Em Entrevista… Tiago Rei

23 Jun 2021

Tiago Rei é presidente de Junta de São Bento e está, agora, a concluir o seu primeiro mandato. Em entrevista a O Portomosense, refere como bandeira principal a conclusão do abastecimento de água, algo que, na sua opinião, vai catapultar a freguesia para outro patamar. A falta de outras condições, como boas telecomunicações, é, para si, uma lacuna que está a potenciar a saída de pessoas.

Há quatro anos foi eleito, pela primeira vez, presidente de Junta de São Bento. Qual o balanço que faz deste mandato?
Considero que o balanço é positivo. Temos um programa eleitoral, que vamos consultando e tentando cumprir ao máximo, ainda que nem sempre consigamos, porque também vão surgindo outras realidades, que não estão no programa e que são prioridade.

Sabemos que há sempre mais a fazer, mas que obras são prioritárias para São Bento e quais as que ficam ainda por realizar?
Temos no programa a intervenção no cemitério. Da casa que existia, fizemos um telheiro aberto para pôr a urna, porque o que estava lá não era utilizado, era um espaço degradado. Construímos o ossário, fizemos uma remodelação ao cemitério mas temos um projeto concluído para fazer o alargamento. Fazer essa obra é uma das prioridades porque os covais começam a estar todos ocupados. Assim que for publicado o PDM e passar para a parte das Câmaras, acho que o projeto tem todas as condições para avançar.

Ao longo destes quatro anos, viu a sua freguesia crescer? Em que áreas?
A nossa bandeira continua a ser o fechar do abastecimento de água. O abastecimento de água fixa pessoas. No início fui abordado por pessoas que queriam comprar casa, mas quando iam vê-la, não tinha água e já não queriam. A conclusão do abastecimento de água vai ser uma realidade, portanto a freguesia tem tudo para crescer e, de facto, a situação da pandemia tem trazido muito mais pessoas que querem fixar-se cá.

As eleições serão dentro de poucos meses, vai recandidatar-se?
Tenho tido, da parte da equipa, pedidos para fazer uma nova candidatura, também da população, e essa hipótese está em cima da mesa. Não está ainda decidido porque isto de ser candidato ou presidente de Junta ocupa muito tempo e quem perde é a nossa família, são eles os primeiros a sofrer com isto. Além disso, eu tenho atividade empresarial e as empresas muitas vezes sofrem com isto também e não podemos abandonar a nossa vida profissional, é algo que tem que estar sempre claro para nós.

São Bento é das freguesias mais envelhecidas do concelho e se isso traz condicionantes em todas as áreas, também na COVID-19 terá sido um motivo de maior preocupação, uma vez que esta é das faixas etárias mais vulneráveis. Enquanto presidente de Junta, como tem vivido este período de pandemia?
Quando veio a pandemia, ninguém estava preparado, toda a gente ficou desesperada a pensar no que poderia acontecer, mas creio que as pessoas de mais idade, como já passaram outras dificuldades, se calhar até estavam mais bem preparadas ou mais acauteladas, creio. Mas isto foi assustador, queríamos atuar e ninguém sabia como. Muitas vezes vinha informação e nunca sabíamos se era o mais correto. A nossa freguesia foi das últimas a ter COVID-19, o surto que tivemos veio do lar de Minde, mas neste momento está estável. As pessoas tiveram, desde o início, cuidado. Tentámos dar apoio às pessoas de mais idade, distribuímos alguns materiais de proteção e disponibilizámos o executivo da Junta para dar apoio, caso necessário, e neste momento podemos dizer que conseguimos ultrapassar algo com que estávamos super preocupados.

A freguesia que lidera é também aquela que, no concelho, tem a maior área, sendo, por outro lado, a única com a classificação de território de baixa densidade. A desertificação é, de facto, um problema que tem vindo a agravar-se?
Claro que é e vai continuar a ser. Tem que haver políticas para essa área e uma das primeiras é aquilo que há pouco referi: para fixar pessoas, temos que lhes dar condições, temos que ter o que é básico, a água, as redes viárias e a comunicação. Ainda há pouco falava com um jovem, e isto custa, que me disse que vai para Leiria estudar durante esta semana, preferia ficar aqui mas tem que ir porque aqui ainda não tem internet. A pessoa tem que sair porque aqui não tem as ferramentas necessárias para poder fazer o seu trabalho.

