Em Entrevista… Sandra Martins

30 Mar 2021

Sandra Martins é a presidente de Junta da União de Freguesias de Alvados e Alcaria e termina, em breve, o seu primeiro mandato. Numa viagem breve pela freguesia, fala dos seus pontos fortes e das melhorias que ainda considera necessárias. Ser presidente de Junta em tempo de pandemia e a beleza natural que vê em cada uma das aldeias são também tema de destaque nesta entrevista.

Este é o seu primeiro mandato à frente dos destinos desta união de freguesias, considera serem quatro anos de missão cumprida?
Totalmente cumprida não, porque há sempre mais coisas que gostaríamos de fazer. A nível das obras que nós tínhamos destinado fazer com o dinheiro que vem da Câmara, quer pelo contrato interadministrativo, quer pelo acordo de execução, estão, na maioria, concluídas. Houve algumas alterações, porque fizemos opções. Tivemos sempre uma prioridade, e surgiu isso por exemplo no ano passado, que era quando surgiam situações em que a segurança das pessoas pudesse estar em causa, abdicávamos de outra situação para resolver essa. Tivemos no ano passado duas situações em que tínhamos estradas que estavam a derrubar, estavam em perigo e nós optámos por não fazer uma determinada obra, em função de resolvermos esse problema. Em relação às obras de maior montante, que a Câmara tinha previsto para a nossa freguesia, temos a requalificação do rio aqui da nossa localidade que pensamos conseguir fazer este ano, provavelmente no verão. É uma necessidade muito grande porque também coloca em perigo, principalmente, os peões que circulam à beira da linha de água. Depois temos o miradouro das grutas, que era uma pretensão da Câmara, há um esquema já delineado mas está à espera do parecer do ICNF; e temos a questão da Ecovia que é algo que está pendente porque são verbas muito avultadas e a Câmara também está à espera da possibilidade de uma candidatura.

Ao longo deste tempo, sentiu a colaboração da população? Os seus fregueses envolvem-se na dinâmica da própria terra?
Sim, no geral senti, embora eu ache que há uma dificuldade – e foi a maior que eu senti. A nossa freguesia tem uma área bastante grande, um povoamento, principalmente na localidade de Alvados, disperso e, por isso, para fazermos a limpeza dos espaços, que é algo que eu acho importante, não é fácil, porque temos apenas um funcionário de rua, dado não haver capacidade monetária para colocar outro, que seria o ideal. O nosso funcionário, por muito bom que seja, que é, não consegue chegar a todo lado no tempo que as pessoas desejam e aí eu acho que às vezes estas têm alguma dificuldade em compreender, sabem que é só um, compreendem que ele tem muito trabalho, mas toda a gente deseja que a sua beira de casa esteja limpa, que naquela rua já tenha passado… Sentimos isso principalmente no primeiro ano de mandato e no ano passado também, foram anos de muita erva, o tempo foi pródigo para que ela crescesse e não é fácil. A nível de outra colaboração, penso que são pessoas que, no geral, estão com a Junta.

Quer a nível económico, quer a nível social, sente que Alvados e Alcaria têm crescido de forma sustentada?
A freguesia vive, neste momento, muito do turismo. Alvados chegou a ter, em tempos, alguma indústria, neste momento não existe. A esse nível, penso que tem havido um crescimento sustentável, mais em Alvados, que tem unidades hoteleiras maiores. De resto, não temos outras fontes de rendimento, a maioria das pessoas tem de sair para trabalhar. No geral, penso que tem sido uma evolução positiva, mesmo ao nível do turismo, tem sido um crescimento equilibrado.

