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	<title>Entrevista | Jornal O Portomosense</title>
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	<description>Atualidade, Economia, Cultura, Desporto, Saúde, Sociedade, Educação, Artigos de Opinião. O jornal de Porto de Mós. Desde 1983.</description>
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	<title>Entrevista | Jornal O Portomosense</title>
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		<title>Susana Pereira: “Quando se sabe que há violência, já não se deixa a vida dos outros só nas mãos deles”</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jéssica Moás de Sá]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 13 Mar 2025 08:30:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Dia Internacional da Mulher]]></category>
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					<description><![CDATA[No passado dia 8 de março assinalou-se o Dia Internacional da Mulher. Foi nesse âmbito que O Portomosense realizou uma entrevista à presidente da associação Mulher Século XXI, Susana Pereira. As mulheres continuam a ser o principal foco da associação, uma vez que continuam a ser as principais vítimas de violência doméstica e de desigualdades [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>No passado dia 8 de março assinalou-se o Dia Internacional da Mulher. Foi nesse âmbito que O Portomosense realizou uma entrevista à presidente da associação Mulher Século XXI, Susana Pereira. As mulheres continuam a ser o principal foco da associação, uma vez que continuam a ser as principais vítimas de violência doméstica e de desigualdades de oportunidades, no entanto, esta associação desempenha também uma importante missão junto de crianças, jovens, adultos e idosos, independentemente do sexo. A Mulher Século XXI tem sede em Leiria, mas é de âmbito nacional, ajudando pessoas de «norte a sul e ilhas».</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Que associação é a vossa e com que missão surgiram?</strong></p>
<p>A Mulher Século XXI é uma associação que nasceu para colmatar uma falta que se sentia que existia a nível de uma entidade que trabalhasse com as mulheres e que ajudasse a empoderá-las. Que as ajudasse a conseguir atingir cada vez mais a igualdade de género e de possibilidades para aceder tanto ao trabalho como a todas as outras coisas na vida pública e, por outro lado, também, que protegesse as mulheres que são vítimas de violência doméstica. Não havia aqui na região de Leiria, nenhuma associação que desse estas respostas. A Mulher Século XXI surgiu em 2001. Foi fundada por um grupo de pessoas que achava que iria ser uma mais-valia para todas estas mulheres. Falávamos de mulheres e continuamos a falar porque são o maior número de vítimas e é onde se nota a maior desigualdade, por exemplo na conciliação entre a sua vida profissional, pessoal e familiar, mas esta é a nossa única resposta que tem exclusivamente mulheres. Nas outras todas temos homens e mulheres, desde crianças a jovens, adultos e idosos. Temos vindo a abrir algumas respostas. Começámos por ter um Centro de Atendimento às Vítimas, depois ganhámos, através de um concurso do BPI, uma linha de apoio à vítima de violência doméstica idosa, que é uma linha nacional e gratuita que ainda mantemos, que é o 800 210 340. Depois fomos evoluindo, fomos tentando chegar a mais necessidades e ter outras respostas. Em 2017 abrimos a nossa casa de acolhimento de emergência para mulheres vítimas de violência doméstica, esta é a tal resposta onde só acolhemos mulheres e os seus dependentes até os 18 anos.</p>
<p><strong>De que forma as vítimas vos podem contactar?</strong></p>
<p>Todas as pessoas que necessitem de algum tipo de apoio que sejam vítimas de algum tipo de violação dos seus direitos humanos, podem chegar até nós através dos contactos telefónicos (244 821 728/ 964 854 462/ 910 908 368), através do nosso site (mulherseculoxxi.com), redes sociais, estamos em várias frentes. Por outro lado, estamos na nossa sede em Leiria (no Largo Rainha Santa Isabel) bastante centrais.</p>
