Em Entrevista… Raúl Castro

9 Dez 2021

Esta não é a primeira vez que Raúl Castro está à frente da Câmara da Batalha. Volta ao cargo mais de 30 anos depois. O que o fez voltar e quais são as suas ambições para o concelho é o que explica nesta entrevista a O Portomosense. 

Estar à frente da Câmara da Batalha não é, de todo, uma novidade para si. Mais de 30 anos depois, como é estar aqui outra vez?
É verdade, 32 anos depois estamos aqui. Este retornar à origem, aliás, ao local onde iniciei as lides autárquicas (não tinha qualquer experiência anterior) foi também reviver muita gente que há muito tempo não via, algumas situações que fazem parte da memória e que são história da própria Batalha. Todo o conjunto de coisas que nos marcaram e que verificámos que se gravaram na memória das pessoas, o que também ajudou a que os resultados fossem os que foram.

Quais são as principais diferenças que encontrou, em relação a essa primeira experiência, tanto na Câmara da Batalha como no concelho?
Algumas de carácter negativo. Naquele tempo havia eventos que se deixaram de fazer. A Feira de Artesanato, que era internacional, deixou de o ser. A taxa de cobertura de saneamento continua a ser bastante reduzida, apesar de obras que se fizeram naquele tempo e dos mandatos que se seguiram do António Lucas. De certa maneira, assistimos ao não-desenvolvimento do concelho em termos urbanísticos. O próprio Plano Diretor Municipal (PDM) que temos em vigor lesa os interesses da maioria dos batalhenses. Esperávamos encontrar um concelho com maior densidade demográfica, pelo contrário, perdemos população. Na causa disto tudo está uma aposta errada num PDM que inviabiliza os interesses dos batalhenses e de muitos outros que se querem cá instalar.

Era presidente da Câmara de Leiria quando decidiu abandonar para se tornar deputado parlamentar. Deixou essa experiência para se candidatar a este cargo. O que o fez voltar à vida autárquica?
Nos últimos anos havia diálogo com muitos amigos da Batalha que se manifestavam desiludidos com a gestão que a Câmara estava a tomar. Depois, o presidente da Câmara (agora ex-presidente) entendeu começar a arranjar argumentos com algumas mentiras, sobre as quais já me pediu desculpa e isso levou a que se criasse um movimento independente para tentar alterar esse estado de coisas. A insatisfação das pessoas já era de tal grandeza que se pensou neste movimento aberto a todos aqueles que podiam interessar-se pela causa pública. No projeto inicial eu seria simplesmente o candidato à Assembleia Municipal, uma vez que estava na posição de deputado da Assembleia da República, o António Lucas seria o candidato a presidente da Câmara. A determinada altura, perante uma impossibilidade do António Lucas ser o candidato à Câmara, as pessoas viraram-se para mim. Era um desafio, por um lado inoportuno, porque estava nas funções de deputado, e por outro, uma oportunidade para podermos alterar aquilo de que as pessoas se queixavam. O facto de ser por um movimento independente foi porque quisemos abrir a porta a muitas pessoas que normalmente votam noutros partidos, algumas até militantes, e que não se reviam no anterior executivo. Agora está na hora de falar menos e fazer mais. Na verdade, aqui falava-se muito mas fazia-se menos.

