Há largos anos que José Vieira, de 61 anos, natural da Fonte de Oleiro, encontra e recolhe fósseis. A paixão que nasceu ainda na escola, acentuou-se com a atividade de caçador e foi precisamente numa das vezes enquanto caçava que reparou «numa rocha com formato de um osso». A descoberta rapidamente lhe despertou atenção. «Naquela altura não se falava tanto em dinossauros como se fala de há uns anos para cá», recorda o portomosense, admitindo que os filmes e a comunicação social tiveram um papel importante no aprofundamento do conhecimento dos vestígios que ia encontrando.

A estrutura maciça de alguns dos fósseis, impossibilitava o seu transporte e por esse motivo, José Vieira «guardava-os em sítios específicos» para mais tarde os ir buscar e guardar. Alguns desses, os que «conseguiu aproveitar», acabaram expostos no Museu Municipal de Porto de Mós. Um em particular, descoberto junto ao IC9 na Fonte do Oleiro, um zona considerada «muito rica» em fósseis-marinhos e de dinossauros, foi doado a 30 de novembro de 1993 e veio a revelar tratar-se de um «fóssil de uma vértebra caudal de um dinossauro saurópode». «Teve um grande impacto. A perfeição que o fóssil tem, é impressionante», destaca.

Em 2015, esse fóssil e um outro, encontrado na propriedade de João Salgueiro, em Costa Barrenta, e guardado por António Cordeiro até ao início dos anos 2000, altura em que foi doado ao Museu, acabariam por chamar a atenção de Elisabete Malafaia e Pedro Mocho, paleontólogos, investigadores do Instituto Dom Luiz da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. O interesse dos também colaboradores da Sociedade de História Natural nasceu aquando de uma ronda por todos os museus portugueses que tivessem fósseis de dinossauros, tendo verificado que Porto de Mós fazia parte desse leque. «Fizemos uma visita ao Museu e mostrámos interesse em estudar os fósseis», afirma a paleontóloga.

A partir daí, deu-se início a um trabalho de descrição de materiais que «nunca tinham sido descritos e estudados com detalhe», mas rapidamente perceberam que a informação era escassa, o que dificultaria a concretização do principal objetivo: «Localizar níveis com potencial para terem fósseis». A dupla acabou por facultar ajuda ao Museu, no sentido de tentar perceber se tinham mais alguma informação «para além daquela que estava nas etiquetas dos fósseis».

Visita ao terreno

Aquando da conversa com O Portomosense, Elisabete Malafaia destacou a disponibilidade demonstrada por Luísa Machado, diretora do Museu, o que contribuiu para a publicação de um trabalho científico, em 2017, sobre os fósseis que segundo a paleontóloga, pertencem ao dinossauro saurópode, uma espécie descrita como tendo um «pescoço e cauda comprida», considerada de grande porte e pertencente ao jurássico superior, era geológica ocorrida há «aproximadamente 150 a 140 milhões de anos».

No passado dia 25 de setembro, os paleontólogos participaram numa visita guiada aos locais onde foram encontrados os fósseis, Fonte de Oleiro e Costa Barrenta, e da qual fez parte o vereador da Cultura, Eduardo Amaral, e contando com o apoio de José Vieira. «Andámos à procura de fósseis e descobrimos mais alguns, mas outros nem se conseguem soltar porque estão em rochas muito grandes», explica o portomosense. «Desde os anos 80 que existem referências a fósseis nesta região e com este trabalho de campo o que tentámos fazer foi localizar e marcar no mapa esses sítios», explica Elisabete Malafaia, que desde 2002 trabalha na área da paleontologia. Uma vez identificados os locais, um dos objetivos para o futuro passará pela prospeção dessas áreas. «Queremos descobrir sítios que se possam escavar e que tenham vestígios de dinossauros e outros vertebrados para assim, compreendermos melhor como eram os ecossistemas no Jurássico Superior nessa região», adianta.

“Sabemos que é uma zona rica em fósseis”

Atualmente, é na região Oeste, sobretudo na faixa costeira entre Lourinhã e Torres Vedras, que existe um «registo bem conhecido» de dinossauros pertencentes à época do período Jurássico da era Mesozóica. O mesmo não se pode dizer da região mais a norte, onde se integram concelhos como Porto de Mós, Batalha, Pombal e Leiria, e que os paleontólogos designam por «Bacia Lusitânica». «Nós sabemos, através de referências clássicas, que toda essa zona é muito rica em fósseis de dinossauros, mas até ao momento não está tão bem conhecida porque os trabalhos de campo são mais complicados», explica Elisabete Malafaia.

A inexistência ou escassez de afloramentos é, segundo a paleontóloga, uma das principais causas para algum desconhecimento desta região e por isso, os achados descobertos estão, muitas vezes, associados a «obras, abertura de estradas ou no momento de trabalhar a terra para a agricultura». A falta de limpeza dos solos é outro dos obstáculos à descoberta de fósseis. «As pessoas mais velhas que exploravam alguns terrenos deixaram de existir e agora está tudo cheio de erva», lamenta José Vieira. Comparando com a região litoral, em que frequentemente a «própria erosão costeira coloca mais a descoberto os fósseis» a Bacia Lusitânica carrega assim, uma dificuldade acrescida para o trabalho dos paleontólogos, que por vezes se revela «desesperante», mas que no fim, acaba por ser bastante recompensador. «Por vezes, andamos dias em que não se descobre nada, mas quando encontramos algo, acaba por compensar todos os dias em que não se descobre nada», desabafa.

«Ir à descoberta»: É desta forma que a paleontóloga descreve aquele que é o quotidiano do seu trabalho, considerado «muito desafiante». «Temos a motivação adicional porque como se conhece pouco, tudo o que se descobrir, em princípio, tem uma grande importância», adianta Elisabete Malafaia.