<p><strong>Consideram-se uma associação de Leiria a trabalhar para Leiria ou uma associação de Leiria a trabalhar para todo o país?</strong></p>
<p>Uma associação de Leiria a trabalhar para todo o país. Somos uma organização não-governamental sem fins lucrativos com âmbito nacional. Hoje estamos só em Leiria, mas já estivemos em Coimbra, e podemos a qualquer momento estar em mais sítios, não a nível de sede, mas de locais onde podemos trabalhar. Nós recebemos mulheres do ponto mais a norte ao ponto mais a sul do país, e das ilhas.</p>
<p><strong>O que já mudou na forma como a sociedade encara a violência?</strong></p>
<p>Notamos que, apesar de haver muito caminho a fazer, já não se deixa a vida dos outros, quando se nota que há violência, só nas mãos deles. Já há uma corresponsabilidade cívica, com pessoas a pedirem ajuda para vizinhos, para alguém que vejam na rua a ser violentado, a chamar a polícia. Antigamente notávamos que se estava a acontecer alguma coisa ali, tentávamos passar para o outro lado do passeio. Agora as pessoas estão um bocadinho mais consciencializadas de que a violência doméstica é um crime público e quem as pode ajudar, em primeiro lugar, é quem assiste, são os vizinhos.</p>
<p><strong>Às vezes até mais do que familiares…</strong></p>
<p>Às vezes até mais do que familiares. A queixa neste momento não tem que ter nome. Qualquer pessoa pode apresentar uma queixa de uma situação a que assiste ou que ouve ou que se torna repetitiva e que lhe parece ser um problema de violência doméstica, de violência entre o casal, ou até num namoro. O facto de ter passado de crime semi-público para crime público e de haver cada vez mais notícias sobre o tema ajudou. Temos trilhado um caminho, temos tido resultados. Agora, o caminho está muito longe, ainda é muito para percorrer e podemos ver isso nas quatro mulheres que foram assassinadas em janeiro.</p>
<p><strong>Falou do namoro, acredita que um jovem, sobretudo uma rapariga, tem hoje mais acesso a informação para detetar melhor sinais de abuso numa relação desde cedo?</strong></p>
<p>Quanto mais informação os jovens, neste caso as raparigas, tiverem, mais elas se podem proteger. Agora, há aqui um problema muito grave que continua a acontecer: é tudo encarado como normal. Há uma ideia de que para se gostar tem que se ter ciúmes, tem que se controlar e que tudo é justificado porque se gosta e alertar que isso não é assim é um dos trabalhos que fazemos diariamente, vamos às escolas fazer ações de sensibilização, fazemos também junto dos pais para se aperceberem se os filhos terão ou não uma relação abusiva. Até porque começa em casa o que é normal e o que não é. É importante ter conversas e explicar que há coisas que não são normais, que não se fazem num relacionamento quando tiverem um namoro, há coisas que não se devem admitir. Hoje em dia a possibilidade de controlo é muito grande. Podem controlar o Facebook, o Instagram, basta que tirem o telemóvel e peçam o código. E depois o que está na internet, fica na internet e isso leva-me a avançar para o outro lado: as imagens íntimas que se passam entre namorados.</p>
<p>E que são usadas também como manipulação&#8230;<br />
E que vão parar à internet muitas vezes. São usadas como uma forma de manipulação e como uma forma de agarrar a pessoa e de a prender ali, é mais do que manipulação. Por isso falamos tanto da ciberviolência porque cada dia é mais fácil ser violento. E com jovens muito mais ainda porque têm mais apetência para as redes sociais. Por isso, temos que ser capazes, tanto a nível de associações, como de família, de escola, de manter alerta os nossos jovens para o que é normal.</p>
<p><strong>A dependência financeira da mulher face ao homem é o que, ainda hoje, mais dificulta que as mulheres saiam de situações de perigo?</strong></p>
