Pedro Costa, natural de Leiria e residente no distrito de Coimbra, nasceu surdo profundo e cresceu também «com uma família surda». Com o árbitro nasceu, igualmente, o gosto pela “bola”, ao considerar-se «fã de futebol desde pequeno». Primeiro foi jogador numa «equipa de surdos no campeonato distrital da Associação de Futebol de Leiria (AFL)», entre 2001 e 2006. Depois, seguiram-se dois anos anos como treinador, função para a qual tirou a certificação de 1.º nível. Percebeu que queria ser árbitro enquanto era jogador e treinador, por conseguir «observar o papel de árbitro» bem de perto. Entre as motivações, estava ainda uma missão mais forte: «Queria mostrar às pessoas ouvintes que os surdos têm todas as condições para fazer um trabalho igual a todos os ouvintes. Não somos inferiores e somos capazes de tudo». O primeiro ano enquanto árbitro foi em 2004.

Pedro Costa comunica através da Língua Gestual Portuguesa (LGP) e por isso, confessa, uma das preocupações que tinha quando começou a arbitrar era a «comunicação fora de jogo». No entanto, o árbitro nunca «teve problemas» e sempre se esforçou por comunicar, ou escrevendo «num papel» ou através de um «colega de arbitragem» que o ajudasse. Dentro do jogo nunca sentiu qualquer dificuldade. Para as situações em que é necessário, como por exemplo «formações de arbitragem e reuniões de AFL», Pedro Costa opta por levar consigo um «intérprete de LGP».

Quanto à reação dos jogadores ao conhecerem a sua limitação, o árbitro explica que em «geral foi positiva» mas que esse não tem sido muitas vezes um assunto de «conversa». No final do jogo ou nos momentos em que existe diálogo entre árbitro e jogador são os «pontos positivos e negativos» do que «se passa dentro do campo» o tema central de conversa, «tal como acontece com os árbitros ouvintes», refere.

Nesta área, o leiriense faz parte de um leque reduzido de árbitros surdos, sendo que ele é único que desempenha esta função em futsal e em futebol de 11. Existem árbitros surdos na «área do futsal na Associação de Futebol de Setúbal e na Associação de Futebol de Lisboa», explica Pedro Costa. Há cerca de 15 anos neste mundo, o árbitro da AFL destaca como os momentos mais importantes da carreira o início, quando entrou «no quadro de arbitragem», e as «competições internacionais» em que já arbitrou, inclusive, com uma participação nos Surdolímpicos. Pedro Costa confessa ainda que «a nível pessoal» ser árbitro envolve uma «gestão complicada», que obriga a abdicar de tempo com a «família e amigos devido aos jogos». O árbitro confessa que é preciso ter «uma boa capacidade de gestão» para aceitar as críticas e até as «ameaças» com as quais se deparam nesta atividade.

Em relação à realidade atual da arbitragem em Portugal, Pedro Costa acredita que «ainda há trabalho a fazer para garantir que o papel do árbitro seja respeitado», lembrando que sem este «não existem jogos ou competições». Enquanto árbitro, lembra, existe sempre um esforço para «trabalhar bem e para ser justo para com os jogadores, os clubes, os delegados e o público no campo» e por isso «quando existem erros, o importante é tentar sempre corrigir». É também importante que no futuro se incentivem os «jovens para a atividade de arbitragem», mas para isso é preciso que as « federações e associações» trabalhem para «promover mais formações e melhores condições de trabalho».

Árbitro divide-se entre outras atividades

Pedro Costa é árbitro, mas não só. Funcionário na Câmara Municipal de Leiria na área de Técnico de Desenho, presidente da direção da Federação Portuguesa das Associações de Surdos (FPAS) desde 2013, vice-presidente da Deaf Clube League, muitas são as atividades onde o árbitro da AFL está envolvido. Foi também presidente da Associação de Surdos da Alta Estremadura entre 2005 a 2009. O «movimento associativo surdo» foi algo que sempre o «interessou desde novo» e no qual esteve «sempre envolvido».

O árbitro refere ainda que «presentemente» já foram dados «passos importantes para a acessibilidade das pessoas surdas», no entando «existem ainda várias barreiras a derrubar em certas áreas». É por esta causa que «a FPAS e restantes instituições do movimento associativo surdo continuam a trabalhar e a lutar diariamente», explica.