Porto de Mós e Ourém acolheram nos dias 28 e 29 de agosto o festival ARTes, uma iniciativa promovida pela Seiva Bruta Produções. O festival dos (a)rtistas, (r)epertórios e (te)rritório(s) trouxe às sedes dos dois concelhos vários espetáculos musicais e alguns workshops. No caso de Porto de Mós a iniciativa arrancou no castelo com a realização de um workshop de desenho e um outro de fotografia de espetáculo. No sábado houve ainda teatro de improviso com oVo Mau e a noite terminou com um concerto na Praça da República com Remexido (nova música portuguesa) e Francisco Sobral (fado).

No domingo, Rão Kyao levou à Igreja de São Pedro um concerto de música litúrgica. Cerca de duas horas depois foi a vez do castelo receber a música folk de Yosune, encerrando o ARTes na Praça da República com Não Simão (rock alternativo) e Telmo Pires (fado).

Entre o diversificado cartaz com nomes, na sua maioria, ainda pouco conhecidos do grande público, surgia o de Rão Kyao, a estrela maior do grupo presente em Porto de Mós. Um espetáculo com o consagrado músico é, por regra, um momento de grande qualidade e desta vez a regra voltou a não ter exceção.

Rão Kyao, acompanhado do organista, Renato Silva Júnior, brilhou com um repertório muito específico e de cariz religioso, o que por si só poderia ser menos motivante para algum público, mas se muitos terão ido assistir, precisamente, por essa particularidade, outros, foram pelo músico em si e pela excelência e beleza da música saída das suas flautas de bambu. Pelos comentários ouvidos no final, uns e outros saíram plenamente satisfeitos.

O concerto apresentado como de música litúrgica revelou-se um verdadeiro hino a Nossa Senhora. A mãe de Jesus, figura de enorme importância para os católicos, foi evocada em temas variados, muitos deles incontornáveis em determinadas missas e cerimónias religiosas e que, por isso, muitos conhecem. Ao longo de cerca de uma hora, Rão Kyao brindou o público com temas litúrgicos “puros”, música tradicional portuguesa, nomeadamente, alentejana, e até uma marcha, todas com Maria como figura central.

A adesão do público foi imediata e o artista apercebendo-se, quase logo ao início, que da plateia vinha um discreto trautear dos temas mais conhecidos, desafiou quem estava a assistir para que o fizesse a partir daí de forma deliberada e mais audível, juntando-se-lhe numa ligação que funcionou muito bem e que enriqueceu o recital. Nalguns casos, Rão Kyao começou por interpretar as peças com a sua flauta de bambu convidando depois quem assistia a cantar com ele os mesmos temas.

No final, o presidente da Câmara congratulou-se com «o regresso da Cultura a Porto de Mós» depois de longos meses em que, por força da pandemia, os espetáculos quase não existiram e deu os parabéns e agradeceu a Rão Kyao pelo recital proporcionado.

No final, o consagrado artista deu autógrafos a todos os que o procuraram e, apesar da conversa não ter sido previamente agendada como é habitual, prontificou-se, de imediato, a conversar alguns minutos com O Portomosense, sem limite de perguntas, muito menos de tempo. A simplicidade com que se apresentou em palco foi aquela que os seus fãs encontraram nos bastidores e que nós próprios testemunhámos.