Vasco Matos é o sócio número oito do Grupo Recreativo da Corredoura (GRC), instituição que completa este mês 75 anos de existência. Tornou-se sócio do clube da sua terra, muito novo, aos 13 anos, numa altura em que, garante, apenas existiam quatro televisões em Porto de Mós, uma das quais no GRC, e admite que esse foi o principal chamariz que o levou a juntar-se à associação. «Eu nunca tinha visto uma televisão. Eles eram muito rígidos, só podia ver quem fosse sócio», revela. Os bancos corridos que compunham o espaço onde estava a “caixinha mágica” fazem-no equiparar o local a uma «casa de espetáculos» onde, à noite, quando era a hora de «começar a televisão», o ambiente era calmo e todos estavam «sossegados».

Em 1946, data de fundação da coletividade, Vasco Matos, hoje com 79 anos, lembra que a oferta de distrações era escassa e que por isso, o clube era visto como um refúgio para os jovens que viviam na Corredoura e também era o local predileto de muitos sócios para passarem os serões. «Nós éramos miúdos, a vida era difícil, e o clube era a única coisa que existia, o nosso ponto de encontro. Já tinha rádio, dominó e mesa de ping-pong, era o único divertimento, isso ou as tabernas, porque não havia a facilidade de nos deslocarmos como existe hoje», recorda. Na altura, o valor fixado para as quotas mensais era de 25 tostões, um montante que considerava avultado para a época. Durante algum tempo, exerceu a função de cobrador de quotas do clube, o que se revelou numa ajuda para que ele próprio conseguisse pagar as suas.

Andar com a casa às costas

Apesar das vicissitudes pelas quais o GRC passou durante este tempo, aquele que é um dos seus sócios mais antigos assegura que jamais pensou em desistir: «O clube já teve várias crises e problemas, já passou por muito e eu nunca desisti, paguei sempre as quotas». Numa viagem pelas suas memórias, Vasco Matos relembra as origens do clube, concebido em pleno Estado Novo e que, segundo acredita, foi a primeira associação do concelho a obter esse estatuto. «Por causa do regime que vigorava na altura, havia muita dificuldade em formar clubes, era muito difícil de aprovar», explica.

A história do GRC começou a ser escrita há 75 anos e deve a sua existência a 10 fundadores, a maior parte já falecidos. O clube da Corredoura já conheceu quatro locais distintos, incluindo o sítio onde hoje se encontra. Tudo começou, conta, numa «casa velha» cedida por um senhor, junto à capela de Nossa Senhora do Amparo, na Corredoura, que tinha uma «salinha» e foi aí que se começaram a encontrar. Daí, passou para o local onde hoje se encontra a Escola Básica Dr. Manuel Oliveira Perpétua, através da cedência do espaço pelo seu proprietário. «Estava em terra batida, só existia o telhado e forraram aquilo, passando a haver melhores condições», afirma. No entanto, a permanência neste espaço acabou por ser “sol de pouca dura”, pois com o projeto da escola houve pessoas a «cederem os terrenos», incluindo o dono do espaço, onde estava o GRC instalado. «A malta teve que sair de lá. Ficaram com a casa às costas, mas depois acabaram por arranjar outra casa velha junto à estrada principal, até que se conseguiu comprar onde hoje têm a sede», refere.

De um «barracãozinho» passou-se para um espaço com «boas instalações» onde já se desenvolveu uma panóplia de atividades e que o sócio do clube recorda com saudade: «Chegou-se a fazer dois teatros, tínhamos um rancho folclórico e havia dois ou três bailes por mês que eram de arrebentar». Contudo, a memória que guarda com mais carinho remete para o início do milénio, altura em que o clube tinha uma equipa de juniores de futebol de salão, o futsal, e que, já reformado, era a si que competia, muitas vezes, tratar do transporte dos atletas. «Era um divertimento lidar com a malta. Às vezes, era difícil aturá-los, mas quando acabou, custou-me», desabafa.

Legalização das instalações é prioridade

Com um gosto e um carinho assumido pelo clube, João Alves tomou as rédeas do GRC há dois anos. O seu avô foi um dos fundadores da associação que hoje preside, no entanto, essa não foi a principal razão que o levou a formar equipa e candidatar-se. «O meu objetivo [com a candidatura] foi poder fazer mais pela nossa terra e pela nossa aldeia», frisa. Com eleições anuais, não sabe quanto tempo mais irá ficar aos comandos do clube, mas de algo tem a certeza: não irá virar costas à associação enquanto não conseguir concretizar aquilo com que, juntamente com os colegas, se comprometeu a fazer, a legalização do espaço, um processo «muito demorado» que, aliás, já foi iniciado há dois anos mas que devido à sua complexidade e elevada burocracia ainda não está terminado. «Hei de ficar até o processo de legalização estar concluído, é esse o nosso objetivo, para que no futuro consigamos concorrer a fundos e fazer tudo aquilo que queremos, depois logo se verá», afirma.

O GRC conta, atualmente, com «cerca de 250 sócios» e, segundo o presidente, tem conseguido crescer, principalmente no que respeita «ao número de sócios pagantes». Desde que integra a direção, João Alves afirma que tem sido feita uma «aproximação das pessoas ao clube» e que os espetáculos de comédia e magia, organizados em 2019, foram alguns dos melhores momentos que teve oportunidade de experienciar. «Foram dois espetáculos ímpares e uma novidade para a nossa comunidade. Foi sempre casa cheia», revela, visivelmente orgulhoso. O presidente do GRC sublinha ainda a importância do trail, uma modalidade que tem estado em franco crescimento em Portugal mas também no clube, e realça o «excelente trabalho» realizado pelos «cerca de 20 praticantes» no que diz respeito à visibilidade que estes dão. «Permitimos que usem as nossas instalações e eles levam a nossa camisola no peito. É a terceira modalidade federada da nossa história e neste momento é a única», afirma.