<p>Há vários motivos. Um é o facto de terem que tirar os filhos das escolas, afastá-los da família por questões de risco. Essa é uma situação que pesa muito na vida das vítimas de violência doméstica. A dependência financeira é também uma questão muito importante porque faz toda a diferença para um casal com filhos serem os dois a pagar as despesas ou ser só um salário. Sendo que tem uma agravante ainda que temos que ter em conta, é que normalmente quando estas mulheres têm que fugir, elas não ficam na área de residência porque essa é uma área de risco. Isto significa que vão ficar privadas de trabalhar durante algum tempo, com o subsídio de desemprego apropriado para vítimas de violência doméstica, a Segurança Social também tem feito o seu papel, mas que não é igual a um salário.</p>
<p><strong>As vítimas é que têm de sair e deixar tudo para trás&#8230;</strong></p>
<p>Porque estão a fugir e isso é algo que continua a ser muito discutido a nível da Justiça, a própria lei tem tido algumas alterações muito importantes, mas ainda não conseguimos chegar a esta, em que a pessoa agressora, ou potencialmente agressora, é que devia abandonar a casa e deixar a que é potencialmente vítima. Claro que o que acontece é que quem fica em risco é quem é agredido e nós a primeira coisa que fazemos é tirá-la de casa.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p>Quando falamos da casa, a casa é porto seguro, é assim que idealizamos, mas para as vítimas de violência doméstica é uma prisão</p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Daquela que devia ser a sua zona de conforto.</strong><br />
Certo. Falámos muito disto, na pandemia, a suposta zona de segurança que eram as nossas casas, de repente, para as vítimas de violência doméstica, passou a ser uma prisão.</p>
<p><strong>Nessa altura tiveram um trabalho acrescido?</strong><br />
Foi muito complicado. Durante algum tempo houve um silêncio assustador por parte das vítimas e isso deveu-se ao facto delas terem ficado presas em casa com a pessoa agressora e com os filhos a assistirem a tudo, por isso, houve a impossibilidade dessa pessoa pedir ajuda. Aliás, houve até a necessidade dessa pessoa tentar, ao máximo, não reagir a nada para não prejudicar as crianças que estavam ali a assistir. Por isso, quando falamos da casa, a casa é o porto seguro, é assim que o vemos, é assim que o idealizamos, mas para as vítimas de violência doméstica muitas vezes é a prisão. Claro que elas devem ter direito a ficar lá, mas a pessoa que agride tem que sair. E, voltando atrás, realmente a dependência financeira dificulta isso. Hoje em dia o alojamento está extremamente caro, não se consegue alugar um quarto, se tem um filho para acompanhar ou dois, não se consegue alugar T1. As vítimas não têm capacidade depois sozinhas com os seus rendimentos de suportar todas estas despesas que vão surgir.</p>
<p><strong>O que é que os vossos dados estatísticos vos tem revelado?</strong><br />
Os números têm revelado que, apesar de nos esforçarmos todos muito e de haver muitas campanhas institucionais, até do Estado, e dos jornais estarem connosco, que as coisas não têm melhorado por aí além. Se olharmos para 2024, vemos que em relação a 2023, no Centro de Atendimento às Vítimas de Violência Doméstica do Distrito de Leiria, atendemos cerca de mais 40 ou 50 pessoas. Em 2024 tivemos 1 450 atendimentos aqui na nossa estrutura de atendimento. Dentro desses 1 450, 180 casos foram novos caso, por isso, em 2024 tivemos 180 pessoas novas que vieram pedir ajuda por serem vítimas de violência doméstica. Continua a ser muito. No ano anterior, tínhamos tido mais cinco casos novos. Houve uma diminuição, mas deveria ter sido maior. Destes 180, 163 foram mulheres, mas já tivemos 17 homens.</p>
<p><strong>E a nível das faixas etárias?</strong><br />
Posso dizer que entre os 35 e os 44 anos, no que diz respeito às mulheres, recebemos 44 casos novos, depois entre os 25 e os 34 logo a seguir com 32 casos novos, e depois entre os 45 e os 54, tivemos 30 casos novos. Quem nos procura mais é quem está entre os 35 e os 44, isso no que diz respeito às mulheres.</p>
