O local da minha infância…

Celeste Vieira não recorda um, mas sim três locais que fizeram parte da sua infância e que a fazem recuar a esse tempo. Cresceu e viveu toda a sua vida em Alvados, o que lhe permitiu um contacto próximo com a natureza e os campos de milho eram um dos locais onde encontrava alegria: «Quando o milho ainda estava verde, a começar a ganhar espigas, as barbas do milho ficavam verdinhas e muito sedosas e eu passava horas no meio do milho a fazer penteados, totós e trancinhas nas espigas do milho. Ninguém sabia onde eu estava, mas estava sempre por perto, no quintal». Também perto da sua casa, onde hoje vive e que é ao lado da casa dos pais, onde cresceu, havia um «espaço com muitos carvalhos» e esse era um dos outros locais onde brincava: «Empoleirava-me nas árvores até conseguir para procurar ninhos com ovos ou passarinhos», conta.
«Subir aos telhados» era outro dos seus hobbies, o que hoje até pode parecer mentira, uma vez que, atualmente, Celeste Vieira, tem vertigens. A vista que via lá de cima valia o risco: «Adorava, era uma sensação incrível». Todos estes locais estão relacionados com as brincadeiras de infância e a alvadense admite que era “rapariga levada à brincadeira”. Antigamente, brincar era sinónimo de aproveitar os recursos que já se tinham para o divertimento porque não existia «outro tipo de brinquedos». Em comparação ao que hoje se verifica, acredita que a forma como as crianças brincam é completamente oposta, sem esta liberdade que foi tendo e, sobretudo, sem a criatividade de «se brincar com o que se tem». «Os miúdos hoje são mais infelizes», considera Celeste Vieira, que admite ter «algumas saudades» dessas brincadeiras.
Aos seus três filhos, já adultos, conseguiu transmitir um pouco desta liberdade, uma vez que cresceram numa geração ainda com poucas distrações e por terem «vivido sempre numa aldeia». Mas, entre risos, confessa, que nunca lhes contou as suas brincadeiras mais arriscadas, com medo que a imitassem: «Sempre pensei: Deus queira que eles nunca saibam o que fiz para não repetirem».

O acontecimento mais marcante…

Celeste Vieira reconhece que, de facto, sempre teve em si um espírito de brincadeira muito forte, e até vai mais longe, dizendo que ainda mantém «um lado infantil» nos dias de hoje. Os seus três filhos foram, nessa perspetiva de crescimento pela descoberta, «as bonecas» que não teve quando era menina e, por isso, o nascimento destes foi «o momento mais importante» da sua vida, admitindo, emocionada, ter adorado o papel de mãe. «Tenho muitas saudades dos tempos em que eles eram crianças, a minha prioridade era vir do trabalho para estar com eles, até deixei de trabalhar a certa altura para ser eu a criá-los e gostei muito», confessa.
Foi mãe pela primeira vez aos 22 anos, depois voltou a ser aos 24 e aos 31 e tem dois rapazes e uma rapariga. Não consegue «transmitir por palavras» o sentimento que se cria: «Eu adoro crianças, sempre adorei e sempre senti que tinha aquele instinto maternal de que se fala». “Cuidar” sempre fez parte do seu dicionário e isso já se notava mesmo em criança: «Eu tinha um boneco que a minha mãe me escondeu, talvez porque passava muitas horas a brincar e ainda hoje parece que sinto saudades desse boneco».
O seu terceiro filho acabou por vir sem estar nos planos de Celeste Vieira, o que na altura não foi logo fácil de aceitar: «Estive sete anos sem ter filhos, e quando fiquei grávida, pensei “Meu Deus, agora que eu já tinha dois a comer sozinhos, a lavarem-se sozinhos, autónomos…”» mas rapidamente aceitou. Hoje reconhece que quando olha para o filho, pensa: «Mas o que era a minha vida sem ele?», como olha, aliás, para todos os seus “rebentos”, frisa.
A oportunidade de fazer um Programa Ocupacional (POC) e trabalhar, assim, temporariamente, na Escola de Serro Ventoso, foi algo que a marcou muito porque sentiu que foi como «matar saudades dos tempos dos filhos», admite. «Isto é o milagre da vida. Como é que alguém pode renunciar a uma coisa destas?», questiona Celeste Vieira, a propósito do tema “maternidade”.