O que é que ainda falta para que se diga que as terras estão de facto bem?
Na nossa ideia como Junta, tanto eu como os meus colegas temos esta perspetiva, achamos que é importante manter os espaços que são da alçada da Junta de Freguesia, em boas condições. Por exemplo, [quando chegámos] os cemitérios estavam num estado muito degradado e foi um investimento grande que fizemos. Também na Junta de Freguesia onde criámos o posto dos CTT e o Espaço Cidadão para servir as pessoas. Achamos que é importante continuar a manter os espaços que existem, porque muitas vezes constrói-se, constrói-se, constrói-se e depois não se faz nenhuma requalificação, nenhum arranjo e as coisas começam a ficar todas em más condições. Depois temos uma ideia de embelezamento no sentido de não tirar as características da aldeia, mas tentar manter, por exemplo, os muros de pedra; no caso do rio, que é uma linha de água que acompanha a estrada, tentar requalificá-la – a tal obra que queremos fazer –; mais alguns calcetamentos quando for possível, ou seja, incentivar ao embelezamento. Somos uma freguesia com uma beleza natural muito grande, acho que devemos aproveitá-la e tudo aquilo que é da mão humana, tentar também embelezar.
A nossa preocupação é criar condições para que quem vive cá se sinta bem, e também os que vêm, porque temos recebido pessoas que não eram de cá e que têm comprado aqui habitações ou restaurado, e criar essas condições sem nunca desvirtuar o contexto e a beleza natural. Depois criar também condições para quem por cá passa para que, de preferência, não passe só umas horas e fique cá, porque já temos espaço de oferta. Para que essas condições existam, temos de manter espaços como o da lagoa, muito procurado para parque de merendas, onde estamos para colocar uma casa de banho, água e luz elétrica, que é algo que não existe e que às vezes condiciona os piqueniques dos grupos que vêm.

Enfrentou, enquanto presidente de Junta, um dos maiores desafios para todos os autarcas, uma pandemia. Como foi este período?
No primeiro confinamento, disponibilizámos da parte da Junta, todo o apoio que pudéssemos dar a quem não tivesse ninguém que ajudasse. Tivemos alguns pedidos, felizmente poucos, digo felizmente porque isso me leva a concluir que apesar de termos alguma população envelhecida, não está assim tão abandonada, não se sentem isolados. Os pedidos de ajuda que tivemos, quer para farmácia, quer para supermercado foram realmente mínimos para o conjunto de pessoas que temos. Apoiámos sempre em tudo aquilo que a Câmara nos pediu, quer na entrega de máscaras, quer no apoio a todas as ações que foram desenvolvidas. Agora nas vacinas também estamos a dar algum apoio quando há necessidade de contactar as pessoas. De resto não sentimos, mesmo agora que tivemos mais alguns casos – nesta fase de dezembro e janeiro tivemos alguns casos na freguesia –, que havia situações em que tivéssemos que intervir ou que as pessoas tivessem realmente necessidade. Foi mantermo-nos disponíveis para. Leva-me a pensar que os nossos idosos estão apoiados, quer por vizinhos, quer por familiares porque não fomos, realmente, muito solicitados.

É incontornável falarmos do turismo e da sua envolvência com a natureza. Este é de facto um dos grandes motores para a freguesia?
É o turismo e toda a parte natural que é apelativa para quem vem, para quem passeia. Uma questão que tem que ser pensada é a situação da Fórnea, que é uma beleza natural muito própria e de há dois ou três anos para cá tem sido muito visitada. Existe também um projeto por parte da Câmara, de requalificar aquela entrada, fazer um pequeno centro de interpretação e acho que é preciso pensarmos nisso porque tem havido muita visitação e acho bem que haja, mas, infelizmente, há muitas pessoas que não respeitam o sinal que proíbe a circulação automóvel naquele espaço. As pessoas continuam a transitar, depois muitas vezes estacionam os carros em terrenos que são privados, que têm dono, e que as pessoas, muitas delas, têm cultivados. O espaço é para ser usufruído, mas tem que haver algum respeito a esse nível, temos que trabalhar um bocadinho essa parte, para não corrermos o risco de aquilo ficar tudo demasiado degradado. E os privados têm o direito a ter as suas terras e a não serem abusados nem usados como parque de estacionamento. Há ali um espaço à entrada que é privado, mas vamos fazer, em conjunto com a Câmara, um acordo para estacionamento.

