Para milhares de habitantes da zona serrana do concelho de Porto de Mós que, em pleno século XXI, ainda não conseguiam ter acesso à internet chegou ao fim a luta que já vinha a ser travada há vários anos.

Em 15 de junho de 2020, a Altice Portugal estabeleceu um protocolo com o Município no qual se comprometia a levar, até ao final de 2021, a fibra ótica a 93% das casas do concelho. Desde essa altura muito mudou em termos de cobertura, e hoje são muito mais os elogios que as queixas. Da parte da autarquia há, também, a convicção de que a situação está incomparavelmente melhor mas esta aguarda agora que o relatório da ANACOM (a entidade reguladora do setor das telecomunicações) sobre a cobertura de fibra ótica no concelho confirme (ou não) isso mesmo, nomeadamente os tais 93% prometidos.

«Neste momento há um conjunto de freguesias que não tinham rede de fibra ótica e que já têm, como é o caso de São Bento, Arrimal e Mendiga e uma parte de Serro Ventoso», assegura o presidente da Câmara. Em contrapartida, Alqueidão da Serra e Alvados e Alcaria são as freguesias «mais deficitárias» que ainda apresentam alguns pontos onde não há acesso, algo que Jorge Vala espera ver resolvido em breve com a assinatura de um novo protocolo. «São os tais 7% que ficaram de fora», esclarece. Ainda assim, o autarca prevê que no próximo ano «com ou sem protocolo» o concelho tenha cobertura completa em fibra ótica.

Após ter terminado o prazo previsto para a colocação de fibra ótica quisemos descobrir aquela que é hoje a realidade vivida na casa de dois moradores de duas das freguesias mais afetadas e que até há bem pouco tempo tinham bastantes dificuldades no acesso à internet.

Diferença é “brutal”

Desde setembro deste ano, quando foi instalada a rede de fibra ótica na sua casa em Arrimal, que a vida de Margarida Jorge e da família, mudou da noite para o dia. Até esse momento, aceder à internet era um autêntico martírio. Já o era antes da pandemia e com os sucessivos confinamentos agravou-se ainda mais. Nessa altura, a escassa rede de internet tinha que ser dividida entre a mãe, professora do ensino secundário, e dois dos seus três filhos que precisavam de assistir às aulas online. E se havia dias em que o acesso era fraco, noutros era praticamente inexistente. «Cheguei a ter que ir dar aulas para a serra, junto ao Baloiço da Portela do Pereiro, pelo menos duas vezes, e curiosamente num desses dias era apenas eu a ter que aceder à internet», conta a professora de Informática.

Aceder à internet durante o ensino à distância revelou-se um desafio brutal e obrigou a rotinas musculadas. O que para uns não passava de um simples gesto, para esta família (à semelhança de tantas outras espalhadas pelo concelho) foi durante muito tempo uma tarefa que implicava bastante organização, ginástica mental e, acima de tudo, paciência. «Cheguei a fazer um mapa dos horários para saber quem é que estava a usar a internet a determinada hora. Tinha que ser tudo controlado. Não dava para estarmos todos ao mesmo tempo mas nos casos em que isso acontecia um de nós tinha que ir para a rua, senão a internet estava sempre a cair», recorda. Embora a utilização da internet fosse sempre feita com muita contenção houve situações em que o filho que estava no 12.º ano teve que faltar às aulas para que o irmão, a frequentar a universidade, pudesse realizar os exames sem receio de interrupções.

Longe vão os tempos em que a professora tinha que se deslocar ao café da freguesia ou até mesmo à casa da mãe ou da irmã (residentes noutro distrito) para poder ter acesso à internet. Com a instalação da fibra ótica, o quotidiano desta família mudou drasticamente e agora a sua vida está mais facilitada. Já não é preciso racionar a internet e até podem estar três computadores ligados em simultâneo e a playstation, que tudo funciona bem. «A diferença é brutal. O serviço é mil vezes melhor. A internet não cai e não preciso de ter os repetidores que tinha. Em vez de três passei a ter apenas um e é apenas para ter boa qualidade em todo o lado», explica.

Margarida Jorge foi uma das pessoas que, em 2018, integrou uma petição para a colocação de fibra ótica na zona serrana de Porto de Mós que «nunca deu em nada». Hoje mostra-se satisfeita com esta mudança e faz questão de enaltecer o papel desempenhado pelo presidente da Câmara na resolução do problema: «Se não tivesse assinado o protocolo com a Altice provavelmente ainda estávamos a penar».



“Passámos do oito para o 80”

Diz o ditado popular que “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura” e para António Fael, residente há quatro anos em São Bento, não existe melhor expressão para descrever todo o processo de fazer chegar internet aos habitantes daquela freguesia. «Foi uma grande melhoria. Passámos do oito para o 80. Neste momento quem queira ter internet já pode fazer o pedido e, assim, ter fibra ótica a “bombar” em casa. Antes tinha, no máximo, 6 Mbps de velocidade, hoje tenho 500», garante.

Embora a situação já está resolvida, António Fael ressalva que «o que se conseguiu não foi por obra e graça do Espírito Santo», foi sim fruto de um trabalho «bastante intensivo» que começou com uma campanha de sensibilização feita pela população no início do ensino à distância. «O objetivo era sensibilizar para a falta de internet e para a diferença de oportunidades que existia entre as crianças que moravam em Porto de Mós e as que moravam em São Bento», recorda. A este grupo de moradores juntaram-se depois o antigo presidente da Junta, Tiago Rei, e o presidente da Câmara, Jorge Vala, que «durante dois anos andaram a massacrar a Altice» para resolver o problema, sublinha.

