Mais simples era difícil: chama-se Grutas de Mira de Aire e pode ser descarregada gratuitamente em qualquer loja de aplicações dos telemóveis (Play Store e App Store), ou através do QR code que está disponível nos cartazes espalhados pelo complexo das Grutas. A nova aplicação, apresentada no passado dia 27, pretende ser um áudio-guia, em cinco idiomas – português, francês, inglês, espanhol e alemão –, disponibilizando, ainda, o conteúdo da visita numa linguagem infantil e em língua gestual portuguesa. A aplicação funciona em modo offline para que possa ser utilizada dentro da gruta, onde não há cobertura de rede. Em cada ponto de interesse, ao longo da visita, há números identificativos que correspondem, depois, ao ficheiro da aplicação a que se deve aceder para obter a informação correspondente. Apesar desta aplicação proporcionar alguma autonomia a quem visita as Grutas, os visitantes vão continuar a ir para o subsolo integrados em grupos e com um guia.

De acordo com o presidente do conselho de administração das Grutas de Mira de Aire, Carlos Alberto Jorge, esta era uma uma «ideia perseguida há bastante tempo» e que avançou agora, precisamente, no dia em que se completaram 75 anos sobre a descoberta da gruta. Carlos Alberto Jorge considera que esta nova valência pode atrair novos públicos e que, caso isso não aconteça, «pelo menos é uma mais-valia que acresce ao serviço» já existente. «Não tínhamos, por exemplo, ninguém que falasse alemão. Nem todos os guias falam as várias línguas e agora há sempre a possibilidade de todos acompanharem a visita na sua língua nativa», refere.

Inclusão e acessibilidade

Mais do que atrair novos turistas, estrangeiros ou portugueses, esta aplicação vai permitir o acesso a informação sobre as Grutas a pessoas que, até aqui, não o tinham, como é o caso da comunidade surda. No dia do lançamento da aplicação e na visita às Grutas que pretendia demonstrar a sua funcionalidade, além dos responsáveis pela elaboração da aplicação, do vereador da Cultura, Eduardo Amaral, da coordenadora do Centro de Recursos para a Inclusão Digital (CRID) do Politécnico de Leiria, Célia Sousa, e do presidente da Entidade Regional Turismo Centro de Portugal, Pedro Machado, estiveram ainda representantes da Associação Portuguesa de Surdos (APS) e da Federação Portuguesa de Surdos (FPS), apoiados por uma intérprete de língua gestual.

O presidente da APS, Pedro Mourão, começou por referir que «esta aplicação dá autonomia aos surdos», que «acabam por ser livres, podem vir quando quiserem, às horas que quiserem», não sendo preciso agendar para conseguir arranjar um intérprete. Pedro Mourão afirma que esta aplicação é mais «um passinho que se está a dar» e que, apesar de não dar resposta a todas as situações, como por exemplo o caso das pessoas mais velhas que não têm tanta facilidade com as novas tecnologias, a sua implementação «é muito positiva».

O presidente da FPS, Pedro Costa, salientou o facto de a aplicação funcionar mesmo sem internet, uma vez que outras que existem com língua gestual funcionam apenas online, ficando limitadas em determinados espaços. Pedro Costa disse ainda que, «em Portugal, não é muito comum» os monumentos disponibilizarem este tipo de ferramentas. «Às vezes, há projetos que são feitos para experimentar, só depois é que se faz a divulgação da aplicação, que ainda precisa de atualizações e de se adaptar melhor. Não se pode desistir, nem deixar adormecida esta aplicação», frisa. No caso da aplicação Grutas de Mira de Aire, há, na sua opinião, margem a melhoramentos, nomeadamente com a introdução de «gestos internacionais» que possibilitem aos surdos estrangeiros terem também acesso ao conteúdo.

Célia Sousa, do CRID, apelidou a aplicação de «excelente», «nomeadamente porque tem a parte da língua gestual para a população surda, a quem estava vedada a vinda a estes espaços», permitindo agora que «acompanhe e consiga entender» o conteúdo da visita. A coordenadora considera também «muito importante» a «versão para crianças» que pode vir a ser «uma mais-valia também para pessoas que tenham algumas dificuldades a nível cognitivo, porque como está numa linguagem mais simplificada, vai permitir que entendam os vários contextos da gruta». Célia Sousa acrescentou ainda que também para a «população cega é excelente», que tem assim «a possibilidade de ouvir». «Acho que é mesmo uma mais-valia e que as Grutas estão, de facto, de parabéns por esta iniciativa», concluiu.

Foto | Catarina Correia Martins