Fátima mais do que duplica número de peregrinos e tem lucro de quase um milhão

6 Março 2023

Isidro Bento

Depois de dois anos em que houve uma redução brutal no número de peregrinos e de peregrinações organizadas, o Santuário de Fátima está a regressar de forma «progressiva e lenta» à realidade pré-pandemia. Esta é a convicção do reitor, padre Carlos Cabecinhas, e que o próprio deixou vincada no 44.º encontro anual de hoteleiros e responsáveis de casas religiosas que acolhem peregrinos em Fátima, realizado a 16 de fevereiro. Mais do que um exercício de fé, a certeza do responsável assenta no cenário que emerge dos dados estatísticos referentes a 2022 e que apontam para uma progressiva recuperação tanto em termos de peregrinos como das próprias contas da instituição.

No ano passado, o Santuário de Fátima recebeu 4 937 294 peregrinos e 3 028 peregrinações organizadas. Em comparação com 2021, houve um aumento de 481,9% de peregrinos e de 192,3% das peregrinações. Neste período temporal, os resultados financeiros tiveram também uma evolução positiva. Depois de dois anos de saldo negativo, em 2022, o Santuário de Fátima teve um lucro de quase um milhão de euros. «Vieram mais peregrinos e, por isso, aumentaram as receitas e, por outro lado, foi feito um esforço enorme para a diminuição das despesas», disse.

Com o número de peregrinos a mais do que duplicar em apenas um ano e com as contas a passar do “vermelho” para um saldo de cerca de 980 mil euros, poderá parecer estranho que o responsável fale de «uma progressiva e lenta recuperação», mas a explicação é simples: como 2020 e 2021 foram anos de confinamento e de restrições e 2022 o do regresso à “normalidade” interessa, também, comparar com o último ano “normal”, 2019.

Assim, constata-se que apesar da excelente evolução dos resultados de 2021 para 2022 ainda estão longe dos alcançados em 2019, ano em que o número de peregrinos foi 32,8% superior e o de peregrinações organizadas, mais 30,9%. Verifica-se também, em termos financeiros, que houve uma variação percentual de rendimentos na ordem dos 8,8%. E se os rendimentos ainda não estão ao nível dos de 2019, da parte da despesa houve uma redução positiva, registando-se menos 6,5% de custos.

Santuário sobrevive das esmolas dos peregrinos

Questionado pelos jornalistas, o sacerdote explica que «as ofertas deixadas pelos peregrinos são a principal receita, uma vez que o santuário, apesar de ter um ou outro espaço comercial, uma ou outra loja de artigos religiosos, uma livraria e duas casas de acolhimento» não tira daí receitas «com as quais possa viver», porque ficam «muito aquém daquilo que são os seus gastos». A maior despesa é com o pessoal. Os cerca de 331 funcionários custam cerca de 5,4 milhões de euros, no entanto, o reitor faz questão de sublinhar que estes «são o principal ativo e riqueza do Santuário», elogiando, ainda, o facto de muitos deles, ao serviço profissional, juntarem «muitas horas de trabalho voluntário noutras áreas desta instituição». «Em 2022, contabilizámos 60 mil horas de trabalho voluntário [assegurado por trabalhadores do templo]», destacou. A segunda maior despesa é relativa aos custos com serviços e fornecimentos externos que ascenderam a 3,1 milhões de euros, muito por culpa do aumento da fatura de energia.

Olhando para as contas no seu todo, o responsável frisa que «há muito que são contas equilibradas». «Tivemos dois anos com saldo negativo, o que tem a ver com a quebra no número de peregrinos, mas tirando esses anos excecionais são, normalmente, contas equilibradas», justificou, lembrando, contudo, que o lucro obtido em 2022 «não chega a um milhão de euros», o que é quase dois milhões a menos do que o alcançado no ano de 2019.

Na intervenção perante os hoteleiros e depois em declarações aos jornalistas, fica clara a resposta às fortes críticas que o ex-reitor, monsenhor Luciano Guerra, fez à atual gestão, numa entrevista recente ao Jornal de Leiria. Depois do sacerdote natural da Calvaria de Cima, que esteve à frente do Santuário de Fátima durante 35 anos, ter criticado a forma como, no seu entender, a instituição está a ser gerida em termos financeiros, pastorais e de recursos humanos, o reitor lembra que «as contas (auditadas por entidade externa) são estáveis e equilibradas» e «o rigor dos investimentos e dos gastos é total procurando acima de tudo gastos e investimentos em prol dos peregrinos no respeito por aquilo que é a efetiva missão do Santuário». Por seu turno, a referência por mais de uma vez aos funcionários como «o maior ativo do Santuário» responde a outro dos reparos feitos pelo seu antecessor.

Foto | Isidro Bento

Assinaturas

Torne-se assinante do jornal da sua terra por apenas:
Portugal 20€, Europa 35€ e Resto do Mundo 40€

Primeira Página

Capa da edição mais recente d'O Portomosense. Clique na imagem para ampliar ou aqui para efetuar assinatura