Quando ainda a aldeia se encontrava numa escuridão tecnológica, António Fael foi uma das pessoas que, devido à sua profissão, se viu obrigado a fazer um «grande investimento» – na ordem dos dois mil euros – para conseguir ter acesso à internet: «Montei umas antenas no telhado que apanhavam o 4G, vindo da antena da rede móvel que existe em São Bento». Por isso, assim que soube da existência de crianças que não tinham como acompanhar as aulas online, nem sequer pensou duas vezes e “emprestou” a sua casa para que estas pudessem assistir às aulas. «São Bento continua a ter bastante presente o espírito de comunidade. As pessoas ajudam-se quando é preciso», destaca.

Desta luta que agora chegou ao fim, António Fael gostava que todos refletissem e retirassem a seguinte ilação: «Por vezes as pessoas pensam que as coisas não dão em nada mas este é um exemplo de que se fizermos alguma coisa, até se conseguem resultados».

No lugar de São Bento há quem se queixe que a fibra ótica ainda “não está a funcionar a 100 por cento”

Com a cobertura alargada de fibra ótica no concelho de Porto de Mós, o sentimento de satisfação é praticamente unânime entre aqueles que, ao longo de décadas, esperaram por este serviço e que mais sentiram na pele a sua ausência. Contudo, existem casos, embora pontuais, em que isso não acontece. É o caso de Lúcia António e Marlene Cordeiro, vizinhas, em São Bento, que até há pouco tempo beneficiavam da proximidade à única antena existente na freguesia e que por isso, nunca tiveram grandes problemas com internet ou rede de telemóvel, mas que agora se queixam de que com esta instalação ficaram «pior» do que estavam.

«Troquei para a fibra ótica no dia 16 de outubro e desde então já tive duas avarias em que fiquei quase uma semana sem serviço. A primeira deu-se logo passado 15 dias», conta Lúcia António. Atualmente, quando estão quatro pessoas em simultâneo na internet é certo que «há sempre alguém que se queixa que não está a funcionar a 100 por cento». Além disso, a televisão tem sofrido «paragens de alguns segundos» que «antes não aconteciam». Lúcia António revela que embora os cabos exteriores já tenham sido substituídos duas vezes os técnicos deixaram em aberto a possibilidade de terem que fazer a instalação «toda de novo».

Com um escritório de solicitadoria em São Bento, Marlene Cordeiro reconhece bem as diferenças desde que a fibra ótica foi aí instalada, no final de agosto. Embora deixe claro que não se quer queixar de «barriga cheia» considera que hoje a qualidade do serviço é «inferior»: «Antes tínhamos internet por cabo e funcionava melhor. Agora cai muitas vezes e é muito mais lenta». Aliás, enquanto conversava com o nosso jornal, Marlene Cordeiro fez um teste que verifica a velocidade da internet e a mensagem que acompanhou o resultado comprova isso mesmo: «A sua ligação à internet é lenta». Entretanto, já contactou a operadora que lhe disse que o seu problema poderá estar relacionado com os aparelhos utilizados mas ainda não apresentou quaisquer soluções.

Problemas com rede móvel continuam mas presidente da Câmara lembra que protocolo foi para a colocação de fibra ótica

Embora Margarida Jorge nada tenha de negativo a apontar relativamente ao funcionamento da fibra ótica, o mesmo não se passa com a rede móvel que, garante, continua «muito instável». Esta instabilidade é facilmente comprovada pelo ecrã do seu telemóvel que ora marca três traços de rede, como a seguir já lhe mostra um aviso em como está incontactável. Nesses casos, a residente no Arrimal não se resigna e até já arranjou uma solução, uma vez que agora dispõe de internet na sua plenitude. «Quando estou em casa costumo dizer às pessoas para me ligarem pelo WhatsApp ou pelo Messenger», conta.

Durante praticamente um dia inteiro O Portomosense tentou, sem sucesso, contactar António Fael. Do outro lado da linha, a mensagem que surgia era sempre a mesma: “O número para o qual ligou não se encontra disponível, por favor, ligue mais tarde”. Quando conseguimos chegar à sua fala, o morador de São Bento acabou por confirmar aquilo que já antecipávamos: Não atendeu porque não tinha rede móvel. «É o único problema que continua por resolver. Hoje em dia para falar ao telemóvel ainda é preciso, às vezes, subir ao monte», refere, entre risos.

No entanto, esta parece ser uma questão que tem os dias contados: «O presidente da Câmara, Jorge Vala, disse que tinha um acordo com a Altice para colocar aqui antenas novas e melhorar a antena de São Bento», revela. Uma informação que foi corroborada pelo próprio em declarações a O Portomosense: «Vamos continuar a fazer alguma pressão junto da Altice para garantir melhores condições de rede móvel e já está aqui a autorização para mais uma antena». Apesar das queixas, o autarca esclarece que o protocolo assinado com a Altice foi «no âmbito da fibra ótica e não de rede móvel» e que a rede móvel «é um serviço que tem de ser garantido pelos operadores privados».