Os jogadores que na época passada alinharam pela equipa sénior da Associação Desportiva Portomosense (ADP) têm pagamentos em atraso que começam agora a ser liquidados pela direção do clube. A juntar a isto, sabe-se que alguns jogadores, nomeadamente estrangeiros, tinham como parte da sua remuneração a estadia e a alimentação, correndo pelas ruas de Porto de Mós a suspeita de que as condições em que viviam não eram as mais dignas. A equipa sénior, não sendo uma secção totalmente autónoma, tinha uma gestão própria e responsáveis pela mesma. O Portomosense quis procurar esclarecer algumas destas questões e deu voz às várias partes envolvidas.

Miguel Alexandre é vice-presidente do clube e o «responsável pelo departamento de futebol sénior desde há uns anos a esta parte», como nos disse o próprio, que frisou que a equipa «é da ADP», porém «pode e deve ter um orçamento e uma gestão paralela, pois só assim poderá ser sustentável sem que prejudique outras modalidades ou departamentos». O responsável recorda que quando chegou à ADP, «em 2014», encontrou «um clube que ia deixar de ter equipa sénior e que poucos queriam representar». Relativamente à época passada, afirma que o que causou o atraso no pagamento aos jogadores foi «um patrocinador que falhou», porém ressalva que é «uma questão praticamente resolvida, tanto é que a espinha dorsal da equipa da época transata já assinou para a próxima época». Miguel Alexandre assume que, enquanto vice-presidente do clube e principal responsável pela equipa sénior, foi «também o principal responsável pelo sucedido». O Portomosense quis saber quais as condições em que os jogadores eram contratados, nomeadamente a remuneração, o alojamento e as refeições, porém o dirigente limitou-se a responder que as escolhas eram da sua responsabilidade, «tendo em conta a opinião da equipa técnica». Miguel Alexandre, que respondeu às nossas questões por e-mail, rematou dizendo que, «em 14 perguntas», apenas esclareceu «questões de natureza polémica, que em parte até estão resolvidas». «Lembro que o clube precisa de pessoas, de adeptos, de sócios e de atletas jovens. Estas questões só afastam as pessoas», concluiu.

Não era uma secção “completamente autónoma”

Nuno Moreira da Silva é presidente da ADP desde o ano passado, anteriormente tinha já pertencido à comissão administrativa que geriu o clube durante alguns meses e sido vice-presidente de Filipe Miguel durante dois anos, um mandato, estando há vários anos ligado à estrutura do clube. A O Portomosense explicou que o futebol sénior não era uma secção «completamente autónoma», porém confessa não saber bem como a definir. «Antes da direção liderada pelo Filipe Miguel ter sido eleita e ter assumido os destinos do clube, a equipa sénior funcionava como secção completamente autónoma, tendo o Miguel Alexandre como responsável. Depois, no primeiro ano voltou ao seio do clube e, no ano seguinte, voltou a haver essa proposta, que teve a intervenção clara do técnico principal [no caso, Pedro Solá]» e que se manteve até à época passada, recorda. Nuno Moreira da Silva explica também que «a contratação, gestão e pagamentos dos jogadores não seria da responsabilidade direta do clube», sendo que a direção «não era auscultada sequer sobre o total do orçamento, sobre se iam ser contratados ou mandados embora mais um ou dois jogadores». «Nós [direção] tínhamos bem claro que as nossas responsabilidades existiam em relação à equipa sénior: suportaríamos as inscrições, salvo as dos jogadores estrangeiros, que eram um custo enorme; assim como a alimentação de quem necessitava e durante a semana, enquanto tínhamos as cozinhas a funcionar. Havia uma separação de responsabilidades», esclarece. Assim, o pagamento e a contratação dos jogadores era da responsabilidade dessa «secção quase autónoma, dessas duas pessoas [Pedro Solá e Miguel Alexandre]», assim como o arrendamento da casa que albergava os jogadores. «Em termos de orçamento, se calhar, contribuíamos, no mínimo, com um terço daquilo que seria o custo da equipa sénior, porque havia coisas que dissemos que assumíamos. E tudo o que dissemos que assumíamos foi pago até ao último cêntimo», refere o presidente do clube, que acrescenta ainda que a direção adiantou «alguns pagamentos»: «Pagámos coisas que não eram da nossa responsabilidade, como era a renda da tal casa, a eletricidade, algumas despesas de alimentação ao fim de semana, que não eram da nossa responsabilidade. Fizemos alguma coisa com o espírito de que estávamos a ajudar para que, um dia, essa secção pudesse vir a repor o dinheiro», revela.

