Estamos em pleno cenário de festas populares, sobretudo entre junho e setembro, e facilmente conseguimos imaginar que, aqui e ali, vamos ouvir falar português mas com sotaque. São os emigrantes, alguns, que há várias décadas abandonaram o seu país e a sua terra natal para construir uma vida melhor. As saudades, essas, são vividas diariamente e sempre com o pensamento no dia em que voltarão a Portugal. E se há momento a que alguns se recusam faltar, é o da festa da sua terra, que lhe recorda os tempos de juventude.

Maria dos Santos está emigrada em França há quase 50 anos (completa meio século no início do próximo ano). Partiu “atrás” do seu marido, que já estava lá emigrado quando casaram. Recorda esse momento com alguma tristeza: «Com muita pena deixei os meus pais, a minha família toda, foi muito difícil». As saudades são colmatadas precisamente com a vinda à sua terra, Alvados, que curiosamente nem foi a terra onde nasceu, mas que sente como sua. «Fui para Alvados com um ano, mas sou natural de Fátima. O meu pai é de Fátima e a minha mãe nascida em Alvados. Eu sinto-me completamente de Alvados», frisa. Das melhores recordações que tem da sua aldeia são as festas, em honra de Santo António e São Sebastião e de todos os papéis que acabou por viver: «Cheguei a ser catequista, éramos mordomos, fazíamos a festa, pedíamos pelas aldeias…», lembra.

Um dos rituais que ainda hoje mantém, mesmo em França, é do de preparar a roupa própria para levar aos dias de festa. «Uns dias antes, preparava os fatos para levar e quando fui para França continuei a fazer a mesma coisa. Uma vez comprei um vestido a uma colega que me disse que era muito moderno, quando cheguei à festa, havia vestidos iguais», conta, entre risos, Maria dos Santos, que pensou «que chegava [à festa] e todos ficavam a olhar porque levava uma coisa diferente». Desde que foi para França, este ano, devido à pandemia mas também por questões de saúde, é o primeiro que vai faltar à festa, porque durante todos estes anos marcou as férias em função deste evento. Este amor já o passou às filhas e até aos netos, que sempre que podem estão cá também para dar continuidade a esta tradição, embora tenham todos nascido já em França. Mas não é só à festa de Alvados que vai, a família divide-se também pela festa da Ribeira de Cima, terra do marido de Maria, que calha precisamente no mesmo fim de semana.

Apesar de não vir à festa, admite que se o contexto atual melhorar ainda quer vir a Portugal este ano. É indiscutível que é feliz em Alvados, mas confessa que por vezes, «não sente» que «pertence» à terra que há vários anos deixou para trás. Construiu a vida noutro país, é lá que tem parte das suas conquistas, ainda assim, este será sempre o seu país, e a festa de Alvados o regresso às origens e às memórias mais bonitas.

Vir a Portugal é uma necessidade para estar bem

Vanda Marques tem 46 anos e há 27 que vive em Connecticut nos Estados Unidos da América (EUA). Está a um oceano de distância da terra que a viu nascer, São Bento. Partir não foi fácil e a intenção era voltar, poucos anos depois, a Portugal. «Eu casei nova mas tinha planos de fazer um curso na universidade, entretanto como engravidei sem estar nos meus planos e como o Carlos [marido] queria experimentar ir para os EUA, eu achei que seria mais fácil constituir família e estudar ao mesmo tempo lá, porque as universidades têm infraestruturas para isso. Tinha planos de acabar o curso e regressar a Portugal», conta. Embora o primeiro e o segundo ano não tenham sido difíceis, depois de ter deixado para trás «a família, os amigos, o carro, a casa mobilada», a verdade é que a vida se começou «a ajeitar» por terras norte-americanas: «No terceiro ano comprámos casa, num sítio sossegado, com escolas boas e gostámos do estilo de vida, comecei a ter mais motivação e objetivos», frisa. Vanda Marques arranjou trabalho numa boa empresa e conseguiu completar os seus estudos, chegando mesmo a fazer um doutoramento.

A verdade é que apesar de se sentir feliz e realizada nos EUA, reconhece que em termos sociais a convivência entre as pessoas nos dois países é totalmente diferente, sendo que em Portugal as pessoas convivem muito mais. É desse convívio que Vanda Marques sente falta e é por isso que em quase três décadas de emigração, veio todos os anos matar saudades do seu país e da festa da sua terra. «Tenho ido a Portugal todos os anos no verão, tenho saudades do nosso clima, das pessoas, de ver a família, da comida portuguesa, de ir à Nazaré apanhar a brisa fresca do mar», confessa. Quando chega a São Bento «sente-se em casa» e sobretudo na festa: «Tento sempre conciliar as férias com a data da festa, que às vezes muda de ano para ano. Eu gosto de ir porque é uma forma de ir ao lugar e ter as pessoas todas conhecidas lá, escuso de andar de casa em casa para ver as pessoas, é um ponto de encontro. Para mim é uma festa chegar ali e conviver com toda a gente, dizer “olá” a toda a gente, ver pessoas que já não via há algum tempo. De outra forma era difícil conseguir ver toda a gente», explica.

E festas semelhantes, existem nos EUA? Por acaso sim. «Aqui na nossa zona temos a sorte de ter festas de verão, de Santo António, São Pedro e São João porque a comunidade portuguesa organiza», refere. Vanda Marques diz ainda que de «há uns anos para cá, têm sido feitas mesmo tasquinhas à moda de Portugal». Ainda assim, garante que «não é a mesma coisa» porque «as festas só por serem em Portugal têm um sabor especial».

No caso de Vanda Marques, com dois filhos criados toda a vida nos EUA, foi também possível passar-lhes o gosto pelas tradições portuguesas. «O meu filho mais novo que já nasceu cá, adora tudo o que são eventos de comunidades portuguesas, corre todos os eventos mesmo noutros estados», conta, orgulhosa. Quanto ao filho mais velho, apesar de ter uma noiva norte-americana, tem casamento marcado para o ano em Portugal, que estava inicialmente previsto para este ano mas foi adiado devido à pandemia de COVID-19. Portugal vive dentro desta família e Vanda Marques fala mesmo em «necessidade» de vir a Portugal: «Já tirei férias para ir a outros lados, mas para recarregar baterias, a única forma é ir a Portugal. Sinto mesmo necessidade», confessa