<p><strong>E faz alguma leitura dessas idades?</strong><br />
As conclusões que retiramos é que são mulheres ou em segundos relacionamentos, ou que aguentaram muito e já não conseguem, que esperaram ter o seu trabalho, ter mais condições para poder pedir ajuda, com a sua vida minimamente estável. No que diz respeito a homens, quem nos procura são essencialmente homens mais velhos, maiores de 65 anos normalmente vítimas de filhos com doença mental.</p>
<p>F<strong>amílias, já por si, com pouco apoio e desestruturadas&#8230;</strong><br />
Exatamente. Na maior parte dos casos, estes filhos estão medicados durante um tempo com medicação hospitalar, mas depois passam a ter a medicação em casa e há alturas em que não se medicam porque a doença tem altos e baixos.</p>
<p><strong>Quais os projetos futuros da associação?</strong><br />
Vamos ver o que vai acontecer a nível governativo porque nós somos completamente dependentes de fundos comunitários e de alguns apoios do Estado muito curtos. Estamos realmente preocupados porque os nossos projetos vão acabar agora em junho. Supostamente vamos dar continuidade ao que temos. Entretanto abrimos o Gabinete de Apoio às Vítimas de Violência de Género no DIAP de Leiria e isso vai ter continuidade porque é de um protocolo entre o Ministério da Justiça, a Procuradoria-Geral da República e a Mulher Século XXI. Todos os outros achamos que vão ter continuidade porque são precisos, mas temos que ter realmente o financiamento dos projetos europeus. Contamos que tudo vai correr bem e, se correr bem, vamos manter todas as nossas respostas e tentar ainda criar uma rede que junte, à qual nos candidatámos, a Saúde com a Justiça, com os orgãos de polícia criminal, com as outras estruturas de atendimento.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>PERFIL</strong></p>
<p>Susana Pereira é licenciada em Tradução, Pós-Graduada em Mediação Intercultural e Intervenção Social. É ainda formadora e especialista em Igualdade de Género e Técnica de Apoio à Vítima. Assume, atualmente, funções enquanto presidente da direção e coordenadora da Mulher Século XXI, nomeadamente do Centro de Atendimento às Vítimas de Violência Doméstica com resposta de apoio psicológico para Crianças e Jovens, Linha de Apoio à Vítima Idosa de Violência Doméstica, Estrutura de Acolhimento de Leiria e Gabinete de Apoio à Vítima de Violência de Género. É, ainda, entre outros cargos, Conselheira Local Externa para a Igualdade da Câmara Municipal de Leiria e integra a Equipa para a Igualdade na Vida Local da Câmara da Nazaré.</p>
<p><strong>Foto | DR</strong></p>
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		<title>Vidas em suspenso</title>
		<link>https://oportomosense.com/vidas-em-suspenso/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Jéssica Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 30 Oct 2020 08:00:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
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				<div class="et_pb_text_inner">Para muitos, o ano vinte-vinte seria o ano das grandes conquistas. As expectativas eram altas, mas um vírus vindo do outro lado do globo havia de transtornar por completo as rotinas e as nossas vidas acabaram por ficar em suspenso e assim têm estado, há demasiado tempo. Neste período, vimos uma grande parte dos nossos sonhos serem destronados pelo chamado “inimigo invisível”. Muitos são os aniversários que têm ficado por festejar, assistimos ao cancelamento de inúmeros eventos e celebrámos a Páscoa de uma forma que nunca pensámos ser possível. E a tradição portuguesa do “Dia do Bolinho” ou do “Pão por Deus”, que se cumpre no dia 1 de novembro, Dia de Todos os Santos, é só mais uma para se juntar ao rol de momentos que este ano não vão acontecer da forma como sempre os conhecemos. Apesar da tradição já não ser o que era e da tendência mostrar que tenderá a desaparecer, a verdade é que ainda existe quem a queira cumprir. </p>