Referiu bens essenciais que a Junta, por si só, não pode providenciar, mas há alguma coisa que possa fazer para combater esta tendência de desertificação e de êxodo?
Quando as crianças vieram para casa para a telescola, verificou-se logo a falta de internet para poderem assistir às aulas online. A Junta tentou agarrar este problema e enviámos cartas para o Presidente da República, para o primeiro-ministro, para os ministros, para as bancadas parlamentares, para todas as entidades onde estavam envolvidas as crianças. Fizemos uma série de trabalhos que deram alguma visibilidade e mais tarde veio o presidente da ANACOM, cuja visita à freguesia eu agradeço muito. Esta freguesia, sendo de baixa densidade, passou a ser prioritária. A Câmara Municipal também fez algum trabalho, mas estou convicto de que se não damos, nós Junta, este passo, provavelmente hoje não estávamos quase com o problema resolvido. Fala-se que até agosto a conclusão da fibra ótica vai ser uma realidade. Tenho que agradecer profundamente também o contributo de alguns residentes para conseguirmos dar este passo que é muito grande.
Gostava de referir que, apesar de sermos um território de baixa densidade, temos tido procura de várias empresas, mas os empresários chegam à Junta e pedem uma certa área para fazer um determinado projeto, mas depois a área de que eles precisam, normalmente é condicionada pelo PDM, por isso há alguns ajustes que deveriam ser feitos de forma urgente, para que quem queira fixar-se e fazer o seu investimento não se depare com esta barreira, não faz sentido, mas isto não depende da Junta.

Ao longo dos últimos anos falou-se da importância que poderia ter uma zona industrial na zona serrana…
Provavelmente essa Zona Industrial, por pequena que fosse, ia combater as necessidades das empresas que querem crescer. Para fixar pessoas há que haver emprego. Isso ia criar postos de trabalho e estas empresas que querem crescer, já podiam fazer a sua aposta. Não havendo condições, as pessoas vão saindo e vão procurar territórios que não tenham estas condicionantes.

A economia local esteve muito assente em dois pilares: a extração de pedra e a criação de gado bovino. Daquilo que conhece, como é que estão esses dois setores ao nível da freguesia?
Em relação à parte extrativa, temos o núcleo da brecha de Santo António, no Espinheiro, Moliana, é uma pedra interessante. Depois o outro núcleo que temos é a calçada tradicional. É um marco importante e é uma pedra que irá estar sempre a ser comercializada. Quanto ao gado, creio que houve um aumento da parte dos jovens em criar gado bovino. Anteriormente seria o gado de leite, depois os negócios quando deixam de ser lucrativos, deixam de ser exequíveis e as pessoas vão abandonando. Creio que foi o que aconteceu nas vacas de leite. Agora os jovens estão a apostar mais, e bem, na criação de gado para carne. É uma mais-valia, todo o território acaba por estar mais limpo, com manutenção e tem potencial para crescer, até porque temos uma carne de qualidade. Toda a carne que aqui cresce e que está nos talhos próximos, é carne de muita qualidade, é gado criado ao natural.

Como está a freguesia ao nível do turismo? Há procura? E oferta?
Tem havido procura. A pandemia afastou os turistas, mas antes a freguesia de São Bento estava a ter uma procura muito interessante. Os muros de pedra seca deram-nos alguma visibilidade. E quando se fala na freguesia, nas redes sociais, nota-se que há um crescimento de pessoas a procurar. É positivo, as pessoas gostam de vir porque há várias ofertas, a freguesia tem tudo para fazer na parte do turismo.
Por outro lado, temos alguma capacidade de resposta. Obviamente não para todo o turismo, mas vai-se criando, eu sei que há alguns investimentos a aparecer. As pessoas estão a adaptar-se e neste momento há quem esteja a recuperar casas antigas, pessoas que vieram de fora, para o turismo. A pouco e pouco estão a criar-se as condições de resposta ao turismo.

