Em Entrevista… Sérgio Paulinho

9 Jan 2020

Nesta edição que tem como mote o desporto, o entrevistado d’O Portomosense é Sérgio Paulinho, o único ciclista português com uma medalha olímpica no currículo. Mas o palmarés de Paulinho vai muito além disso, conta-nos que, para si, o ponto alto da carreira foi a vitória numa etapa da Volta a França, a prova maior do ciclismo.
Sérgio Paulinho esteve em Porto de Mós, no mês passado, e concedeu-nos esta entrevista.

Como e quando começou a paixão pelas bicicletas?
Começou por culpa do meu pai, que também foi ciclista profissional já há alguns anos. Comprou-me uma BMX amarela, com que eu andava sempre na escola. Ele viu que eu tinha jeito e comprou-me uma bicicleta de ciclismo e inscrevi-me no clube de Matos-Cheirinhos, perto de casa, para correr e até agora, a minha vida tem sido sempre a bicicleta.

Alguma vez pôs em causa que este seria o seu desporto? Praticou outra modalidade?
Na altura, além do ciclismo, jogava futebol. Fazia parte da seleção da escola, mas nunca joguei numa equipa federada. Chegou uma altura em que tive que decidir e optei pelo ciclismo.

Em 2003, começou a sua carreira profissional, como surgiu essa oportunidade?
Foi na equipa de Vila do Conde, já vinha da categoria de sub23 também na mesma equipa. Passei a profissional nessa equipa. Foi um ano em que fiz logo a primeira Volta a Portugal.

Como é que um ciclista sente o momento em que percebe que a partir dali é “a sério”?
Tomei essa decisão quando estava nos sub23. Nas camadas jovens já fazia corridas a nível internacional com a seleção. Depois percebi que se quisesse seguir o ciclismo, tinha de me privar de muita coisa para poder fazer uma carreira a 100%. É exigido muito descanso, muito treino físico, muitas horas em cima da bicicleta. O mais importante é o descanso e então temos de nos privar de muitas saídas à noite, jantares com amigos. Tinha muitos amigos que me chateavam para irmos sair, jantar e não podia porque sabia que no dia seguinte tinha um treino complicado e muito duro e precisava de descansar.

A renúncia aos hábitos típicos dessa idade foi difícil ou o gosto pelo ciclismo superava isso?
No princípio foi complicado. Como qualquer outro jovem, gostava de sair à noite, de ir tomar um copo com os amigos, de ir a jantares, mas hoje não me arrependo. Acho que quando gostamos de uma coisa e lutamos por ela, compensa. É claro que não fiz uma vida como qualquer outro jovem da minha idade, mas não me arrependo.

Qual considera ser o ponto mais alto na sua carreira?
Tenho dois, a vitória na Volta a França e os Jogos Olímpicos, mas se tiver que escolher, escolho a Volta a França, porque para nós, ciclistas, é a corrida que se sobressai a todas as outras, e ganhar uma etapa, que é o objetivo de todos os ciclistas a nível mundial, é o auge.

Como foi, no momento, perceber que tinha ganho uma etapa da grande prova do ciclismo?
Foi num ano complicado para a equipa, em 2010. Tínhamos como líder da equipa [Lance] Armstrong, foi o último ano em que correu no Tour. As coisas correram-nos mal desde o início, com quedas, com tudo, não estava a correr como tínhamos planeado. Chegámos a certa altura do Tour em que o objetivo era ganhar etapas, entrar em fugas e naquele dia tive a sorte de entrar naquela fuga e conseguir o objetivo. Foi um dia que me ficou para a memória.

Como olha para esses dois momentos agora? Às vezes, quando estamos a viver os momentos sentimos de uma forma, e passado algum tempo, vemo-los de outra…
Penso muitas vezes nisso, mas tento não viver do passado, tento olhar para o que posso fazer daqui a um mês ou dois. Talvez quando deixar o ciclismo, quando sentir que chegou o meu ponto de retirada, então aí começo a olhar de maneira diferente. Mas neste momento, olho-as como duas vitórias que fazem parte do meu currículo.

Fez durante muitos anos parte da elite mundial do ciclismo, foi durante várias épocas companheiro de equipa do espanhol Alberto Contador, um dos grandes nomes do ciclismo mundial, também de Lance Armstrong. Como foi trabalhar com estas pessoas?
Bastante bom. Lembro-me de quando corria em Portugal, estar a ver o Armstrong na televisão, a ganhar os Tours e depois ser colega dele foi, para mim, marcante. Tenho-o como um ídolo e trabalhar com o meu ídolo é como estar nas “sete nuvens”. O Alberto e o Armstrong são pessoas diferentes. O Lance era uma pessoa mais fria. Mas na hora da competição são os dois iguais, não gostam de perder nem a feijões e, então, onde vão, vão sempre para ganhar. Nisso, eles são fotocópia.

Sabemos que numa equipa de ciclismo, todos trabalham para dar a vitória a um dos elementos. Como é sacrificar o desempenho ou as vitórias pessoais, em nome de outra pessoa?
Já muita gente me fez essa pergunta e eu digo sempre que quando corria em Portugal, era um dos lideres da equipa e quando fui para o estrangeiro, com todos aqueles nomes, sabia que [ser líder] ia ser uma missão não digo impossível, mas quase. Eram ciclistas de topo mundial. Foi-me dado um tipo de trabalho diferente daquele que tinha em Portugal, que era trabalhar para a equipa, adaptei-me e sempre disse: “Eu faço o meu trabalho e se eles ganharem, a vitória também é minha porque está lá o meu esforço e a minha dedicação em prol dos lideres”. Se eles ganharem, eu ganho também.