<p>Ano após ano, na manhã do Dia de Todos os Santos, centenas de crianças, movidas por uma grande dose de entusiasmo, saem de casa de saco de pano na mão, para ir bater às portas da vizinhança, com o objetivo de pedir o “Pão por Deus”: “Ó tia, dá bolinho?”, “Bolinhos em louvor de todos os santinhos”. Não fosse a pandemia e por esta altura, já estariam com borboletas na barriga despoletadas pela curiosidade de saber quais as oferendas que poderiam estar do lado de lá da porta. Apesar da tradição já estar enraizada na memória de muitas crianças, para outras este seria o primeiro ano em que teriam essa oportunidade. No entanto, este ano, face à atual situação epidemiológica e tendo em conta as características do “Dia do Bolinho”, não irá acontecer nos moldes de sempre. Por isso, o Município de Porto de Mós, aconselhou «a não concentração de pessoas na via pública» nesse dia de forma a evitar um aumento da disseminação da COVID-19. Apesar de não existir proibição, o tempo é de contenção e a probabilidade é de que os pais de muitas crianças optem por decidir mantê-las em casa. </p>
<p>Além do vírus já ter ceifado milhares de vidas, parece que teima também em acabar com as tradições, no entanto, a minha esperança é de que o “inimigo invisível” não leve a sua avante e que para o ano, os sacos das milhares de crianças que em 2020, por culpa das circunstâncias, ficaram em casa, se encham de guloseimas. E que a 1 de novembro de 2021, os familiares dessas crianças se sentem à sua beira para contar o número de doces arrecadados e, quase como que numa nostalgia, recordem “o ano mau” que finalmente se extinguiu. Seria um bom sinal.  </div>
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		<title>Em Entrevista&#8230; Luciano Gonçalves</title>
		<link>https://oportomosense.com/em-entrevista-luciano-goncalves/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Isidro Bento]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 Aug 2020 14:00:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Desporto]]></category>
		<category><![CDATA[Em entrevista...]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Futebol]]></category>
		<category><![CDATA[Luciano Gonçalves]]></category>
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				<div class="et_pb_text_inner"><p><em><strong>Escassas semanas depois de reeleito presidente da Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol (APAF), Luciano Gonçalves, em entrevista a O Portomosense, lança um breve olhar ao primeiro mandato, perspetiva o segundo e fala de temas que lhe são caros como a erradicação da violência no futebol, a abertura da arbitragem à sociedade e os desafios que se levantam aos árbitros em tempos de forte exposição mediática.</strong></em><br /><em> <strong>O antigo presidente do Núcleo de Árbitros de Futebol de Porto de Mós, natural de Alcanadas (Batalha), mostra-se orgulhoso do seu percurso pessoal e desportivo e frisa que o futebol amador foi uma grande escola para agora enfrentar os desafios com que se depara na APAF.</strong></em></p>
<p><strong>Foi eleito para um segundo mandato à frente da APAF, naquela que foi a votação mais concorrida em 41 anos. Pode depreender-se que os árbitros portugueses, além de satisfeitos, depositam em si muitas expectativas?</strong><br />Efetivamente, conseguimos ter um número de votantes recorde e o mérito é do trabalho realizado por uma equipa fantástica e não, apenas, pelo Luciano Gonçalves. Havendo só uma lista e com a pandemia à porta, os nossos árbitros facilmente arranjavam desculpa para não ir votar mas, pelo contrário, fizeram-no em massa e nós interpretamos isto como uma forma de nos darem mais responsabilidades, dizerem que estão connosco, mas, acima de tudo, que temos de fazer muito mais que aquilo que fizemos, e nós acreditamos que, de facto, é possível fazer mais. Esta eleição traz-nos muito mais responsabilidades.</p>
