Em Entrevista… Mapone

23 Ago 2019

O entrevistado da presente edição d’O Portomosense é Mapone, pseudónimo utilizado por Manuel Poças das Neves, conhecido gastrónomo da nossa região. Apaixonado pela cultura, pela história local e pelo turismo, Mapone fala-nos do último livro que editou, da gastronomia regional e, sobretudo, de algumas tradições. Há ainda tempo para recordar o seu percurso enquanto responsável pela promoção e administração do empreendimento Grutas de Mira de Aire, desde a sua abertura para o turismo, atividade que abandonou quando atingiu a idade de reforma. Desde aí dedica-se à colaboração com a imprensa regional e vai escrevendo livros.

Angústias é o seu livro mais recente. O que o levou a escrever este livro e que temas aborda?
Comecei a escrever o Angústias, talvez para desfastio, para não estar parado; tenho que fazer alguma coisa e como não sei fazer mais nada nesta altura, escrevo, tenho que escrever sempre, tenho esse vício e como a colaboração que tenho para com os jornais, e são alguns, não me absorve todo o meu tempo nem me extravasa os sentimentos que vou aglomerando, vou-me recordando das facetas da vida que passei, outras que observei e outras que me contaram, vou-as coligindo e foi o que fiz nesse volume. São retalhos de vivências de pessoas, uns conhecidos e outros não tanto, mas que estão distorcidos ou camuflados. Noventa por cento do que está escrito são factos verídicos; muitos percebem-se e localizam-se com facilidade e outros nem tanto, só que os que eu quis ocultar, ocultei mesmo com pseudónimos de pessoas, com nomes e lugares trocados.

As tabernas são um tema interessante e até escreveu um livro sobre ele. Ao escrever sobre as tabernas do Reguengo do Fetal voltou à infância e à juventude?
Voltar não, mas senti um certo saudosismo ao recordar determinados factos e sobretudo pessoas, porque bem as conheci e posso dizer que, de todas as tabernas que mencionei, conheci os donos e as pessoas que as frequentavam, entrei nelas fui cliente, ou não, e estive lá várias vezes. Eram o viver da aldeia, o seu pulmão respiratório e a válvula de escape das pessoas quando vinham dos seus afazeres quotidianos, sobretudo das fazendas; à noite tinham sempre um bocadinho para irem à taberna darem dois dedos de conversa, uns como os outros. As tabernas foram as percursoras dos cafés, os cafés mataram-nas, mas os cafés também estão a desaparecer, porque a televisão e outros atrativos, fazem com que as pessoas debandem das reuniões sociais que nesse tempo existiam. A taberna era um elo para ligar pessoas e famílias, porque ali se sabiam as novidades e desempenharam um papel importantíssimo nas aldeias e até nas cidades.

As tabernas praticamente desapareceram?
Nalguns lados sim, mas há outros sítios onde as tabernas se mantiveram e vão mantendo. Recordo Mira de Aire, onde vivi mais de 40 anos, quando lá cheguei havia cerca de 30 tabernas e quando de lá saí, havia uma dúzia delas talvez, mas essa dúzia ainda hoje se mantém.

Foto: Iolanda Nunes

Falemos do culto de Nossa Senhora do Fetal, que foi muito importante durante muitos anos. Esse culto está a perder-se?
Não sei se está ou não, mas está a transformar-se e a sofrer metamorfoses, não sei se para o bem se para o mal, mas sei que a parte religiosa e tradicional está um pouco esquecida e a entrar um pouco mais para o folclórico. Senão vejamos: é sobejamente conhecido como são propagandeadas as procissões com a imagem de Nossa Senhora do Fetal da Capela para a sede da freguesia e desta para a Capela, com as célebres iluminações de caracóis. Hoje as pessoas vão lá para ver as iluminações, não se interessam se as procissões são religiosas ou não, se têm foguetes ou banda ou não, o que interessa é ver o panorama, o folclore das iluminações, o resto não interessa.

Quer dizer que o interessante das procissões são as iluminações dos caracóis?
É isso, o que interessa é se tem mais ou menos desenhos, se está ou não mais bonito que no ano anterior. Fala-se nas procissões dos caracóis, mas não se fala na procissão de Nossa Senhora do Fetal, nem sequer da festa em sua honra. Nos meus tempos de miúdo também não se falava nas festas de Nossa Senhora do Fetal, dizia-se que era a Feira do Reguengo, porque era assim conhecida, uma vez que nos éditos da criação da festa, que vieram de reis em reis, falava-se que no primeiro domingo de outubro, se fazia no lugar de Reguengo a feira franca de três dias.

Tem escrito muito sobre a gastronomia regional. Devido a isso, foi convidado para que fizesse parte do júri do concurso das 7 Maravilhas da Gastronomia Nacional. Como foi?
Fui indicado pela Região de Turismo de Leiria, que estava já adiantada em publicações desse tipo, para essa tarefa e fui presidente do júri para os distritos de Leiria, Lisboa e Setúbal. Durante quatro meses fizemos uma pesquisa exaustiva, percorrendo as casas que se inscreveram nas várias categorias, desde o melhor ao pior, e posso dizer que, em grande parte, as casas menos cotadas eram as que apresentavam os melhores pratos e tive o prazer de ir à fase final com 60% dos pratos que eu tinha selecionado. Da nossa região, consegui que o Arroz de Marisco da Vieira de Leiria fosse galardoado.