Nuno Moreira da Silva adianta ainda que, a determinada altura, Miguel Alexandre, junto da direção, «assumiu que problemas da sua vida profissional o limitaram na possibilidade de fazer face àquilo com que se tinha comprometido, mas a questão é que ele não estava sozinho», afirma. «Quando [o Miguel] sentiu que não conseguia responder, e parece que o seu parceiro também não queria responder, ou porque não podia ou porque achava que já tinha cumprido a sua parte, pediu à direção para o ajudar a terminar o ano e foi numa reunião de direção que assumimos o pagamento de dois meses de compensações dos jogadores», avança. Nuno Moreira da Silva ressalva que esta é uma despesa que «não estava no orçamento» e que a nova época está a começar «com um défice inesperado». «Mas, na verdade, não nos esquecemos que eles [os jogadores] estavam a jogar com o nosso emblema, com as nossas camisolas e, portanto, sentimo-nos na obrigação de ajudar», confessa.

O “regresso” da equipa ao clube

Sendo uma despesa inesperada e para a qual «o clube não tinha dinheiro suficiente», foi estabelecido um critério para a ordem por que as dívidas seriam liquidadas: «Demos prioridade e isso eu admito, não foi uma forma de pressão nem de chantagem, a quem quis renovar com o clube. Achámos que não tendo dinheiro para todos de imediato, pretendíamos fazer uma gestão diferente para quem renovava connosco, quem acreditava em nós. É verdade, foi feita essa opção. A quem renovou, esses dois meses foram liquidados de imediato», explica. Nuno Moreira da Silva acrescenta que a direção tem tido «a preocupação de ser rigorosa na gestão do dinheiro do clube», algo que «durante muitos anos não existiu com este rigor».

No próxima época, toda a gestão da equipa sénior será assumida pela direção, ficando todas as responsabilidades inerentes a cargo do clube. «Não há nenhuma contratação nem renovação que não tenha sido aprovada pela direção», reforça. «A partir do momento em que assumimos a equipa sénior na sua totalidade, demos um passo atrás, nomeadamente nas compensações», revela o presidente da ADP, sublinhando que além de baixar a remuneração dos jogadores, ficariam também fora da equação o alojamento e a alimentação.

Dos jogadores que tinham essas benesses e que viviam no apartamento arrendado para o efeito, «apenas um» aceitou renovar com a ADP, tendo mesmo sido «o primeiro a assinar», porém «parece que já assinou com um outro clube, na mesma época desportiva e possivelmente não regressará a Porto de Mós». Nuno Moreira da Silva acredita que a não renovação pode dever-se precisamente ao facto de as compensações descerem e não incluírem essas outras condições, acrescentando, porém, outro fator: «Penso que o anterior treinador os convenceu de que o novo clube lhes daria também casa, então alguns deles acompanharam o técnico», revela.

O Portomosense procurou contactar alguns destes jogadores, não tendo conseguido obter declarações de nenhum deles.

A CONFIANÇA EM MIGUEL ALEXANDRE 

Questionado sobre como ficaria a relação da direção com Miguel Alexandre, Nuno Moreira da Silva afirmou que o vice-presidente «teve uma postura com os restantes elementos da direção que foi humilde»: «Admitiu o falhanço. Efetivamente era o líder dessa parte do projeto, admitiu que falhou e pediu ajuda. Está a passar uma fase, em termos empresariais, difícil e, neste momento, continua dentro do clube. Tem despendido menos tempo do que ele próprio gostaria, mas continua e não será pelos outros elementos, pela direção, que será afastado, de certeza», frisou. «Pelo menos essa pessoa deu a cara, assumiu os erros e o falhanço, contrariamente a outras pessoas que não assumiram e até atribuíram ao parceiro e à entidade, que era a ADP, a responsabilidade desse falhanço. Isso é muito mais feio e, da minha parte, estarei solidário com o Miguel, sabendo que ele nos criou esta grande dificuldade», acrescentou.

