Com 64 anos, Regina Santos é o exemplo de alguém que se tem dedicado ao voluntariado durante praticamente toda a sua vida. Ser voluntária está-lhe no sangue e corre-lhe nas veias a uma velocidade estonteante, que já dura há anos. «Sempre gostei de ajudar os outros», confessa. O tempo que tem dedicado a ajudar o próximo é maior do que aquilo que a própria memória consegue suportar e por isso, não consegue dizer com precisão quando esta caminhada começou. Sabe apenas que abraçou o voluntariado há mais ou menos «27 ou 28 anos», altura em que integrou a Conferência de São Vicente de Paulo e da qual é presidente há cerca de 15 anos. «Recordo-me de um dia o senhor padre ter dito na missa que quem quissesse entrar no grupo, tinha que ir a uma reunião. Eu fui, achei interessante e fiquei até aos dias de hoje», conta.

Durante as quase três décadas de experiência como voluntária, Regina Santos já viu e ouviu muita coisa. O seu percurso tem sido cimentado com gestos de gratidão das pessoas ajudadas mas também por alguns espinhos. No entanto, garante, essas dificuldades nunca a fizeram pensar em desistir. «Às vezes uma pessoa é mal compreendida e as coisas não correm tão bem como desejamos. Mas depois penso que já não posso viver sem isto, que já faz parte de mim», frisa.

Um dos grandes testes à sua capacidade de resiliência, talvez o maior de todos, teve-o durante a pandemia quando se viu «praticamente sozinha» a fazer a distribuição mensal de alimentos a famílias carenciadas da freguesia de Porto de Mós, a área de abrangência desta Conferência de São Vicente de Paulo. «Tem sido um período difícil», garante. Quer fosse por motivos de saúde ou de idade, o grupo inicial de sete pessoas acabou por ficar reduzido apenas a Regina Santos, que mesmo com um «pé ferido» que lhe limitava os movimentos e a fazia ter dificuldade em conduzir, nunca baixou os braços.

«Antes da pandemia, as coisas corriam melhor para mim», desabafa. Nessa altura, contava com o auxílio de outras pessoas para fazer a distribuição, mas com a chegada da pandemia, a voluntária passou a ter que fazer tudo sozinha. «Faço uma série de sacos, pego no carro e distribuo-os. No outro dia faço mais não sei quantos e volto a levá-los. Assim leva-me mais tempo», descreve. Apesar de garantir que é de «boa vontade» que faz voluntariado, Regina Santos ao ver-se solitária, confessa que se começou a sentir-se desanimada e por isso, decidiu pedir ajuda. O apelo feito pelo pároco foi bem recebido pela comunidade e várias pessoas se ofereceram para fazer uma nova equipa. «Têm aparecido mais famílias e por isso, é cada vez mais necessário haver quem se esforce um bocadinho pelos outros», frisa, adiantanto que só nos meses de setembro e outubro foram apoiadas «42 famílias».
Há 15 anos à frente da presidência da Conferência de São Vicente de Paulo, Regina Santos sente que já está na hora «de dar lugar a outro». Porém, garante que continuará a pertencer ao grupo e que irá continuar de mangas arreçadas. «Está fora de questão sair. Tenho plena vontade de continuar a colaborar e a ajudar. Simplesmente quero deixar de ter essa responsabilidade», esclarece.

Quando o amor à camisola fala mais alto

Há cerca de 11 anos que Paulo Gomes é presidente d’Os Andorinhas, o Grupo Desportivo situado na Cruz da Légua. O convite, recorda, surgiu em 2008, altura em que lhe foi pedido que tomasse conta «do rumo do clube». Desde esse momento e até aos dias de hoje, já conseguiu, juntamente com os restantes elementos da direção, criar uma «equipazinha», colocar relva sintética no campo de futebol e fazer «outras obras». «Dá-nos gozo fazer parte da formação e o que nos movia era também a equipa que nós tínhamos», confessa o voluntário, de 50 anos. Contudo, a chegada da pandemia acabaria por deitar por terra alguns dos projetos em vista, como a formação e o bar, o que motivou a que o clube esteja hoje num estado de «quase inatividade». «Desde março para cá, tem sido uma nulidade autêntica e isso é uma coisa que me desagrada totalmente», desabafa.

O cansaço e a saturação de Paulo Gomes tem-se vindo a acumular, ao ponto de já ter pensado em “atirar a toalha ao chão”. «Estou a ficar um bocadinho cansado. O presidente da mesa já tentou convocar eleições, mas ainda não conseguiu. Quando é para fazer alguma coisa é raro aparecerem pessoas que ajudem», lamenta. Apesar da forma como hoje se sente, o voluntário admite que a ligação que possui com alguns dos elementos é uma das razões que não o leva a render-se. «O que me tem feito continuar é o amor à camisola e ter algumas pessoas ao meu lado que me têm apoiado e que eu não quis defraudar», explica.

À semelhença de Regina Santos que já consegue ver uma luz ao fundo do túnel, também o futuro de Paulo e restantes membros pode estar prestes a mudar. Depois de muito tempo sem conhecerem ninguém que tivesse capacidade de seguir com o clube e «não o deixar ao abandono», a verdade é que agora já têm em vista algumas pessoas capacitadas para continuarem «com ele para a frente».

“Dar catequese foi algo natural para mim”

Ana Ventura tinha apenas 15 anos quando começou a colaborar na catequese na paróquia do Juncal. Não considera que tenha sido «uma decisão», mas sim «algo natural», tendo em conta que já se sentia «parte da comunidade» e como tal era seu dever «colaborar». «Não se pode dizer que fosse catequista, mas sim houve uma continuidade de caminhada», explica. Dois anos mais tarde, havia de ingressar no curso de iniciação. O curso Geral de Catequese chegou mais tarde, aos 21 anos, juntamente com o estágio.

Hoje com 47 anos, Ana Ventura, garante que «aprendeu imenso» durante os «20 anos» em que foi catequista. Passou por várias paróquias e essa diversidade de experiências permitiu-lhe conhecer realidades muito distintas. Atualmente já não é catequista. Uma decisão que, admite, tomou a partir do momento em que essa atividade «deixou de fazer sentido» para si. Porém, garante que, ainda assim, todos os dias faz algo para além do que é o seu «estrito dever».
Nos dias de hoje é bastante recorrente ouvirmos associações queixarem-se da escassez de voluntários. Ana Ventura é da opinião que existem muitas pessoas disponíveis para ajudar, mas o que acontece é que nem sempre estas sabem «como ou onde ajudar». «Às vezes, não é preciso fazer grandes coisas, que deem muito nas vistas. Ser voluntário com um colega de trabalho, tem igual valor, desde que se faça com generosidade e amor», defende.