<p><strong>O que destaca mais deste primeiro mandato?</strong><br />A aproximação da associação às bases. Existia algum distanciamento junto dos árbitros das bases e o nosso trabalho mais visível foi esse: a associação não ser só dos árbitros de primeira categoria, mas também dos 4 200 árbitros que estão nos distritais e que são 98% dos árbitros em Portugal.</p>
<p><strong>Quais são os seus principais objetivos para este segundo mandato?</strong><br />Um é sermos reconhecidos como uma profissão. Não somos uma classe reconhecida e isso traz-nos imensos problemas tanto no recrutamento como na retenção de árbitros. Outro é dar continuidade ao projeto da Academia APAF, onde pretendemos ministrar formação em áreas que nada têm a ver com a arbitragem. Entendemos que um árbitro para conseguir chegar ao topo tem de estar bem preparado noutras áreas como, por exemplo, na gestão financeira, no inglês ou nas relações interpessoais.</p>
<p><strong>Deduzo das suas palavras que, de uma forma ou de outra, a profissionalização é, então, para avançar...</strong><br />Sim, devemos caminhar para a profissionalização, mas dividir a profissão de duas formas, o árbitro benévolo e o profissional. O benévolo que é aquele que anda nos distritais e que arbitra principalmente jogos das camadas jovens, recebendo cinco ou seis euros por jogo, em forma de compensação das despesas. Embora o árbitro dos distritais (tal como jogadores e treinadores) quase tenha de pagar para trabalhar, essa compensação deve ser devidamente declarada, e ninguém quer fugir a isso, mas falta criar o respetivo enquadramento jurídico.<br />Por sua vez, em Portugal não há arbitragem profissional na plenitude da palavra, temos semi-profissionais. Ora, se todos os outros agentes do futebol são profissionais, os árbitros também têm de ser. Um árbitro tem de se focar na sua atividade e não estar preocupado em ter que pedir ao patrão para ir arbitrar um jogo à segunda ou à quarta-feira. Temos de ver o futebol profissional como um todo.</p>
<p><strong>Costuma dizer que quer gerir a APAF de dentro para fora e não o contrário. Tem-no conseguido?</strong><br />Sim, sem dúvida. Esse tem sido o caminho e será sempre assim enquanto eu for presidente, é um dos princípios de que não irei de forma alguma abdicar. Quem gere a APAF são os seus dirigentes, através daquilo que são as indicações dos seus sócios, e não serão quaisquer outros intervenientes que irão mandar na associação de classe. Isso faz com que possamos ter um caminho mais duro, com mais pedras, mas é aquele que queremos. Seja bom ou mau, a responsabilidade é nossa.</p>
<p><strong>Já foi jogador, treinador, dirigente desportivo e árbitro. Isso dá-lhe outro traquejo e outra sensibilidade nas funções que desempenha?</strong><br />Sim, absolutamente. Orgulho-me muito desse percurso que fiz, desde ter começado muito cedo a jogar à bola no Alqueidão da Serra, a ser dirigente das Alcanadas, depois do Ferraria. Tudo aquilo que aprendi ao longo desse percurso estou a utilizá-lo no meu dia-a-dia enquanto dirigente da APAF. Qualquer dirigente que esteja num cargo desta dimensão devia obrigatoriamente passar pelas bases, como foi o caso do Núcleo de Árbitros de Porto de Mós, onde também aprendi muito, porque é aqui nas bases que tudo começa e nós, percebendo a dificuldade que é trabalhar para a comunidade pro bono, sabemos dar o valor e temos outra sensibilidade quando vamos para um cargo destes.</p>
<p><strong>Além do orgulho no percurso feito, também nunca renega as suas origens...</strong><br />Absolutamente. Sempre que falo nisso arrepio-me de alegria e satisfação. Tenho orgulho e digo sem qualquer problema que tive de ir trabalhar aos 14 anos e que terminei o 12.º à noite, ao mesmo tempo que trabalhava. É um orgulho para mim, dá-me satisfação, não tenho qualquer problema em dizer que trabalhei duas décadas nas obras públicas. Se foi de lá que consegui chegar onde cheguei, não tenho de estar a esconder isso, tenho é de ter orgulho. Além disso, devemos respeitar as nossas raízes para que possamos estar tranquilos connosco próprios. Se estivermos satisfeitos com aquilo que foi o nosso passado, independentemente de termos cometido erros ou não, isso dá-nos satisfação e liberta-nos e faz com que possamos estar sempre descomprometidos nos cargos, e isso dá-me uma tremenda satisfação.</p>