LESIONADO E SEM “ORDENADO”

Cristiano Matos alinhou pela ADP na época passada, mas foi curto o seu tempo de exibição. Em fevereiro terá sofrido uma lesão que o afastou dos relvados e que o impede agora de iniciar a nova época. Assumindo que os jogadores «não recebem nenhum valor extraordinário», afirma que aquando da viragem do ano e, depois de ter começado a treinar em Porto de Mós em agosto, «só tinha recebido dois meses». «Acabei por me lesionar em fevereiro e, a partir daí, não recebi mais nada», revela. Cristiano Matos diz sentir-se «prejudicado» e que, «a não ser o mister», «ninguém acompanhava» a equipa: «O mister era a única pessoa que se preocupava e procurava saber. Pelo menos eu nunca vi lá os diretores, até podiam lá estar, mas só apareciam no dia dos jogos e eu nem sabia quem eles eram», refere.

Aquando da lesão, diz que teve «de ir à médica de família» e que o apoio que teve do clube foi só inicial, quando «o mister acabou por meter a mão»: «Como tinha alguns contactos, conseguiu que eu fizesse algumas ecografias. Na altura não se descobriu o que eu tinha e tive depois de ir a fisioterapeutas que confirmaram uma lombalgia», conta. Desde então, tem feito vários tratamentos “à sua conta”, «quando o clube é que devia suportar esses custos». «Eu estava a jogar pelo clube, lesionei-me pelo clube. Continuo lesionado e não vou começar a época à custa disto, porque não tive os tratamentos que o clube devia ter pago ou fornecido, ter lá alguém que me tratasse», reitera.

O jogador, natural de Leiria, diz apenas ter assinado a folha de inscrição e que o que existia era «um contrato verbal» em que foi «estipulado um valor que depois seria pago». Esse «contrato verbal» foi feito numa das vezes em que o jogador se terá deslocado à sede do clube, tendo falado com algumas pessoas que estariam em reunião, mas a quem não é capaz de atribuir nome nem cargo.

Cristiano Matos diz não ter sido contactado para integrar a equipa na época que agora arranca, mas ressalva que mesmo que o convite chegasse, seria declinado: «Tendo em conta a maneira como eu fui tratado este ano, como nunca fui em clube nenhum, nunca iria para o Portomosense. Aliás, nem sei como é que os meus colegas estão todos a assinar…», sublinha. «O mister sempre foi o único que se mostrou interessado e empenhado em melhorar as coisas. A verdade é que não tínhamos muitas ajudas. Era raro aparecer lá alguém [da estrutura do clube] e se apareciam eu nunca soube identificar quem eram. O mister é que agarrava o barco para o tentar aguentar», conclui.

Seguro deve ter sido ativado

Nuno Moreira da Silva disse não poder prestar declarações acerca deste caso, uma vez que o desconhece e que, no momento da entrevista, não tinha documentos que pudesse consultar. Porém, informou que «os atletas, mesmo os amadores, têm seguro e há uma franquia que os clubes têm que pagar». Não podendo garantir se o seguro deste jogador foi acionado aquando da sua lesão, sublinha que esse assunto não era «da competência direta» da direção e que o jogador nunca terá procurado a direção para se queixar.