Embora num momento inoportuno, ter sido solicitado por muitas pessoas para exercer este cargo, fê-lo abraçar este desafio sem olhar para trás?
Foi muito isso. Essas pessoas que se queixavam, pessoas humildes que conheço, é que me preocupavam porque o que tinham não era aproveitado como devia de ser. Não estou a dizer que estamos aqui por trás ou pela frente de grupos de interesses, nada disso, vão ser tratados por igual. Vamos tentar ter uma Câmara da qual os batalhenses se orgulhem, que dá respostas e que é célere. Vamos trabalhar para daqui a alguns meses podermos fazer a primeira avaliação e chegarmos à conclusão que já está tudo mais ou menos como queríamos porque nunca está tudo bem. Qualquer autarca que se preze quer sempre fazer mais. O mundo gira todos os dias, a evolução está aí e temos que entrar no comboio certo para promovermos essa nova situação de bem-estar para todos. Hoje em dia quem quiser comprar uma casa, dificilmente encontra na Batalha e isso deixa-nos muito mal colocados. Este PDM é redutor, acredito que quem aqui passou possa ter tentado fazer o melhor possível mas a verdade é que isso não aconteceu. Por vezes, há fatores que nos transcendem, que podem criar alguns obstáculos. Às vezes, até mesmo ao nível do próprio Governo tenta-se sensibilizar que haja investimento no país e depois localmente, por vezes, há outras entidades da Administração Central que não compreendem nem conhecem do que estamos a falar porque há um défice muito grande de recursos nessas instituições e, por vezes, baseiam-se em mapas que têm (que nem sempre são os corretos) para opinarem. A Batalha tem um potencial enorme, assim como toda a região. Tenho defendido já há muitos anos três exemplos daquilo que aqui deveria de ser feito: a utilização civil da Base Aérea de Monte Real; a nova linha de comboio rápido entre Lisboa e Porto (está garantida até 2028, felizmente) e a transformação do Instituto Politécnico de Leiria (IPL) em universidade politécnica. Isto pode dar a ideia de algum elitismo de designação e não é verdade. Eu acho que ninguém ficava prejudicado com essa mudança e, pelo contrário, ficávamos todos num patamar de igualdade porque ia permitir depois que no IPL fossem feitos doutoramentos.

Já afirmou que o anterior executivo deixou a Câmara da Batalha com alguns problemas financeiros. Recuperar a estabilidade é um dos seus principais objetivos?
É, sempre foi. A primeira vez que passei na Batalha também tínhamos um passivo razoável, em Leiria também mas naturalmente que tentámos recuperar e aqui vamos tentar fazer o mesmo. Os nossos fornecedores merecem todo o nosso respeito. Não podemos estar a mandar fazer coisas e pagar daqui a um ano. Aquilo que nós afirmamos é que o conjunto de situações que já deveriam ter sido pagas, neste momento e até ao final do ano não poderão ser. Algumas serão, outras não poderão ser, têm que transitar para o ano seguinte porque não há, efetivamente, capacidade de cabimentação para esse tipo de despesas que têm vindo a aparecer. Aquilo que dizemos é que, este ano estamos muito comedidos pelas dificuldades que existem, ao que acrescem algumas situações menos claras do anterior executivo, chamemos-lhe assim, que já nos foram expostas e para as quais não foi salvaguardado qualquer valor. Por exemplo, para a expropriação de um espaço onde se fez um jardim deveria ter havido uma previsão a assegurar o valor a pagar e não houve. Já fomos abordados com a possibilidade de haver mais uma ação judicial para esse efeito e, portanto, isto complica-se sempre. Há contas que não vamos conseguir pagar, outras vamos pagar com atraso, embora a responsabilidade não seja nossa porque já vinham detrás. Houve situações em que se fizeram pagamentos parciais quando se deveria de ter pago logo tudo. São coisas que acontecem quando há transição de executivos. Esperamos que com o tempo possamos recuperar e depois trabalhar da forma mais eficiente que nos for possível porque não estamos cá só para pagar dívidas, estamos também para fazer obra.

Outra das críticas que já apontou é que a Câmara estava desorganizada. Que medidas pretende implementar para atenuar essa desorganização?
Quando se fala em desorganização aponta-se logo para o urbanismo que é a área mais crítica do município, pelos danos que causou às pessoas e pela lentidão na avaliação de projetos. Vamos tentar ter uma equipa de recuperação, em contratação externa, para podermos pôr esse serviço em dia. Aliás, vamos trabalhar em paralelo com a implementação e utilização de uma plataforma digital que vai tramitar todos os processos de urbanismo e permite que as pessoas com uma senha de acesso possam acompanhar o seu processo. Esta plataforma, além da celeridade e de um processo de transparência, vai possibilitar tratar de todos os passos até à obra final. O que queremos dentro de algum tempo é que obrigatoriamente só se possam aceitar projetos pela via online. Se nós conseguirmos desmaterializar a Câmara Municipal da Batalha vamos ter mais celeridade, mais comodidade para os nossos munícipes e conseguiremos ter um efeito de natureza ambiental, com menos utilização de papel. Penso que não será difícil, dentro de poucos meses, termos uma Câmara amiga do munícipe, pela transparência, pela agilização de meios e, acima de tudo, pela celeridade da resposta.

