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Guerra de gerações ou gerações que se complementam?

12 Fevereiro 2020
Jéssica Moás de Sá

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Jéssica Moás de Sá

12 Fev, 2020

Muitos são os profissionais, em vários ramos, que, antes de o ensino superior e profissional ser tão comum e mais acessível a qualquer pessoa, aprendiam “a arte de saber fazer” através da experiência. Trabalhar com os mais velhos, aprender com eles e beber todos os seus ensinamentos, esta era a universidade de outros tempos. Hoje nas empresas, o que se encontra é uma fusão de dois mundos: estes profissionais mais “tradicionais” da velha guarda e os profissionais que se formaram na área, seja em ensino superior, seja em cursos profissionais. Isto acontece também nas oficinas de automóveis. O que procurámos saber foi se estes mundos se complementam ou se estão de costas voltadas.

“Hoje em dia é preciso ter conhecimento de várias áreas”

João Ribeiro integrou na sua empresa o filho, Rafael Ribeiro, de 24 anos, que estudou Engenharia Automóvel, na Escola Superior de Tecnologia e Gestão, do Instituto Politécnico de Leiria. O pintor e bate-chapas admite que «as diferenças» neste mundo automóvel «são bastantes» porque, nos carros atuais «já não basta ser mecânico, tem que se ter conhecimento de mecânica, eletricidade e eletrónica e conjugar tudo isso em simultâneo» e nesse sentido, pode ser mais fácil para quem «tem formação e facilidade natural com informática» perceber logo à partida diferentes conceitos. No entanto, frisa o mecânico, nada substitui a experiência.

Se por um lado, quem estuda, «traz mais conhecimento, sobretudo ligado às novas tecnologias», por outro, «os mais velhos conhecem aqueles pormenores que só com a experiência e o trabalho de vários anos conseguem resolver, porque não vêm nos livros», garante. João Ribeiro assume que tem sido o filho, por diversas vezes, a marcar presença em formações de complemento à atividade, dando conta das novidades no setor. No caso concreto da pintura, o profissional dá o exemplo: «Agora há carros que já não vêm com número da cor e é numa máquina com espectrómetro que conseguimos decifrar a cor, para isso é preciso ter alguns conhecimentos de informática, depois eu acabo por me adaptar, mas foi o Rafael que foi a essa formação aprender, por ter mais facilidade com essa parte».

Assumindo que existe sempre um certo desconforto entre os profissionais com muitos anos de experiência e os profissionais recentes, com mais formação, João Ribeiro, frisa, no entanto que ambos se podem e devem «complementar». O pintor admite ainda que atualmente é mesmo necessário estar a par das mudanças no setor, indo com alguma regularidade a formações.

“Eu aprendo todos os dias com o meu pai e ele comigo”

Eduardo Lima é formado em Engenharia Eletrotécnica e trabalha neste ramo há 12 anos. Em 2018, participou no Concurso de Melhor Mecatrónico, onde obteve o quinto lugar. A junção da eletrotécnica e da mecânica é, por isso, uma realidade na sua vida, acompanhando a evolução neste setor automóvel.

Está do lado dos que têm formação e consegue perceber ambas as partes. Se por um lado acredita que as «gerações mais velhas, talvez por não quererem dar parte fraca, não admitem que não sabem alguma coisa», também por outro «a malta que sai das universidades não pode achar que sabe tudo» porque há ensinamentos que só são adquiridos com «a prática e experiência». Apesar de reconhecer que «antigamente havia um défice de conhecimento teórico», hoje, pelo contrário, os estudantes «podem ter muito conhecimento teórico mas depois falta a prática». Por isso, para Eduardo Lima, o ideal é que ambos se «complementem» e é por isso que afirma que «aprende todos os dias muito» com pai e que o «pai também aprende» com ele.

O profissional não nega, no entanto que «ter alguma formação» não traga algumas «facilidades de enquadramento com o setor». Aconselha «a 200%» os estudos, e embora o ensino profissional prepare melhor a «curto prazo», considera que o ensino superior continua a ser uma «mais-valia»: «Pela forma como nos ensina a pensar e a resolver os problemas e não pelos conhecimentos que nos dá no imediato, porque os conhecimentos absorvem-se no mundo do trabalho, no dia-a-dia, a aprender com as pessoas mais velhas». Não é por isso, para Eduardo Lima, uma forma «de ganhar mais dinheiro ao contrário do que muita gente pensa», mas sim permitir ter alguma «facilidade no raciocínio e método de trabalho».

O mecânico salienta ainda que hoje em dia, com «a alteração constante no mundo automóvel», os profissionais devem «fazer formação constante». Nem sempre é fácil, frisa, para os mecânicos com mais anos admitirem que «estão desatualizados», mas esta desatualização é fruto «das mudanças diárias». Eduardo Lima reitera que, para quem se «quer manter no ramo, a formação é absolutamente necessária».

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