<p><strong>Está bastante empenhado nas atuais funções mas afirma que, se for caso disso, não tem problemas em regressar à sua vida anterior. É uma pessoa desapegada do poder?</strong><br />Sem dúvida, e isso dá-me à-vontade, uma forma de estar completamente descomprometida. É assim que o entendo e foi assim que abracei o projeto em 2016, com espírito de missão. Passado algum tempo tornei-me presidente a tempo inteiro mas só depois de assegurar que o facto de me tornar dirigente profissional não iria condicionar a minha liberdade de ação e de pensamento e foi isso que aconteceu. Por outro lado, quando entender que não sou uma mais-valia para a arbitragem e para o futebol, volto à minha vida normal e ao associativismo. Desse nunca me desligarei.</p>
<p><strong>Uma das causas que abraçou enquanto presidente da APAF foi a erradicação da violência no desporto. Sente alguma evolução ou ainda há muito caminho a percorrer?</strong><br />Há ainda um caminho muito longo para percorrer, mas temos de reconhecer que existem melhorias. Na última época, houve um decréscimo significativo de casos de violência e isso deve encher-nos de orgulho. No entanto, eu tenho o compromisso com os meus 4 500 árbitros de que enquanto existir um árbitro agredido de forma cobarde, podem contar comigo para o defender, tal como condeno da mesma forma e levanto processos a quem não se dá ao respeito ao nível comportamental, e a prova disso são os mais de 10 processos nos últimos quatro anos. Ora, se exijo aos meus árbitros um comportamento correto, faço o mesmo aos outros intervenientes. A violência tem de ser eliminada do futebol.</p>
<p><strong>Todo o futebol está unido nessa luta ou há algum grupo menos empenhado?</strong><br />O futebol amador não pode pagar pelos maus comportamentos e maus exemplos que existem no futebol profissional e é isso que tem acontecido. Não podemos esperar que no distrital existam comportamentos tranquilos e responsáveis quando na noite anterior assistimos a programas televisivos com pseudo-comentadores que fazem tudo menos comentar o futebol. Eu não quero nem espero que a arbitragem fique imune à crítica. Uma coisa é criticar o desempenho de um árbitro, e toda a gente tem direito à sua opinião, outra é ter 35 horas de programas televisivos com pseudo-comentadores a especular sobre a seriedade dos árbitros, mas também dos jogadores, treinadores e até dos próprios clubes. É inadmissível que a Entidade Reguladora da Comunicação Social não intervenha em certos programas que fomentam o ódio. Portanto, o grupo dos pseudo-comentadores é aquele que não nos está a deixar caminhar no sentido certo. Não são eles que diretamente estão a agredir os árbitros, mas são claramente quem está a incentivar que existam problemas nos distritais, porque para milhares de pessoas tudo aquilo que dizem é verdade e no dia a seguir quem vai sofrer é o árbitro, que é o elemento mais desprotegido no futebol. Se não se acredita no futebol profissional, não se acredita no amador, e é de facto aqui que está o nosso "calcanhar de Aquiles".</p>
<p><strong>Quer abrir a arbitragem e aproximá-la das pessoas. Como é que isso pode ser feito?</strong><br />Um árbitro é uma pessoa como todas as outras, mas nem sempre é visto assim, e nós na arbitragem também temos culpa disso. Andámos demasiados anos, excessivamente corporativistas, sempre a olhar para nós e não pode ser assim, temos de nos aproximar da sociedade e dar a conhecer aquilo que somos enquanto pessoas e o que fazemos como árbitros. Muitos desconhecem, por exemplo, as várias iniciativas de solidariedade social em que nos envolvemos ou a forma como treinamos e tudo isso é importante. Abrir a arbitragem à sociedade é claramente um dos meus objetivos, se o conseguir, já me poderei dar por satisfeito pelo contributo prestado ao futebol.</p>