Há o chavão de que esta é a freguesia com mais camas no concelho. Como vê a importância deste facto?
Acho que é importante para a freguesia e para o concelho, porque a sede não tem grande capacidade de resposta. Acredito que as pessoas quando pernoitam aqui, seja um dia ou mais, têm a curiosidade de conhecer o concelho, o castelo e outras belezas, portanto acho que é uma mais-valia porque estamos próximos e é bom haver esta oferta, dado que em termos de sede de concelho há realmente essa falta.
Apesar da dinâmica que o turismo traz, sente que Alvados e Alcaria estão já a sofrer as consequências da desertificação do mundo rural?
Um pouco. Temos tido uma baixa natalidade, que já se refletiu no fecho das duas escolas que tínhamos, a de Alcaria primeiro e posteriormente a de Alvados. Neste momento temos o jardim de infância ainda a funcionar com 12 crianças. Já teve menos, já teve mais, tem mantido sempre um grupinho pequenino. Acho que a baixa natalidade é um dos fatores e, depois, o problema geral, que eu acho que é de todas as freguesias, é a falta de emprego para que as pessoas que tiram alguns cursos superiores possam regressar. Nem sempre têm oferta profissional no concelho, em Alvados também acontece, em Alcaria também acontece e às vezes faz com que alguns casais jovens não possam fazer aqui família, isso vai refletir-se na natalidade. Temos alguns casais que vieram viver para cá, não eram de cá, apaixonaram-se pela freguesia, pela beleza natural, porque no fundo também não estamos afastados de tudo, estamos próximos da sede do concelho, das auto-estradas, não estamos isolados, e também temos alguns casais que regressaram, além daqueles que não eram daqui nem tinham cá raízes e que vieram para aqui restaurar uma casa e ficaram. Acho que o problema maior desta desertificação tem mesmo a ver com a oferta de trabalho nas próprias localidades ou muito perto e faz, muitas vezes, as pessoas deslocarem-se para cidades e acabam por ficar por lá.

Há alguma coisa que a Junta possa fazer para fixar população?
Não temos ainda medidas de incentivo à natalidade. O Município já tem, mas nós, Junta, ainda não temos nenhum incentivo monetário. Já falámos dessa situação, mas neste momento ainda não temos nada.

Entre as várias aldeias da freguesia, está a Barrenta, uma aldeia peculiar na medida em que apesar do seu tamanho, consegue ser dinâmica e organizar um encontro que traz milhares e milhares de pessoas; tem agora patente uma exposição de arte urbana também da iniciativa de um filho ou neto da terra. Acha que isto é demonstrativo do tipo de gentes das aldeias serranas (mais resilientes e com amor ao que é seu)?
Penso que sim. O Encontro Nacional de Concertinas é uma mostra disso. Não é por ser um lugar pequenino e ter poucas pessoas, cerca de 40, que isso fez com que baixassem as mãos e desistissem. Este encontro é neste momento o maior a nível do concelho, em termos de número de pessoas que traz. Acho que mostra a resiliência de que as pessoas são capazes independentemente de serem muitas ou poucas. O Encontro Nacional de Concertinas está neste momento muito bem dinamizado pelo Centro Cultural da Barrenta, na pessoa do Ricardo Pereira [presidente] que tem feito um ótimo trabalho, já tem uma dinâmica mais ou menos montada, já há uma quantidade muito grande de voluntários que colabora porque era impossível realizar um evento daquela dimensão se não houvesse muitos voluntários a ajudar.

É presidente de uma união de freguesias, que por ser isso mesmo, teve de aprender a fundir identidades e a trabalhar em conjunto. O que distingue esta união de freguesias dos restantes territórios do concelho?
Penso que é essencialmente a beleza natural que temos para oferecer, a pacatez… Há muitos anos, não era eu presidente de Junta nem pensava ser, houve um grupo grande de caminhantes de Lisboa que vinha para Fátima e habitualmente pernoitavam no salão paroquial de Alvados, e por acaso encontraram-me e disseram que, na caminhada, o local que mais gostavam era quando chegavam ao “Vale Encantado”, a chefe do grupo usou mesmo esta expressão. Na altura, nós, população, não a usávamos. E eu pensei “eu gosto muito disto, mas eu sou daqui” e às vezes pensamos que gostamos porque somos de cá, mas isto acontece com muitas pessoas e algumas delas acabam por comprar casas aqui ou restaurar, quando chegam aqui sentem-se bem. Cada freguesia tem a sua beleza, mas eu acho que esta é a mais-valia que Alvados e Alcaria tem, a beleza natural. Alcaria depois tem uma coisa muito agradável que é um povoamento mais concentrado e tem já uma grande quantidade de casas recuperadas, o que é muito bonito, aquele casario a manter aquela traça que as pessoas, felizmente, têm respeitado. Alvados é um bocadinho diferente, porque tem um povoamento mais disperso, acaba por ser mais difícil manter limpo e tudo isso, mas acho que as duas coisas juntas fazem realmente disto o “Vale Encantado”.