Hoje comemora-se o Dia do Livro Português, implementado pela Sociedade Portuguesa de Autores. A escolha da data corresponde ao dia em que, em 1487, se imprimiu o primeiro livro em Portugal, na altura escrito em hebraico. O primeiro livro escrito em português foi impresso 10 anos depois, a 4 de janeiro.

Neste tempo de isolamento social, os livros são bons companheiros – como o são, de resto, em todos os tempos – e, por isso, O Portomosense traz-lhe uma sugestão de um livro escrito em português, por uma jornalista portuguesa e que retrata as consequências de um momento tão marcante na História de Portugal, a Guerra Colonial. Temos a sorte de ter ainda vivos muitos testemunhos dessa História, que podem relatar-nos, na primeira pessoa, as estórias que dela emergem. Aqui fica um pouco de tudo isso…

Catarina Gomes, jornalista, é a autora do livro Furriel não é nome de pai, que tem como subtítulo: «Os filhos que os militares portugueses deixaram na guerra colonial». O tema é tabu em Portugal, descobriu ao fazer uma reportagem para o jornal Público. Na sua pesquisa encontrou inúmeras publicações sobre os filhos de outras guerras, mas sobre estes, nada. Foi então que descobriu, num blogue de ex-combatentes, que o termo certo para os procurar seria “filhos do vento”. Denominou-os assim o ex-furriel José Saúde «porque lhe parecia que não eram filhos de ninguém». Mesmo com o termo certo, a pesquisa parecia infrutífera.

A reportagem foi publicada em junho de 2013 e para a elaborar, Catarina Gomes partiu para a Guiné-Bissau. No bolso levava apenas quatro contactos de supostos filhos, no entanto, o “passa-palavra” de que viria uma jornalista para contar esta história fez com que aparecessem tantos que as duas semanas que tinham para fazer a reportagem não chegariam para falar com todos.

«Este é, portanto, um livro de pós-reportagem», escreve a autora na introdução. Foi a história de Fernando Hedgar da Silva que a fez escrever o livro e dar-lhe nome. Levanto a ponta do véu: Fernando sempre foi mais claro do que os seus companheiros e do que os próprios irmãos, nunca soube porquê, mas também nunca questionou muito. Até ao dia em que alguém lhe chamou «resto de tuga». A partir desse dia, a sua vida mudou e Fernando quis saber, a todo o custo quem era o seu pai. O que conseguiu “sacar” à mãe foi pouco. Achava que tinha um nome, Furriel. Tudo desabou quando percebeu que «Furriel não é nome de pai», mas sim uma patente militar.

Fernando Hedgar da Silva criou uma associação para os “filhos do vento”, chamou-lhe Associação Filho de Tuga. Já Catarina Gomes passou os quatro anos seguintes à reportagem «mergulhada» nestas histórias. Em 2015, voltou à Guiné, sozinha, para continuar a contar a história. E no entretanto, depois de publicada a reportagem, recebeu muitas cartas de diversos familiares diferentes, irmãos, tias, primos… «Nenhum pai me escreveu», afirma.
Não há números concretos de quantos “filhos de tuga” existirão porque, como se disse no começo, este é um tabu entre os ex-combatentes e estas contas nunca foram feitas, mas de acordo com as estimativas da Associação de Fernando Hedgar da Silva, só na Guiné serão cerca de 500.

Este tema passou a fazer parte da vida da jornalista que o toma como uma luta sua. No final da introdução, deixa o seguinte: «Todos os dias morrem metades desta história. Os pais portugueses estão na fase final das suas vidas e estes filhos, na casa dos 40-50 anos, também podem estar perto do fim das suas. A esperança de vida nos três países africanos ronda os 50 anos. […]

Se continua a haver todos os anos almoços-convívio de ex-combatentes é porque a guerra ainda vive neles».
O livro, além da história de Fernando, traz-nos mais três histórias de personagens concretas. E no final, uma lista de 41 nomes de «filhos que procuram pais portugueses». NA contracapa do livro podemos ler que «esta é a primeira vez que se conta a sua [dos “filhos do vento”] história».