A Batalha hoje é um concelho atrativo para viver? O que falta fazer nesse sentido?
Falta mais habitação e mais terrenos disponíveis para empresas mas já estamos a tratar disso. Há uma apetência muito grande de investidores para virem para a Batalha. Isso implica haver fluxos internos e externos, o que significa que quando as empresas se instalam precisem de respostas ao nível da habitação. Hoje em dia, é essencial haver mais gente porque há uma crise nacional, em termos de recursos humanos. É preciso desbloquear estas questões que impedem que a Batalha tenha habitação para oferecer. Nós somos um concelho tranquilo, com segurança e bem situado. Temos boas acessibilidades, um potencial para cuidar, temos o Mosteiro, um ex-libris a nível mundial, mas há muitas coisas além deste monumento. A Batalha não pode viver exclusivamente do Mosteiro e vamos tentar criar uma oferta diversificada para quem nos quer visitar. A chave neste momento é criar mais habitação, ter aqui empresas, o que significa desbloquear situações de terrenos. Estamos a tratar da ampliação da Zona Industrial, estão previstas novas zonas industriais, até porque no PDM isso já está considerado. Há que fazer o levantamento do que temos e depois é um problema de negociação entre as partes. O que está aqui em causa são outras áreas e outras iniciativas que se fazem no concelho, que merecerão da nossa parte uma melhor atenção. No Reguengo do Fetal existe a Procissão dos Caracóis e vamos tentar que se faça uma semana a pretexto das duas procissões para mostrar a gastronomia local e de modo a que as pessoas que ali vão possam ter melhores condições para o evento. Também vamos apostar nos percursos pedestres que têm tido procura. A Pia do Urso, em São Mamede, está um pouco abandonada e temos que começar a recuperá-la.

“Batalha é de todos” era o nome do seu movimento e uma das coisas que afirmou foi que a Câmara estava pouco aberta à comunidade e com serviços bastante morosos. A Batalha consigo vai mesmo ser de todos?
Espero bem que sim, em termos institucionais a seguir ao dia das eleições passei a ser o representante de todos. Depois, queremos que a Câmara esteja aberta a todos e que haja aqui respeito de parte a parte e que também se cumpram as regras. Houve algumas situações (no passado) que não se conseguiram resolver e que dificilmente se vão resolver, por vários motivos, e isso também causou algum distanciamento das pessoas mas penso que o modelo de gestão vai ser completamente diferente. Tenho falado com algumas pessoas e continuo a falar porque o meu papel é ouvir, o meu e dos vereadores que fazem parte da minha equipa. Não é impor coisa nenhuma. É importante também estar capacitado para receber críticas. Com este modelo e, acima de tudo, comportamento, penso que não vai haver drama nenhum e que as coisas vão ser aquilo que aconteceram há 32 anos, quando se deu uma grande viragem. Queremos trabalhar para as pessoas e servir a causa pública.

Batalha e Porto de Mós são concelhos limítrofes. Em termos de Câmara, a sua estratégia é cingir a ligação dos dois concelhos à CIMRL ou tem em mente projetos conjuntos que podem beneficiar ambos?
Já houve exemplos, noutros tempos, de solidariedade institucional com o presidente da Câmara de Porto de Mós. Um pequeno exemplo foi quando se pensou pela primeira vez em fazer uma ecopista desde a nascente do Rio Lena até à foz do Rio Lis, era eu que estava na Comunidade Intermunicipal. O projeto não avançou nesses termos e cada um ficou de fazer a sua parte porque houve um dos parceiros que resolveu não entrar neste desafio. Tinha sido muito mais fácil, porque hoje se calhar já estava feita e poderia ter havido apoio comunitário para o fazer. No que respeita à Batalha estamos a avançar com o projeto só nós, vamos ver se conseguimos depois candidatá-lo a apoios. Há outros projetos que podem ser de interesse comum, por exemplo, um mono-carril a ligar os municípios ao longo da margem do rio, uma ideia que se já se falou e que seria um projeto de interesse dos quatro municípios (Batalha, Porto de Mós, Leiria e Marinha Grande). Estamos sempre disponíveis para colaborar naquilo que seja do interesse mútuo, porque não podemos estar aqui fechados, nem ser egocêntricos. É bom que se tenha sempre isso presente: Nós estivemos sempre abertos e colaborámos quando foi necessário.

Entrevista por Jéssica Moás de Sá e Jéssica Silva