Paulo Azevedo é natural da freguesia da Redinha, no concelho de Pombal. Nasceu há 38 anos, sem mãos, nem pernas. Além de ser ator, realiza, atualmente, ações de coaching e palestras motivacionais, onde fala da sua experiência e de como através das suas fragilidades foi buscar a força que o tornou num profissional realizado.

No dia em que nasceu, a sua mãe, ainda adolescente, viu-se com um filho diferente nos braços. Daquilo que lhe contaram os seus pais, como é que foi esse primeiro impacto?

Há 38 anos não havia ecografias e por isso, ninguém sabia que eu ia nascer assim. Mas quando aos oito meses a minha mãe deu à luz, de cesariana, o impacto foi tão grande que o médico esteve duas horas a chorar dentro do gabinete.
Eu costumo dizer que conto uma história de heróis reais e a minha mãe foi a minha primeira heroína porque quando ela acordou da anestesia, não sem antes ser avisada que o bebé era diferente, abriu o cobertor e a primeira coisa que disse foi: «Podia ser pior». Aí é a prova viva que o amor vence todas as barreiras e essa é a frase que eu uso todos os dias à frente do espelho, quando acordo de manhã.

Nesse momento, há uma série de expectativas e sonhos que vão por água abaixo…

Sim, claro. Por exemplo, o meu pai foi jogador de futebol e tinha o sonho que eu fosse também. Sei disso porque um dia encontrei o equipamento do Benfica e umas chuteiras de bebé, guardadas na gaveta da mesa de cabeceira do quarto dele. Eu imagino que tenha sido um choque tremendo quando se apercebeu que o filho nunca poderia vir a ser um jogador de futebol como ele, porque nasceu sem aquilo que é necessário, que são os pés e as pernas. Costumo comparar o meu nascimento a um tremendo murro no estômago, porque acredito que foi o que a minha mãe deve ter sentido, naquele segundo. Além disso, os meus avós apenas me viram ao quinto dia, porque só nessa altura é que conseguiram entrar no quarto.

No início, os médicos traçaram-lhe um futuro negro. Que prognósticos é que foram feitos?

Na altura, diziam que muito dificilmente eu me ia sentar, quanto mais andar. Em todo o lado, os médicos diziam que era um grau de próteses muito grande, que era praticamente impossível, por ser um peso enorme, mas o doutor Gustavo insistiu e acabaram por me colocar as primeiras próteses aos 4 anos, foi quando dei o meu primeiro passo e caí logo a seguir.

Como é que foi a adaptação às próteses?

Foi bastante difícil. As próteses que tenho agora pesam 18 quilos, mas já andei com umas que pesavam mais de 20 e por isso, ainda hoje tenho as virilhas negras da pressão que as próteses me provocavam mas sempre pensei que esse sofrimento, mais tarde iria valer a pena porque me ia dar uma liberdade maior e uma postura diferente. Hoje, quando mudo, a sensação é a mesma de quando se calça uns sapatos novos: Demora um bocadinho a adaptação, mas depois é fácil.

Em que momento é que percebeu que era diferente?

Eu percebi que era diferente desde cedo, porque a minha família sempre me incutiu que ser diferente não é ser inferior, e eu era diferente. Eles levavam-me para a praia todo nu, precisamente para as pessoas me verem tal e qual como eu era. Era uma exposição total.

Como é que as pessoas reagiam a isso?

Guardo histórias hilariantes porque as pessoas pensavam que além de eu não ter mãos, nem pernas, tinha as desgraças todas, como se não falasse, nem ouvissec mas há uma frase que me marca até hoje. As pessoas diziam em alto e bom som: «Coitadinho, mais valia não ter nascido». E dói muito ouvir isso. No entanto, decidi agarrar nessa frase, que me podia mandar abaixo, e fiz com que me fortalecesse. E digo para mim mesmo: «Ainda vos vou mostrar se valia a pena não ter nascido».

Os amigos e família tiveram um papel importante no seu percurso?

