Para muitos fiéis da igreja Católica, o soar das 12 badaladas na noite da véspera de Natal, 24 de dezembro, ainda continua a ser sinónimo de Missa do Galo. Apesar de «liturgicamente» a Vigília Pascal ser a missa «mais importante de todas», há quem espere o ano inteiro pela celebração da noite de Natal. «Esta missa por si só já tem um caráter diferente porque anuncia o nascimento de Cristo e isto no coração dos fiéis altera tudo», explica o padre António Cardoso, há dois anos à frente das paróquias do Juncal e das Pedreiras. «Para muita gente, a vinda à Missa do Galo é quase sagrada», admite o pároco Vítor Jesus, acrescentando que mesmo aqueles que «não estão muito ligados» à comunidade e que preferem ter apenas uma «ligação anual à igreja» também veem na ida à Missa do Galo uma tradição a ser cumprida religiosamente. «Ainda há um fio que as liga à comunidade», realça.

No entender do padre Vítor Jesus, responsável há quatro anos pelas paróquias do Alqueidão da Serra e de Alcaria, na noite de 24 de dezembro, existe todo «um conjunto de estímulos» que despoleta diferentes sentimentos nas pessoas e que as levam a ter vontade de participar na Missa do Galo. O pároco dá como exemplo a presença do presépio e a tradição de venerar a imagem do Menino Jesus com o beijo, um dos momentos mais apreciados pelos crentes durante a celebração, mas que, este ano, por recomendação da Conferência Episcopal Portuguesa não irá acontecer, de forma a evitar a propagação do novo coronavírus. «Essa é a grande alteração na celebração da eucaristia desse dia e muitas pessoas, vão a essa missa movidas pelo beijar do Menino», garante o padre António Cardoso. «Pode ser que para o ano, quando o voltarmos a beijar, o façamos com mais sentido», antecipa o pároco Vítor Jesus.

A tradição da missa à meia-noite já não é o que era

A hora da celebração da missa, acredita Vítor Jesus, é talvez o maior pretexto que move as pessoas a participarem na Missa do Galo: «Há pessoas que procuram aquilo que sai fora do ritmo e do hábito. O facto de a missa ser às 00 horas é algo que lhes suscita um sentido de novidade». No entanto, a atipicidade do ano provocada pela pandemia, a que se junta as restrições impostas pelo Estado de Emergência para as festividades, levou a que muitas paróquias decidissem antecipar a hora desta celebração. É o caso da do Alqueidão da Serra em que a tradicional Missa do Galo terá início pelas 23 horas, como acontece praticamente com todas as restantes paróquias de Porto de Mós. «É evidente que não vai ter o brilho e a alegria das anteriores, porque não podemos ter tantas pessoas mas vamos procurar fazer com que haja Natal na mesma, porque não deixa de existir, ele começa dentro de nós», admite.

Apesar das mudanças impostas pela pandemia, com consequências diretas naquele que é o horário «habitual» para a realização da Missa do Galo, a verdade é que atualmente a tradição de começar a celebração à meia-noite já não é cumprida de forma escrupolosa por todas as paróquias. Uma decisão que, na maior parte das vezes, se deve à vontade dos fiéis. «Nunca celebrei a missa à meia-noite, mais por conveniência das pessoas que preferem que seja um bocadinho mais cedo», revela o padre António Cardoso.

As justificações dadas pelos fiéis para se proceder a uma antecipação daquela que é a hora prevista para o início da Missa do Galo, refere, é a de que à meia-noite é uma altura em que as pessoas estando no «aconchengo do lar», junto das suas famílias e já «custa um bocadinho» sair de casa. Por isso, o pároco garante que não houve qualquer consternação entre crentes quando foi levantada a questão de a hora da Missa do Galo poder vir a ser alterada. Muito pelo contrário. «Na paróquia das Pedreiras, já ouvi comentários de pessoas que nem sequer se escandalizavam se não houver a missa da noite», indica o padre António Cardoso, adiantando que, após uma reunião do Conselho Pastoral, decidiu-se que este ano não se realizaria Missa do Galo na Igreja das Pedreiras. Já no caso da paróquia do Juncal, a alteração no horário para essa celebração foi a maior de todas. «É uma hora que ninguém está habituado», começa por dizer o pároco, revelando que a missa terá início às 18h30 e que o anúncio foi extremamente bem recebido pelos fiéis. «Houve até algumas pessoas que levantaram a mão, fazendo um fixe, para mostrarem que estavam em total acordo com o novo horário», confessa, entre risos.

Paróquias adaptam horário da Missa do Galo devido à pandemia

À semelhança do Juncal e do Alqueidão da Serra, também as restantes pároquias do concelho de Porto de Mós decidiram este ano adaptar o horário da celebração da Missa do Galo devido à atual situação pandémica. As razões evocadas para esta alteração são bastante variadas, contudo convergem todas na mesma direção: o facto de se estar a viver um ano atípico, prevendo-se menos aglomerações de pessoas.
Na paróquia de Porto de Mós, a missa tem início marcado para as 23 horas, na Igreja de São Pedro, revelou o padre José Alves. Também em Mira de Aire, a Missa do Galo será adiantada uma hora em relação ao habitual, apesar do pároco Luís Ferreira, responsável ainda pelas paróquias de Alvados e São Bento, revelar que tinha «tudo programado» para realizar à meia-noite. O cenário irá repetir-se na Mendiga, segundo revela o padre Leonel Batista, que considera ter sido «uma decisão pacífica» porque, como justifica, «não é muito diferente daquilo que já se fazia». O pároco que também está à frente da paróquia de Arrimal e Serro Ventoso explica que todos os anos o local para se fazer a Missa do Galo varia pelas três paróquias. Na Igreja Paroquial da Calvaria de Cima, a missa será celebrada a partir das 22h30, como confirma o padre José Henrique Pedrosa.