Uma comida da mãe que não esquece…

«Aquele sabor e cheirinho do coelho guisado num tacho de barro ao lume em fogueira de lenha», a descrição aguça-nos os sentidos e é feita por Francisco Ventura que nunca mais esqueceu este prato que a mãe preparava. Admite que esta iguaria não lhe traz memórias apenas a si, também a sua mulher partilha deste sentimento. Os pratos em forno de lenha eram comuns quando o juncalense, hoje com 83 anos, era ainda uma criança e «parece que tinham outro sabor», confessa.
Francisco Ventura tinha apenas uns 9 ou 10 anos, recorda, quando já ajudava a preparar o coelho para ser cozinhado: «Segurava as patas do coelho com toda a coragem para se tirar a pele, o que era muito custoso, tinha de se fazer muita força, principalmente quando era a passar a pele na cabeça, para conseguirmos aproveitar a cabeça, que era a parte que o meu pai mais gostava», conta. Quando hoje fala de coelho ou quando come, não há vez que não se lembre do coelho guisado da mãe, e embora bem se tente recriar a receita, não é fácil. «Tinha outro gosto, agora é feito no fogão a gás e não é num tacho de barro», explica, embora saliente que ele e a sua mulher já fizeram coelho, normalmente «quando é mais velho», no forno de cozer o pão e que ficou «uma delícia», ainda assim, continua a não «ser como antes». Os coelhos eram criados pelos pais de Francisco Ventura, o que faz toda a diferença. «Eram criados sem rações, só com ervas e couves velhas, agora não há ninguém que os crie sem ração, o que dá um gosto pior», garante.
Lembrar-se do coelho guisado da mãe não é simplesmente lembrar-se do sabor, mas da reunião familiar que o estar à mesa proporcionava. «Éramos seis irmãos, um já faleceu, e era uma beleza, uma alegria estarmos todos juntos», conta Francisco Ventura, que recorda com especial carinho e emoção a presença do pai: «Era importante, ele gostava sempre de fazer um discurso e tinha muita habilidade, nós ficávamos a ouvir com muita atenção». Hoje em dia, as ocasiões em que a família se junta são escassas, lamenta: «Antes de os meus pais falecerem era muito mais fácil juntar os irmãos todos. Era quase uma obrigação irem a casa dos pais todas as semanas, duas ou três vezes», frisa.
Quando questionado se as suas duas filhas também são adeptas de coelho guisado, responde prontamente: «Olhe, então não gostam! É apanhá-lo», diz entre risos. Um dia, tem a certeza, que serão elas a recordar o coelho guisado da mãe, e sua mulher, que «também o faz bem feitinho».

Um cheiro que permanece no olfato…

Falamos de um cheiro, mas não nos afastamos do tema da comida e a imagem que Francisco Ventura nos dá, para quem é fã deste produto que faz parte da mesa de quase todos os portugueses, é fácil de imaginar. «O cheiro do pão à saída do forno a lenha, que a minha mãe cozia». Também aqui o juncalense tinha um papel preponderante: «Eu ia aos pinhais buscar a lenha para aquecer o forno, mas a minha mãe pagava-me sempre cinco tostões por cada molhinho de lenha que eu trazia, eu gostava muito daquilo, ia com todo o gosto». A mãe de Francisco Ventura cozia também broa e fazia sempre questão de deixar uma mais pequena, para «partir à saída da boca do forno, com azeite e um bocadinho de sal»: «Ai, era tão bom!», realça.
Francisco Ventura chegou, inclusive, a cozer o pão sozinho, uma história que recorda de forma divertida. «Uma vez cheguei a cozer o pão, a minha mãe foi para o rio lavar a roupa, não havia água em casa nem máquina, e deixou-me a tarefa de peneirar a farinha, porque dantes a farinha vinha do moinho e tinha de ser peneirada e eu assim fiz», começa por explicar, mas como o trabalho ficou feito num instante, não se ficou por aqui: «Ainda era cedo, por isso comecei a amassar, para quando a minha mãe viesse, ser só cozer». Assim foi, Francisco Ventura amassou o pão, mas a mãe ainda não tinha chegado e o pão já estava suficientemente lêvedo para ir para o forno: «Comecei a ver aquilo a levedar e pensei logo em ir acender o forno, entretanto a minha avó foi lá a casa e perguntou o que estava a fazer, ficou toda atrapalhada e foi chamar uma prima minha, eu fechei a porta a chave». Quando a mãe de Francisco chegou «o pão já estava tirado do forno, bonito e bom», prova disso é que se «comeu todo». Hoje diz que poderia já não ser capaz de um proeza dessas: «Talvez não, nunca mais vi fazer, não sei a quantidade de fermento nem o tempo que leva a levedar». São poucas as vezes que entra numa padaria, mas quando entra, garante: «O cheiro é diferente do forno da mãe».