As eleições europeias de 26 de maio são no entender do antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, «eventualmente, as mais importantes desde o início do processo de eleições para o Parlamento Europeu através do voto direto”, pelos desafios que se levantam à União Europeia e à Europa em geral. O portomosense, atualmente arredado da política ativa mas reconhecido com uma das pessoas que em Portugal melhor conhece e reflete sobre as questões de geopolítica voltou à terra que o viu nascer, desafiado pelo Círculo de Amigos de Porto de Mós para falar sobre “O Desafio das Eleições Europeias para Portugal”, o mote para uma verdadeira aula de geopolítica.

De acordo com Luís Amado «estamos a assistir a um genuíno «movimento histórico», e a uma «década de profundas transformações a que se seguirá outra que deverá ser extremamente perigosa porque as transformações serão muito mais impactantes na vida social, na economia e nos diferentes setores da vida humana».

Depois da crise económica e financeira estamos agora, segundo o antigo governante, «na ressaca das intervenções extraordinárias que foi necessário fazer» e se a isto juntarmos «uma crise resultante de uma globalização muito rápida» verificamos que houve desiquilibrios, com as classes médias «a serem extremamente sacrificadas e com o acentuar dramático das desigualdades sociais e a concentração a níveis absolutamente inaceitáveis da riqueza nos segmentos sociais que foram capazes de aproveitar a onda de abertura e expansão dos mercados à escala global». «Como as sociedades democráticas ocidentais interiorizaram um padrão de distribuição de riqueza que não vive bem com o excesso de desigualdade isso tem impactos políticos e um dos mais visíveis é o renascer de fenómenos populistas e nacionalistas e uma crise muito difícil de gerir pelos partidos tradicionais», frisou.

«A crise dos sistemas políticos é hoje muito aguda na Europa e está a fazer renascer um conjunto de ideias e forças que pensávamos que o projeto de integração europeia tinha apagado definitavamente», disse o orador. «O projeto europeu é, sem dúvida, a mais extraordinária aventura da razão política europeia mas está muito longe de realizado e à beira de situações de grande tensão interna» referiu, afirmando que nesse contexto «o que se passa no Reino Unido é absolutamente impressionante».

«Como é que uma sociedade tão evoluída está na situação em que está? É absolutamente chocante olhar para aquele parlamento, para a sociedade britânica e para aquela elite política perdida sem encontrar uma forma de sair do buraco em que caiu» sublinhou. E porque «a Europa é uma coisa e a União Europeia é outra», Luís Amado admite que «daqui a três ou quatro anos surjam divergências e tensões na relação franco-alemã» porque apesar de toda a convergência entre as duas nações, o facto da França ter vindo a aumentar substancialmente a sua dívida e da Alemanha ter feito precisamente o inverso vai criar um choque entre os dois países em matéria de gestão do orçamento comunitário, que resultará num novo «forte tremor de terra na Zona Euro».

Outro problema que se levanta à União Europeia é «a lógica de confronto das três atuais grandes potências». Estados Unidos, Rússia e China estão apostados numa «política de estado soberano» enquanto que «a Europa que há dez anos era referência para o mundo continua à procura de um lugar onde se encaixar na nova ordem mundial e tudo aponta que das eleições europeias saia um parlamento com uma composição muito fragmentada e muito marcada pela queda dos partidos tradicionais e a ascensão de forças contrárias ao projeto europeu, logo, a debilidade do ponto de vista estratégico na relação com as três grandes potências vai-se acentuar e o equilíbrio só deverá acontecer lá para o fim da próxima época mas para isso tem de enfrentar muita turbulência interna e pressão externa», lembrou.

Neste cenário complicado, Luís Amado acredita que Portugal também não terá uma vida fácil porque apostou tudo na opção europeia e descurou «a diferenciação como estado com uma identidade própria, principalmente no contexto ibérico». «Conseguir diferenciarmo-nos de Espanha num contexto em que estamos na mesma aliança militar e económica e integrados na mesma identidade política supranacional» é no entender de Amado, «o grande desafio que se coloca a Portugal e que este tem gerido mal». «Eu próprio sou testemunha dessa má gestão porque também contribui para isso, embora tivesse outra perspetiva que nunca consegui pôr em prática porque não me deixaram», afirmou o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros.

«A gestão estratégica da nossa diferença em relação a Espanha é um tema crítico num momento em que estamos em trânsito para uma coisa que não sabemos o que é e com a agravante de termos uma dívida muito grande que nos retira independência, e uma economia muito frágil” mas, disse, bem disposto, «haja fé em Deus e em Nossa Senhora de Fátima. Sim, porque no fundo da alma de cada português, mesmo do bom ateu, há sempre a imagem de Nossa Senhora de Fátima para nos ajudar a resolver os problemas e eu espero que ela o faça de facto”, concluiu Luís Amado.