São jovens, decidiram estudar para ter melhores oportunidades no mercado de trabalho e a pergunta que se coloca é: foi isso que aconteceu? Fala-se muito na crise dos millenials (geração nascida entre 1980 e 1995), seja pela falta de oportunidades de emprego, porque as oportunidades que existem são precárias, com salários baixos e sobretudo, porque adiam projetos de vida, como comprar casa, casar ou ter filhos. Trazemos aqui dois testemunhos, ambos na casa dos vinte anos, de jovens que saíram da sua terra para estudar e que continuam a trilhar os seus caminhos profissionais nestas cidades. As experiências das duas jovens são distintas, também porque as áreas de estudo o são, mas ambas revelam consciência de viver numa época em que é preciso correr muito para ter oportunidades.

Margot Oliveira, 25 anos, São Jorge/Coimbra

Margot Oliveira começou por apostar no «sonho», um curso de fotografia. No primeiro ano de faculdade entrou nesta licenciatura no Politécnico de Tomar. A experiência «não correu bem», o curso não era o que esperava: «Eu percebi que só nos levava para um caminho, o de sermos fotógrafos de casamentos, de eventos e eu pretendia um lado mais editorial e artístico». A juntar a tudo isto, a jovem percebeu também que esta era uma área «muito injusta», onde «há muitas pessoas que singram sem terem curso superior». «Se alguém fizer mais barato, não interessa a formação, a pessoa escolhe quem faz o serviço mais barato», frisa.

A luta recomeçou. Margot Oliveira desistiu do curso de fotografia e voltou a candidatar-se ao Ensino Superior, recuando a uma área que muito tinha que ver com o seu percurso secundário. Entrou em História na Universidade de Coimbra, com objetivos bem delineados: «Queria tirar História, para depois poder trabalhar em Turismo, por exemplo num departamento turístico de um hotel ou até ser guia turística». O curso correspondeu «totalmente às expectativas» e a jovem sentiu que estava na cidade indicada «para estudar História». Terminou o curso em três anos mas sentiu que tinha de aprofundar os seus conhecimentos e candidatou-se ao Mestrado em Turismo, Território e Património, onde não entrou. Foi nesta fase que a sua experiência no mercado de trabalho começou, para se conseguir manter, financeiramente, em Coimbra. «Fiquei um ano a trabalhar numa bolsa de estágio remunerado no Turismo da Universidade», conta. Depois deste ano, onde acabou por fazer também outros part-time, voltou a candidatar-se ao mestrado e entrou.

Por ter feito uma pausa nos estudos, Margot confessa que o primeiro ano não lhe correu bem, «as notas não corresponderam ao que queria» e acabou por repetir o primeiro ano, que ia conciliando com um emprego numa loja de roupa. No presente, falta-lhe fazer a tese de mestrado. O que estava nos planos era fazer um estágio, mas a COVID-19 eliminou essa possibilidade e a juntar a isso, ficou desempregada, também em consequência da pandemia.

De momento Margot já tem uma pós-graduação e há alguns meses que está à procura de trabalho na área: «Já enviei mais de 150 currículos», diz. Sente uma frustração muito grande, porque começou a procurar trabalho «no pior ano de sempre para o turismo» em Portugal. Estando no meio percebe também que esta já é, à partida, uma área «com muito poucas oportunidades de emprego». «É uma área muito parada, e as ofertas que existem já estão atribuídas», deixando aqui uma crítica ao facto de até nos concursos públicos, os cargos serem «atribuídos por compadrio».

Quando se fala na parte financeira, Margot Oliveira acredita que o Turismo e todas «as áreas das Humanidades», são também áreas onde as remunerações, em Portugal, não são adequadas e onde «não há margem para crescer». É por isso que o seu objetivo é arranjar um emprego para juntar algum dinheiro e emigrar, com destino já escolhido: Londres. Voltar para São Jorge, quando já está habituada às suas rotinas e à sua casa não é uma opção que a agrade, mas acontecerá «se não arranjar emprego». Hoje, admite, olha para trás com algum arrependimento pelas opções académicas que fez: «Dá vontade de ter escolhido um curso mais lógico e não escolher a irracionalidade dos sonhos».