<p><strong>Partindo de um meio pequeno e de um núcleo de árbitros também não muito grande, foi difícil chegar à presidência da APAF?</strong><br />Seria hipócrita dizer que foi fácil. Não, foi um trabalho difícil, mas sempre com grandes pessoas ao lado e que me acompanharam imenso, desde o meu primeiro chefe de equipa e a pessoa que puxou para a arbitragem, Domingos Lavinha e Rodolfo Deillot, passando por outras referências de Porto de Mós, como o Carlos Amado e o Célio Ferreira, que me fizeram acreditar desde a primeira hora que era possível.<br />Eu acredito sempre muito na competência e no trabalho e a vida foi-me ensinando que juntando ambos é possível fazer acontecer. Por motivos de saúde, deixei de ser árbitro, mas continuei muito dedicado à arbitragem e penso que a minha dedicação ao Núcleo de Árbitros de Porto de Mós foi um grande passo para, em 2011, integrar a lista de Gustavo Sousa à APAF, e mais tarde a equipa de José Fontelas Gomes. Depois de lá estar, foi trabalhar da mesma forma, fazer aquilo que eu gosto de fazer, com muito trabalho, dedicação e humildade, sem “embandeirar em arco”, e as coisas foram acontecendo. Não escondo que sempre ambicionei chegar à presidência, mas nunca pensei que fosse tão cedo.</p>
<p><strong>Um dos desafios mais recentes dos árbitros portugueses é o vídeo-árbitro. Como é que está a ser essa experiência?</strong><br />Quando a Federação Portuguesa de Futebol teve a feliz ideia, e reafirmo, feliz ideia, de querer avançar com o vídeo-árbitro, eu disse publicamente que este sistema não vinha resolver os problemas do futebol e que tinha algumas dúvidas que nos primeiros anos fosse bem aceite. Porquê? Porque conheço a nossa realidade, a forma como vivemos o futebol e era previsível que aquilo que podia ser uma ferramenta de mais-valia se virasse novamente contra a arbitragem e, efetivamente, foi. Para termos uma noção, e basta fazermos este exercício, hoje em dia, fala-se tanto no vídeo-árbitro como se fala no árbitro que está em campo. Isto para dizer que, se até aqui tínhamos apenas o árbitro, agora duplicámos o número de pessoas que acabam por estar expostas. No entanto, eu acho que isto vai passar, que é uma questão de tempo e que, pouco a pouco, o vídeo-árbitro vai ser uma coisa normal. Tem sido assim ao longo do tempo na história do futebol, tudo aquilo que se foi acrescentando ao futebol, como o fora de jogo, e outras situações, com o passar do tempo, acaba por se diluir. Agora é óbvio que é difícil lidar com alguma crítica destrutiva.</p>
<p><strong>Há três portomosenses nos órgãos da Federação Portuguesa de Futebol e temo-lo a si na APAF. É a justa recompensa pelo trabalho realizado?</strong><br />Sem dúvida. Pela forma como se trabalhou e se trabalha, teria de haver frutos. O trabalho que o Júlio Vieira fez ao longo de anos na Associação de Futebol de Leiria, independentemente de concordarmos ou não, foi de excelência, e naturalmente fazia todo o sentido aproveitarmos aquele know-how dos dirigentes que temos e que verdadeiramente conhecem o futebol de base. O Carlos Amado, também pelos anos que esteve na arbitragem... Há, portanto, uma série de dirigentes que sempre trabalharam de forma desinteressada em prol do futebol e, por isso, é natural que quem o faz veja o seu trabalho reconhecido e lhe sejam dadas oportunidades. Por isso é que o Vítor Carvalho, do Alqueidão da Serra, é dos homens com mais anos na Federação Portuguesa de Futebol, que o Júlio Vieira volta para um segundo mandato, o Carlos Amado continua no Conselho de Arbitragem e eu renovo a eleição na APAF. Não são situações esporádicas, mas fruto de um trabalho consistente e sério.</p></div>
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