O CASO DE ARMANDO NAVA

Armando Nava é mais uma das pessoas que aponta à ADP o atraso nos ordenados. Funcionário do clube desde setembro do ano passado, já antes integrava a equipa técnica. Fazer um contrato com o clube «foi uma forma de ter mais responsabilidade dentro da equipa técnica e estar a tempo inteiro com o plantel. As minhas 40 horas de trabalho incluíam os treinos e outras funções que eu fazia para o clube. Era preparador físico, mas também ajudava em tudo o que fosse logística da equipa sénior, logística dos treinos, roupa, equipamentos, almoço para os jogos. Depois ajudava em qualquer coisa que precisassem no clube, na lavandaria, nos transportes de almoços, na cozinha, fazia transporte de crianças, qualquer coisa que fosse precisa», explica. O que aponta é que, em dívida, estão os ordenados relativos a abril, maio e junho. «A partir de fevereiro começaram os incumprimentos e, depois do último jogo da Taça, as comunicações começaram a falhar, o pessoal da direção não respondia às mensagens por causa dos ordenados em atraso, não havia resposta sobre datas para eventuais pagamentos. Tentei chegar a um acordo amigável, mas não tive resposta por parte do senhor presidente», adianta Armando Nava. O funcionário afirma que se criou «uma história sobre uma chave que não tinha sido entregue ao clube mas, como se deve compreender, é uma situação complicada para alguém que mora em Leiria, estar a fazer viagens para Porto de Mós, só para entregar uma chave, sem ter ideia nenhuma sobre quando os ordenados em atraso vão ser regularizados». Apesar desse constrangimento, diz ter entregado a chave, juntamente com uma carta, «na qual estavam marcados os ordenados em atraso e uma proposta de acordo». «Como não houve resposta, não me apresentei para trabalhar porque não estava a receber. Então, eles [direção] enviaram um documento de incumprimento do contrato. Agora é uma situação complicada e acredito que vá terminar em tribunal. Tudo parece má-fé das pessoas que estão na direção e que ficaram com um mau sabor de boca por a equipa técnica sair», acusa. Armando Nava acrescenta ainda que está «à espera da resposta do advogado para pôr isto no Tribunal do Trabalho», uma vez que considera «um caso gravíssimo para uma associação como é a ADP».

Material em falta

O presidente do clube não se escusou a falar do assunto uma vez que assume ter tido intervenção no caso. «O senhor Armando desapareceu. Formalmente era funcionário do clube, mas não cumpriu porque desapareceu. Provocou despesas em mudanças de fechaduras porque se recusou a entregar as chaves das instalações do clube. Aliás, não posso acusar ninguém nem dizer o que se passou, mas posso dizer que, por coincidência, desapareceram bens da instituição e esse senhor não entregou as chaves quando devia e quando lhe foi solicitado. Posso dizer que o que se lhe deve é residual e que não foi liquidado porque pensamos que ele é, neste momento, detentor de equipamento que pertence ao clube», revela. Nuno Moreira da Silva disse ainda que se se «considerar a mudança das fechaduras já nem se lhe deve nada». «Esse senhor disse que se ia informar na Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) e ainda hoje estou à espera da reclamação. Possivelmente chegou à ACT e explicaram-lhe quem é que tinha razão. Até hoje não recebi nenhuma carta da ACT, não recebi mais nada dele a reclamar a partir do momento em que enviámos uma carta a dizer que considerávamos que tinha abandonado o posto de trabalho. A partir daí, não houve mais nenhum contacto», adianta.

A SAÍDA DE SOLÁ

Na edição de 7 de julho (n.º 974), O Portomosense noticiava que Presidente da ADP critica forma como treinador deixou o clube. Em causa estava o facto de, segundo Nuno Moreira da Silva, Pedro Solá ter anunciado a sua saída exclusivamente no Facebook, sem ter contactado a direção. O ex-treinador da ADP contactou a nossa redação, refutando esse facto e dizendo que foi «contratado por Miguel Alexandre e Filipe Miguel [à data presidente da associação]». «Na saída do Filipe Miguel da presidência, fui sempre contactado pelo Miguel Alexandre, vice-presidente do clube. Nunca tivemos [equipa sénior] divergências com a direção nem com o atual presidente do clube, aliás, não tínhamos relação com o resto dos elementos da direção. Tivemos um único relacionamento que era com o Miguel Alexandre. Estivemos sempre isolados sem o pedirmos. [Por isso,] Informei o meu diretor e vice-presidente da saída, o Miguel Alexandre, era a quem devia essa informação», esclarece. Pedro Solá acrescentou ainda que «é importante perceber que representamos a ADP e não a equipa do A ou do B». «Estou, neste momento, noutro projeto e, assim como a ADP merece respeito pelo clube que é e pelo que me deu, o clube onde estou merece o respeito de não andar envolvido em polémicas. Desejo o melhor para a ADP e peço que me respeitem, como eu respeitei a ADP, ao longo de três anos e meio. As pessoas passam e o clube fica», concluiu.