O isolamento, a falta de atividade física, a desintegração da comunidade são uma realidade para uma parte da população idosa do país. O programa Ginástica Sénior promovido pelo Município de Porto de Mós tenta combater estes três pontos, integrado numa lógica mais vasta – a do Envelhecimento Ativo – com várias atividades deste âmbito.

Como o nome indica, a Ginástica Sénior “põe a mexer” a população mais velha, duas vezes por semana em cada uma das 10 freguesias do concelho. Esta iniciativa já existe há vários anos e nós falámos com alunos regulares (garantem que só faltam por motivos de “força maior”) e que encaram estes encontros semanais como um verdadeiro refúgio para o corpo e ainda maior, podemos arriscar, para a mente. Fomos falar com três mulheres e um homem, porque “eles” ainda continuam a ser a minoria nestas andanças, que resumem bem as mais-valias desta iniciativa.

Quando a pandemia forçou a parar

Isabel Roque tem 76 anos e como diz «é nascida e criada» no Alqueidão da Serra e tanto ela como o seu marido são presença assídua nas aulas de ginástica. «Começámos a ir porque achávamos que era importante para o nosso organismo, para o nosso corpo, para a nossa mobilidade», explica. Sabe exatamente a única vez que faltou, no dia em que foi tomar a vacina contra a COVID-19, de resto, não falha. A atividade física sempre fez parte da vida de Isabel Roque que já fazia habitualmente caminhadas e o seu marido passou a fazê-lo também quando se reformou.

Reconhecem que o exercício e nomeadamente estas aulas de ginástica são fundamentais para se sentirem melhor. «Gostamos mesmo muito e sentimo-nos muito bem. Tivemos muita pena quando estivemos sem ginástica por causa da pandemia. Meu Deus, ficámos tão ansiosos que voltasse porque em casa, sozinhos, não temos iniciativa para fazer e perdemos com isso», recorda. Assim que as aulas regressaram sentirem-se logo melhor: «Mais soltos, com o corpo mais dinâmico, é formidável». Com problemas de osteoporose, esta não é a solução milagrosa, uma vez que os problemas «continuam a existir», mas é pelo menos um «grande alívio das dores»: «Noto uma diferença extraordinária».

Para Alice Ferraria de 77 anos, residente em São Bento, as aulas são mesmo um combate ao isolamento. Há 11 anos que perdeu o seu marido, não tem filhos nem família próxima e por isso, estar nas aulas é uma garantia de não estar só. Mas é mais do que isso. «Gosto muito destas aulas. Já ando há seis ou sete anos. Gosto de fazer exercício, faz-me bem ao corpo porque tenho problemas de ossos e não posso estar parada», salienta. Depois, vem a componente psicológica. «É importante sair de casa, aliviar a cabeça. Distraio-me, tiro os pensamentos maus que aparecem às vezes, é muito bom», acrescenta Alice Ferraria.

Confessa que se foi «muito abaixo» quando as aulas estiveram paradas: «As pessoas diziam-me que já não era a “Alice de antigamente”». Sempre foi muito enérgica e sempre fez as suas caminhadas (que chegavam aos seis/sete quilómetros), sendo muitas vezes confrontada com a pergunta “não se cansa de andar a caminhar?” e a resposta era pronta: “Eu não!”. Alice Ferraria explicou ainda que frequenta as aulas apenas uma vez por semana porque à sexta-feira, um dos dias em que as aulas acontecem em São Bento, coincide com o dia que tem transporte para Porto de Mós: «Eu tenho de ir sempre à vila tratar da minha vida, porque é o único dia que tenho».

Parar é morrer

Uma das ideias que une todos estes testemunhos é o de que todos sentem que não podem parar porque se isso acontecer não lhes trará nada de benéfico. Maria do Rosário e Manuel do Rosário não são família mas têm em comum o apelido, a idade e a freguesia onde residem, Calvaria de Cima. Ambos frequentam também as aulas de Ginástica Sénior. Para Maria do Rosário era fundamental, com a idade que tem, continuar «a mexer e não estar sempre sentada no sofá». «Ajuda-nos muito, ainda ontem tinha uma dor imensa no pescoço, fui à ginástica e fiquei muito aliviada», conta. Vai «sempre, sempre, sempre», garante e gosta muito da forma como são dadas as aulas.

A sua relação com o exercício é também já longa por recomendação clínica. «O médico indicou-me aulas de hidroginástica e ando lá há por volta de oito anos», explica. Lidar com a falta das aulas, seja pela pandemia, seja pelas paragens para férias, é sempre complicado: «Ainda na semana passada [as aulas pararam durante 15 dias] tive uma crise de stress por só ouvir falar da pandemia, foi muito difícil para nós. Hoje fiz a aula e fiquei muito melhor, nem se compara», frisa.

Manuel do Rosário também considera que a partir de uma certa idade, nomeadamente depois da reforma, é importante não ficar parado. «É muito bom participar, o movimento faz-nos bem», garante, acrescentando ainda que já frequenta estas aulas há cerca de três anos. Tem por hábito ir sempre que pode, a não ser que tenha algo mesmo inadiável, mas confessa que agora quando as aulas retomaram preferiu não arriscar por causa da COVID-19. «Vemos isto tão mau que temos algum medo», assume.

Quando questionado se já era uma pessoa dada a exercício quando ainda trabalhava, riu-se, e com razão: «Eu fazia era ginástica demais, era pedreiro e estava sempre ativo, nada me doía». Depois de ter sido tão ativo durante toda a sua vida, parar não seria mesmo uma opção. Agora só tem um desejo: «Que este maldito bicho vá para bem longe para voltar a ter estas aulas» das quais confessa ter «muitas saudades».