Acha que os pratos regionais estão a perder-se?
Não se estão a perder, estão é a modificar-se. Temos de ter em conta que quem muda são as pessoas; a minha geração já não é a geração dos meus avós, nem dos meus netos. Os gostos são diferentes. Por conseguinte cada geração tem os seus próprios gostos. É muito bonito dizer-se “Tenho saudades de comer umas migas, uma açorda ou uma feijoada”, mas uma vez por outra. No tempo dos nossos avós e nas aldeias, em que o viver era frugal, eram capazes de andar a comer couves durante uma semana, ora com azeite, com feijões, miolos de broa ou carne, mas as couves eram a base da refeição. Arroz ou massa era “uma vez por festa”, como se dizia. Lembro-me que nas festas dos casamentos as pessoas tiravam as barriguinhas de misérias a comer carne…

Sempre o carneiro com batatas…
O carneiro com batatas, a galinha… e depois havia uma sobreposição de coisas. A galinha vinha com arroz de forno, o carneiro vinha com arroz de forno e com as batatas. Enfim, os tempos mudam, mudam-se as vontades.

Acha que os restaurantes, principalmente aqueles que as pessoas frequentam quase todos os dias, fogem aos pratos tradicionais?
Temos de ver isso pelo lado comercial. O restaurante é uma casa que está a fazer negócio, portanto não está com a preocupação de apresentar as vitualhas que as pessoas mais gostam, apresenta aquelas que lhe parece que têm mais saída e menos despesa para confeção. Não é despiciendo que hoje vamos a um restaurante de “beira da estrada” e vamos encontrar dias fixos para o bacalhau assado ou para o cozido, para fidelizar os clientes que até gostam desses pratos. Há pessoas que vão de propósito para comer uns chícharos com bacalhau assado, outras que vão para comer um cozido.

Foto: Iolanda Nunes

Nas tasquinhas nas festas e feiras aqui há volta anuncia-se que se defende a gastronomia tradicional. Acha que isso é verdade?
Não e a razão é muito simples. Qualquer tasquinha apresenta, por exemplo, um prato que é feito de norte a sul do país com as suas variantes, a carne de porco à portuguesa a que chamam a carne de porco à alentejana. Essa carne de porco à alentejana não existe. É um prato tipicamente algarvio e servido com o nome de carne de porco à portuguesa. Foi uma coisa que pegou e por todo o lado. É a carne de porco à portuguesa que aparece, não com as ameijoas, mas frita, nas tasquinhas das festas. A friginada de Ourém é isso e é a mesma coisa que o tachadéu no Reguengo.

E as morcelas?
Com as morcelas é diferente. Quando da formação da Confraria da Morcela de Arroz, na nossa região encontrámos 18 tipos diferentes de morcela e terras com dois tipos; por exemplo no Reguengo do Fetal e São Mamede há a branca e a de sangue, e não deixam de ser morcelas por causa disso (a morcela branca não tem sangue). A morcela de Mira de Aire é completamente diferente de outras, tem mais carne que arroz e a morcela do Alqueidão da Serra está entre a do Reguengo e a de Mira de Aire.

E outros pratos típicos?
Aqui da região de Porto de Mós um prato típico que se preservou na zona de Arrimal e da serra em geral, foi o cabrito.

Durante mais de duas décadas esteve à frente das Grutas de Mira de Aire. Como é que foi a promoção desse empreendimento?
Estive desde o dia 12 de fevereiro de 1974 até 31 de dezembro de 1996 nas Grutas de Mira de Aire, no entanto já trabalhava em Mira de Aire desde 1956. Foi uma coisa casual. Quando se formou a sociedade Grutas de Mira de Aire, foram-me buscar para eu apontar o rol das pessoas que subscreviam as ações. Foi o primeiro contacto. Nessa altura eu colaborava com o Diário Popular e pediram-me para pôr um anúncio a pedir alguém com uma série de predicados. Respondi que não punha e ofereci-me para o tal lugar. Resolveu-se o problema da minha saída da empresa onde estava e fui trabalhar para as Grutas de Mira de Aire.

Calcorreou o país e alguns países estrangeiros na promoção das Grutas.
Sim, inventei mil e uma coisas para fazer a promoção das Grutas de Mira de Aire, percorri todos os concelhos do país e os resultados apareceram. Fiz com que fosse distribuída muita promoção das Grutas de Mira de Aire, especialmente junto dos postos fronteiriços portugueses.

Como vê atualmente a vila de Mira de Aire uma vez que passou lá muito da sua vida?
Faz-me pena ir a Mira de Aire e não ver o bulício que lá existia noutros tempos, consequências das situações que se criam e que se deixam criar e do que se faz por elas.