A praça Arménio Marques ganhou um ponto de atração, a imagem de uma das maiores artistas portuguesas, que levou o nome do país além fronteiras: Amália Rodrigues. A obra nasceu em Porto de Mós fruto de um acaso e podemos até arriscar-nos a dizer que, neste aspeto e apenas neste, a pandemia, ajudou. A ideia e também o patrocínio foram de Herman Alves, emigrado em Montreal, Canadá, mas natural de Porto de Mós, também ele há vários anos a evidenciar o nome de Portugal junto das comunidades lusas nos espetáculos que dinamiza, sobretudo nos restaurantes que possui. O mural dedicado a Amália Rodrigues não foi uma ideia repentina. «É uma ideia que já me anda a “chatear” há muitos anos. No ano passado, pelos 20 anos da sua morte, abri uma sala de espetáculos que se chamava Amália», conta. O interesse pela obra da fadista é notório, mas Herman Alves confessa-se apaixonado por música em geral e integra o conselho que organiza o Festival Nacional de Portugal de Montreal. Este ano, devido à COVID-19, não havia espetáculos ao vivo, mas tinha sido negociado um mural dedicado a Amália Rodrigues num prédio de uma praça que, apesar de ser em Montreal, tem nome luso: Parque de Portugal. «Foram precisas algumas insistências com a Câmara local, que acabaram por resultar, estava aprovado o projeto».

Já estava um artista escolhido, quando um «conflito de agenda» não permitiu avançar e foi através de «recomendações» que chegou a Paulo Carreira, com quem fez o contrato e definiu que este mural estaria pronto no dia 10 de junho, Dia de Portugal. Mas o destino daria novamente as suas voltas: «O Paulo Carreira foi a Lisboa fazer um trabalho, e por coincidência ele estava em Portugal quando pararam os voos [devido à pandemia] e por isso teve de permanecer no país». Herman Alves confessa que, nesse momento, ficou «triste», mas não pensou em desistir do objetivo: «E se eu fizesse o mural em Portugal?». Pensou em várias cidades, mas depois percebeu que não havia melhor sítio do que a sua terra natal e foi quando entrou em contacto com a Câmara, nomeadamente com o vereador da Cultura, Eduardo Amaral. A ideia foi desde logo muito bem recebida, conta Herman Alves. A escolha por esta parede tem que ver com memórias da infância de Herman Alves: «Desde pequenino que ia ao mercado a Porto de Mós, tomávamos café na Morgadinha, e depois dava com aquele prédio em cima dos meus olhos».

Os objetivos não se ficam por aqui. Herman Alves tenciona fazer um mural dedicado a Amália Rodrigues em mais três cidades, Montreal, onde já está autorizado, Paris e Fall River, nos EUA. No final do ano a ideia é juntar canções criadas para este efeito, num concerto, que representa todos estes murais e assim homenagear o fado.

O artista explica a obra

Paulo Carreira também está há vários anos emigrado em Montreal. O artista, natural de Setúbal, diz que já tinha tido outro encontro com Herman Alves, há cerca de três anos para um projeto que acabou por não se realizar, mas quando soube, através de uma amiga comum, que o empresário estava à procura de alguém para fazer o mural de Montreal, enviou-lhe logo uma mensagem. Tentou perceber se o projeto era algo com o qual se identificasse e apaixonou-se rapidamente: «Era um projeto grande e muito interessante». A sua ligação a Porto de Mós é nula, mas quando Herman Alves lhe telefonou, para mudar os planos e vir para cá, disse logo que sim, até porque gostou «muito do projeto», conta.

O local escolhido foi algo que também agradou o artista. Em quatro horas desenhou o projeto e entregou-o a Herman Alves. Como já tinha feito aquele que estava planeado para Montreal, Paulo Carreira tinha já muita pesquisa feita. Nas pesquisas que fez, encontrou uma fotografia de Amália Rodrigues que o marcou: «Ela estava a dar um concerto com as cores nacionais, mas num tom desmaiado que achei lindíssimo, não era o tom como quando compramos a bandeira novinha em folha. Os músicos estavam vestidos de preto e ela sobressaía no palco. Adorei aquelas cores. Quando me pediram para desenhar este mural, pensei logo em utilizá-las». Aquela imagem de Amália é também única, uma vez que o artista juntou «a cara de um álbum» a um corpo de outra fotografia da fadista. Originalmente o projeto não tinha o amarelo das cores nacionais, mas Paulo Carreira pensou em incluir, porque «amarelo lembra o ouro e Amália merece ouro». Faltava o azul e o branco, que o artista diz, «se pode encontrar no céu» e assim a obra fica completa.

Valorização da Arte Urbana é aposta do Município

O vereador da Cultura, Eduardo Amaral, em declarações ao nosso jornal enaltece «o grande mecenas do projeto, Herman Alves» que levou a que fosse possível «concretizar esta homenagem». O autarca lembra ainda que só foi possível realizar esta obra porque os «proprietários dos apartamentos» do condomínio deram, «desde a primeira hora, luz verde» e por isso deixa «um agradecimento público». Eduardo Amaral considera que esta imagem veio dar «vida» a este espaço urbano, que por si só «é um espaço de excelência», mas que não tinha «a força necessária». A Arte Urbana, assume o vereador, faz parte «de um projeto de Porto de Mós» para a sua divulgação e para «a valorização dos artistas portomosenses e nacionais», lembrando o trabalho já feito na torre dos Bombeiros Voluntários de Porto de Mós.

A obra de arte urbana deverá ser inaugurada formalmente no dia 29 de junho, dia de São Pedro, até porque, recorda Eduardo Amaral, «a Amália esteve pelo menos quatro vezes em Porto de Mós, por altura das Festas de São Pedro, perto do espaço do mural, na Cooperativa Agrícola, o local onde se realizavam os grandes concertos». Ainda não são conhecidos os moldes em que vai acontecer esta inauguração, «se de uma forma mais simbólica ou mais visual», devido ao contexto de pandemia, mas já se sabe que será lançada uma canção composta para este momento, como já tinha adiantado Herman Alves, que se intitula Grito de Esperança e que conta com a participação de artistas nacionais.