Acha que o ciclismo é uma boa modalidade para estimular o espírito de equipa?
Acho que sim. Há sempre um ciclista que é o líder e que nunca vai ganhar uma corrida sem o espírito de grupo. Isto é como o remo, se não remarem todos no mesmo sentido, o barco anda às voltas. E o ciclismo acaba por criar uma união muito grande. Há ciclistas em equipas diferentes que não se falam, não se dão bem, quando se juntam na mesma equipa acabam por ser os melhores amigos porque a união que se cria faz esquecer o passado e olhar para o futuro.

Em 2006, o seu nome foi envolvido num esquema de dopping, facto que o impediu de participar no Tour de França e que mais tarde se veio a concluir que não era verdade. Como foi todo o tempo em que havia uma dúvida instalada sobre si?
Ao princípio foi complicado, tudo isto começou quando o nosso diretor foi detido na Operação Puerto e a equipa ficou logo sem saber o que ia acontecer. Todos os outros diretores diziam para ficarmos tranquilos que não iria acontecer nada, continuámos a nossa preparação para o Tour, estivemos na apresentação e na véspera de arrancar o contra-relógio foi-nos dito que não podíamos participar porque dos nove ciclistas que estavam no Tour, seis estavam implicados na Operação Puerto. Um dos nomes era o meu. Ver o meu nome envolvido naquele esquema foi um choque. Acabámos por não poder fazer a competição, viemos para casa e ao fim de 10 dias ou três semanas, recebi uma chamada a dizer que podia ficar tranquilo que o meu nome já não estava na Operação Puerto. A própria UCI [Union Cycliste Internationale] mandou uma carta a pedir desculpas por ter incluído o meu nome e de mais dois colegas, porque foi um equívoco. Foi uma situação muito, muito difícil. Chegar a casa e ver os noticiários a abrir com a notícia do meu nome, foi um momento muito complicado.

O que é que se sente quando, além de ver o nome implicado, se é impedido de participar numa prova, que tem a importância que tem, por algo que sabe, desde o princípio, que é falso?
Não vou dizer que estava tranquilo, não estava porque fui apanhado numa situação que nunca esperava que acontecesse. Ver o meu nome em tudo o que são notícias de televisão, internet e para mais implicado na Operação Puerto da forma como estava a ser noticiada… O meu nome apareceu porque estava no computador do diretor desportivo, que é uma coisa super normal, todos os diretores têm o nome de todos os ciclistas no seu computador. A partir do momento em que recebi a notícia da UCI a dizer que foi um equívoco, com um pedido de desculpas, foi mais tranquilizante. Mas foi um período muito difícil da minha carreira.

Alguma vez, no seu percurso e por algum motivo, pensou em terminar a sua carreira?
Quando se deu este caso, logo no início, passou-me pela cabeça.

Quando é que acha que isso vai acontecer? Até quando é que acha que vai conseguir competir?
Digo sempre que, enquanto acordar e tiver vontade de treinar, irei continuar. A partir do momento em que comece a acordar, a olhar para a janela e a pensar “lá tenho eu que ir outra vez treinar” ou “outra vez chuva e não me apetece”, então decido encostar. Muito sinceramente, mais um ou dois anos e…

É uma questão de limitação física?
É mais o cansaço, os anos que eu tive no estrangeiro foram muito cansativos. Ganha-se muito dinheiro, mas perdem-se muitas outras coisas, não passamos quase tempo nenhum com a família, as viagens, tudo… E acaba por haver um desgaste não físico mas psicológico.

Este será o quarto ano na EFAPEL da Lousã, como se sente na equipa?
Bastante bem. No meu regresso [a Portugal] fui muito bem recebido por toda a equipa. É diferente. Enquanto no estrangeiro, éramos uma equipa entre 27 a 30 corredores, aqui somos, no máximo, 10, corremos sempre juntos. Quando estava no estrangeiro, havia sempre quatro ou cinco que eu nunca via durante o ano. Por isso é que eu digo que, em Portugal, é possível fazer uma união muito grande dentro das equipas.

É difícil ser-se desportista e, em particular, ciclista em Portugal?
Um pouco. Os apoios não são muitos, as equipas têm dificuldades para se manter, os gastos são bastante grandes. As equipas em Portugal têm que comprar tudo o que seja material mais caro, como bicicletas, rodas… Devido a essa dificuldade, os ordenados [dos ciclistas] acabam por ser muito baixos. Acho que para o esforço que é exigido a um ciclista, os ordenados em Portugal são miseráveis.

No concelho de Porto de Mós, há uma escola de ciclismo. Qual a importância que atribui a estas iniciativas, tendo em conta que o intuito até nem é a competição, mas sim os valores transmitidos?
Acho que deveria haver mais escolas de ciclismo em Portugal, porque nunca sabemos se dali pode nascer outro Joaquim Agostinho, que foi o nome maior do ciclismo português. É pena que as escolas não tenham mais apoios, mas acho que todas as que possam vir a surgir são bem-vindas para o ciclismo.

Quais os seus objetivos para os próximos tempos?
Em 2020, o meu objetivo é tentarmos ganhar a Volta a Portugal. Correndo em Portugal e na EFAPEL, da maneira como temos a equipa estruturada, acho que o objetivo não pode passar por outro que não seja esse.

Disse-nos que presume que a sua carreira tenha mais um ou dois anos, quais são os seus planos para depois disso?
Gostava de me manter no ciclismo. Já ando há mais ou menos dois anos para tirar o curso de diretor desportivo, mas ainda não se proporcionou. O meu objetivo é fazê-lo no final de 2020, para depois, mais tarde, poder ficar ligado ao ciclismo dessa forma.