Sem dúvida. Eu tenho uma prateleira de heróis onde os coloco todos os dias ao longo da minha vida e os meus amigos da Redinha, que é a minha redoma de vidro, são os meus maiores heróis de integração. Eles conheciam-me como ninguém, tiravam-me as próteses e levavam-me às costas para todo o lado. Eles foram uma parte muito importante da minha evolução. Tive a sorte de ter pessoas especiais ao longo da minha vida, que percebem que a essência do teu valor e da tua alma está no teu olhar. Ainda existem tabus mas, às vezes, eles vêm da própria pessoa que tem a deficiência. A minha família também teve um papel crucial porque se eles tivessem desistido de mim, talvez não estivesse aqui hoje.

Numa entrevista disse que apesar de ter seguido a área do jornalismo, no seu íntimo sabia que o seu percurso passaria pelo teatro. Quando é que nasceu essa vontade pela vida artística?

O teatro começou muito cedo, apaixonei-me pelo mundo da representação com 6 anos. Quando pisei pela primeira vez o palco, foi um fiasco tão grande que eu podia ter desistido logo. Foi na altura do Natal, e eu nessa época ainda não usava próteses regularmente e então, a professora decidiu vestir-me umas fraldas e meteu-me nas palhas deitado para fazer de Menino Jesus. Não há coisa pior para um ator do que estar uma hora numa peça de teatro sem falas.

Do teatro passou para a televisão. Como é que aconteceu essa transição?

Quando desisti do curso de jornalismo da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra foi com o objetivo de ir estudar para Lisboa. Acabei por tirar o curso de Representação, Televisão e Cinema, na Universidade Lusíada, do qual o Tozé Martinho era diretor. Depois, fui a um programa de televisão na TVI e ele fez-me o convite para integrar o curso dele, mas eu tinha muito medo, porque quer queiramos, quer não, o mundo da representação ainda é um mundo muito preconceituoso, onde muitas vezes prevalece o aspeto exterior e o talento é posto de lado.
Acabei por ter a sorte de ser o primeiro aluno da minha turma a fazer uma novela. Recebi um convite do Nuno Santos e do Daniel Oliveira para fazer um casting para a novela Podia Acabar o Mundo, da SIC, que acabei por integrar.

Como surgiu a ideia de começar a fazer ações de coaching e palestras motivacionais?

Às vezes, não és tu que escolhes o sonho, é o sonho que te escolhe a ti, e as palestras escolheram-me. Quando em 2008 lancei um livro, ia muitas vezes às escolas falar sobre ele mas comecei a perceber que o livro não só era a minha história, como estava a fazer a diferença na vida das pessoas. Foi quando passei a levar isto de uma forma mais séria. No ano passado falei para 37 mil pessoas e hoje tenho palestras a nível empresarial, escolar, social e não me vejo a fazer nada que não seja isto. Eu chamo-lhe as mesas da superação porque faço as palestras em cima de uma mesa, sentado, e com as próteses ao lado. Preenche-me tanto, perceber que posso fazer a diferença nem que seja em metade de uma das pessoas, e isso é muito gratificante e motivador. Se me lançassem um convite para fazer uma novela e eu tivesse que deixar as palestras, provavelmente ia dizer que não.

Sente que faz a diferença na vida das pessoas?

Sim, sem dúvida. Há uma história que nunca irei esquecer. Uma vez, estava no aeroporto com o meu agente e recebi uma mensagem no Facebook, daquelas que vai para spam porque era de alguém que não conhecia e foi quando abri a mensagem que percebi que queria fazer isto para o resto da minha vida. A mensagem era de um rapaz com 28 anos que disse: «Olha Paulo, eu saí de minha casa decidido a mandar-me para a frente de um comboio e sentei-me à espera que ele viesse». Nesse instante, abri o Facebook para deixar um post de despedida, e de repente, aparece-me um vídeo teu e comecei a ver. Abri a tua página, vi o segundo, o terceiro e o comboio passou». E ele disse-me: «Tu não imaginas o quão importante foste naquele momento». Nesse instante, sente-se medo e uma responsabilidade muito grande porque sentes que isto tomou uma dimensão de tal forma que fez a diferença na vida daquela pessoa. É por histórias como esta que não posso deixar de fazer isto.