Há 19 anos que, sempre no último sábado de setembro, se vive um ambiente de autêntico rebuliço na pequena aldeia da Barrenta. No meio artístico, já são poucos aqueles que desconhecem o Encontro Nacional de Tocadores de Concertina da Barrenta e que nas palavras de Ricardo Pereira, se trata de um nome que «já está na memória de muitas pessoas». O evento que decorre naquela localidade da União de Freguesias de Alvados e Alcaria, juntando centenas de tocadores e muitos mais espetadores, sofreu na edição deste ano uma readaptação provocada pela pandemia e que fez o evento “sair” da Barrenta, e visitar as freguesias do concelho através de atuações num autocarro panorâmico que percorreu um total de 105 quilómetros.

Apesar das dificuldades inerentes à duração do percurso, Ricardo Pereira, presidente do Centro Cultural da Barrenta, a entidade organizadora do evento, faz um balanço «muito positivo»: «Nós mesmo tendo consciência de que 15 horas em cima de um autocarro seria algo muito duro, também tínhamos a certeza que as pessoas mereciam isto e muito mais».

O autocarro panorâmico, que levava o grupo de concertinas, e o camião-palco onde eram feitas as atuações, partiram de manhã do Juncal dando, assim, arranque ao evento. «Às 9h30, não esperaríamos uma receção tão calorosa das pessoas na vila do Juncal. Mesmo com o trabalho do dia a dia, a população estava à janela e à porta de casa», descreve. Situação idêntica se viveu nas restantes nove paragens com pessoas a aguardarem sempre pela passagem do autocarro. «Não tivemos nenhuma paragem sem ninguém, muito pelo contrário. Houve até locais, que não estavam designados como paragens, em que as pessoas se juntaram e até mereciam que parássemos mas não havia mesmo forma», lamenta Ricardo Pereira.

A meio da tarde, quando tudo parecia estar a correr conforme o esperado, começa a chover de forma repentina, deixando todos os intervenientes surpreendidos com a mudança climatérica. «Estávamos a sair de Alvados em direção a Alcaria quando começa a chover mesmo forte e tivemos que nos deslocar à Barrenta porque não tínhamos como cobrir todo o material, desde equipamentos e instrumentos, que não pode apanhar chuva», conta. Apesar de reconhecer que tiveram capacidade de reação e resposta perante esta adversidade, o que acabou por não inviabilizar a continuação do evento, Ricardo Pereira admite que essa situação levou a que nesse dia não fosse possível chegar a Alcaria, garantindo, no entanto, que a atuação será feita: «Demos a nossa palavra que em tempo muito curto, iremos lá marcar presença porque era a nossa intenção».

Mesmo com todas as peripécias, o evento terminou cerca das 21 horas com a chegada do grupo ao Alqueidão da Serra, a última paragem do evento, que apesar do frio e de alguma humidade, tiveram pessoas à sua espera. «Chega-se com um sentimento de missão cumprida e de satisfação porque conseguirmos realizar algo que se calhar era impensável», desabafa.

Encontro “online” junta 53 grupos

A 19.º edição do Encontro Nacional de Tocadores de Concertina da Barrenta ficou ainda marcada pelo Barrenta ComVida, um encontro inédito que decorreu online entre as 17 e as 21 horas em que participaram grupos de vários pontos do país, inclusivamente do estrangeiro e que terminou de forma positiva. «Era algo novo, que nunca tínhamos feito, mas o feedback que as pessoas nos têm dado é de que foi uma ideia fantástica. Têm também destacado a nossa coragem e ousadia de conseguir fazer algo nos tempos de agora», destaca Ricardo Pereira.

Arcos de Valdevez, Sintra, Coimbra e Vila de Rei foram apenas alguns dos «53 grupos» que fizeram questão de mostrar o seu talento no Barrenta ComVida. «Deu para reparar que os grupos que enviaram os seus trabalhos tiveram um cuidado muito grande em fazer as suas apresentações. Escolheram sítios emblemáticos, músicas bem trabalhadas e gente sempre equipada a rigor», constata.
Além da presença de várias personalidades da vida autárquica, o evento contou ainda com as explicações de um fisioterapeuta sobre «aquecimentos a realizar para evitar lesões musculares ao tocar concertina» e que, segundo Ricardo Pereira, foi uma forma de dar «um bocadinho mais de interatividade ao encontro».

Apesar de admitir que a expetativa da organização era «alta», Ricardo Pereira preferiu não pensar em números. No final da emissão, o resultado não podia ter sido mais satisfatório: 20 mil visualizações e 50 mil pessoas alcançadas. «Nas primeiras horas chegámos a ter 250 pessoas a ver ao mesmo tempo, o que para nós é um número muito bom porque sabemos que estar em frente a um computador durante quatro horas era muito difícil», confessa.