Grande, temos empresários de excelência no concelho, na ZI também. A oportunidade para estas empresas se instalarem é vasta e estou certo de que o futuro de Porto de Mós passará pelo turismo, mas também pela capacidade de captarmos e fixarmos novas empresas, novos trabalhadores, com mais e melhor formação que, por esse facto, ganharão ordenados maiores e que acrescentarão valor à economia.
O setor económico influencia os outros…
Sim. Temos um conjunto de objetivos que são transversais a tudo isto que acabei de falar. Pretendemos que a nossa população comece a crescer, não nos podemos esquecer que foram os últimos 10 anos a perder população, que comece a inverter esta tendência e para isso é necessário fixar os pais, os jovens casais, fixá-los através dos seus filhos, levando a que eles tenham as melhores condições da região. Este é um concelho de oportunidades, de gente extraordinária, não me canso de o dizer. Somos fortes, não podemos deixar de o dizer, temos ambição e esta ambição de sermos um concelho ainda melhor. Depois temos o orgulho de ser de Porto de Mós, sobretudo quando ouvimos, de norte a sul do país, dizer que temos a Fórnea, o castelo, as Grutas de Mira de Aire e o CIBA e portanto temos que ter orgulho nisto, temos que chamar as pessoas para virem cá, temos que lhes criar condições para elas saírem daqui satisfeitas, de preferência para voltarem, mas temos também que pensar no setor económico, na dinâmica empresarial e sobretudo na capacidade de resposta que temos para dar às nossas populações, às que já residem e às que querem vir para cá. Não tenho dúvidas, nós já criámos condições para as pessoas não hesitarem quando tiverem que escolher. O concelho de Porto de Mós, a nível fiscal, é dos melhores da região, é daqueles onde se pagam menos impostos, onde a água é mais barata, onde as pessoas têm excelente qualidade de vida, estão reunidas as condições para termos um futuro com ambição, mas um futuro também onde tem que se trabalhar para as pessoas poderem continuar a ter a sua vida, o seu trabalho e sobretudo o seu futuro.