Apesar de São Bento ter uma população maioritariamente envelhecida, conta também com jovens dinâmicos e com cada vez maiores habilitações literárias. Eles são verdadeiramente o futuro da terra ou há também o risco de saírem para meios onde encontrem emprego e outras condições que São Bento ainda não proporciona?
A parte de cada vez haver mais jovens licenciados é completamente verdade. É a grande aposta do futuro. E os nossos jovens, que cresceram em São Bento e foram para fora, cada vez gostam mais da freguesia. Esses jovens é que são os homens de amanhã e tendo formação é uma mais-valia para trazer conhecimentos para a freguesia. Acredito muito neles. Há alguns jovens que, de vez em quando, me abordam e quando falam comigo, vejo neles felicidade pelas pequenas mudanças que veem na freguesia, para mim e para o executivo isso é um orgulho.

Voltando ao tema da água… Em princípio, se tudo correr como está anunciado, este ano ficará completo o abastecimento de água a toda a freguesia, uma promessa eleitoral das sucessivas equipas que já passaram pelo executivo camarário e também da atual. Na sua perspetiva, esta demora aconteceu porque, de facto, dado o terreno, ficava muito caro construir a rede e espalhá-la pelos lugares da freguesia, ou foi mais uma opção política?
Acho que é tudo uma opção política. Quando eu ia para a escola, para o 5.º ou 6.º ano, numa altura de campanha eleitoral, via os placards, em Serro Ventoso, que diziam “Conclusão do abastecimento de água da freguesia de São Bento”. Estamos a falar de há 30 anos e só agora, passados estes anos todos, é que há a verdadeira conclusão? Eu não estava na vida política, fui convidado para encabeçar a lista. Fui fazendo algumas perguntas sobre o que seriam as propostas e uma das minhas batalhas foi sempre a conclusão do abastecimento de água. Não fazia sentido pensar noutras obras enquanto esta não estivesse concluída.

Nos últimos anos São Bento recebeu algumas famílias de fora, inclusive estrangeiros. Uns fixaram-se, outros acabaram por sair passado algum tempo. Na sua perspetiva, o que pode levar uma pessoa que não é de São Bento a fixar-se na freguesia?
A tranquilidade, as pessoas que cá moram que são puras e simples, sentir esta liberdade, este ar puro. Eu vivi 20 anos em Porto de Mós, gostei de lá viver, tenho boas recordações, mas estar aqui… Saio de casa e posso pegar no meu cão, na bicicleta e saímos com uma liberdade imensa, até com as crianças… Viver na natureza traz uma paz de espírito muito grande. Vou muitas vezes para fora, e quantas mais vezes vou, mais gosto da nossa freguesia, de viver aqui em São Bento. E é isso que quem vem sente. Se formos caminhar, vemos cabras, ovelhas, vacas a pastar, estar no meio dos animais é uma riqueza para o espírito.

O que é que São Bento tem de único?
A paisagem, a própria natureza. Fala-se muito na Fórnea, nós também temos uma parte, normalmente a fotografia aérea que aparece, a parte maior, a parte verde, é na freguesia de São Bento e é uma parte espetacular. Temos a Praia Jurássica, que é única no mundo, e entretanto há uma ideia para se concretizar que espero que vá em frente. Não gosto muito de falar dos projetos sem ter certezas, mas é um projeto muito interessante para que ela seja mais visitada e tenha mais visibilidade. Temos muitas atrações, os carros à vela, o Algar das Quatro Bocas, a Lapa dos Pocilgões que é bonita de visitar, temos o parque de merendas, que vai ser requalificado; temos os trilhos naturais para o BTT, podemos fazer os percursos a pé, temos as nossas capelas para ver… Há várias atrações de que as pessoas podem desfrutar. Só respirar este ar já é, por si só, uma riqueza.