Beatriz Carreira, 26 anos, Porto de Mós/Lisboa

Chegado o final do Secundário com notas boas no curso de Ciências e Tecnologias, Beatriz Carreira sabia que isso lhe abriria portas para ingressar em vários cursos. Não tinha uma vontade específica, sabia apenas que gostava da área de Psicologia. «Fui visitar algumas universidades em Lisboa, algumas de Psicologia e outras na área de Gestão», a segunda, por sugestão do pai que lhe disse que esta, por ser uma área bastante genérica, era uma boa opção. «Acabei por gostar bastante da Faculdade de Economia (hoje, a Nova School of Business and Economics), gostei do programa de licenciatura e de intercâmbio», explica. Ao fim de três anos de licenciatura em Gestão já tinha «uma visão» sobre aquilo que poderia ser o futuro profissional, mas não se sentia preparada para o mercado de trabalho. Decidiu por isso tirar um mestrado, na Universidade Católica Portuguesa, em Consultoria Estratégica, uma especialização que lhe permitia afunilar o seu caminho. As universidades que escolheu foram preponderantes, acredita, para ter um contacto privilegiado com as empresas: «Ambas pretendem que os alunos tenham um contacto próximo com o mundo empresarial». Foi precisamente através de um conhecimento adquirido no mestrado que conseguiu o primeiro emprego.

«Na Católica, os alunos são inseridos num programa de mentores, ex-alunos e que neste momento já estão em posições seniores de empresas», explica. Foi através do seu mentor que conseguiu um estágio de verão e quando terminou o curso, ingressou na empresa já profissionalmente. Ficou dois anos nesta empresa, mas decidiu mudar de ramo dentro da área da Gestão: «Na altura pensei muito em sair de Portugal por uma questão de experiência», até porque tinha boas recordações dos intercâmbios que tinha feito. «Durante seis meses só fiz candidaturas para o estrangeiro», conta Beatriz, admitindo que «foi extremamente difícil progredir nas várias fases de recrutamento». Começou então a equacionar manter-se em Lisboa e sem nunca se despedir do primeiro emprego, conseguiu, através de um conhecimento interno, mudar de empresa.

Beatriz Carreira admite que em Portugal é muito importante conhecer alguém dentro das empresas. «As empresas valorizam muito que alguém internamente faça referência a uma pessoa, esse currículo vai passar mais rápido às entrevistas», salienta. Assim a jovem entrava na sua segunda experiência profissional. «Quando comecei o trabalho efetivo, reparei que as minhas expectativas não estavam alinhadas com o que a empresa estava a fazer» e Beatriz, mais uma vez, não teve medo de procurar outra oportunidade, depois de três meses nesta empresa.

A jovem sabia para onde queria ir, tinha uma empresa em mente, mas desta vez não conhecia ninguém internamente. Foi através do LinkedIn, rede social que tem mesmo como objetivo estabelecer conexões profissionais, que enviou uma mensagem a um chefe de equipa dessa empresa e conseguiu realizar uma entrevista, que culminou na sua contratação. As transições de emprego foram sempre rápidas e por isso, Beatriz Carreira, admite, teve sempre «sorte» no seu percurso, no entanto também frisa que a sua área «não está em crise» como outras e que também foi sempre à procura dessa sorte. «Há indústrias onde é extremamente visível a crise», garante, consciente que é normal que alguns jovens tenham dificuldade em estabilizar-se.

Beatriz vive em Lisboa, «uma cidade caríssima», mas consegue pagar as contas autonomamente, reconhecendo que apesar de receber um salário que lhe permite sentir-se confortável, esta não é a cidade ideal para comprar casa ou ter filhos. «As minhas despesas fixas representam 65% do meu salário, todos os investimentos que queira fazer à parte, tenho de pensar muito bem», admite, tendo a noção que «se acrescentasse um filho» ao orçamento, poderia não ter capacidade de se manter em Lisboa «onde as creches são caríssimas». Voltar a Porto de Mós não estava nos planos, mas começa a estar, precisamente na perpetiva de constituir família, mas, por enquanto, «ainda é uma incógnita»