O álbum “Interchange” do quarteto liderado pelo portomosense César Cardoso foi considerado um dos melhores discos de jazz do ano de 2018 pela revista Downbeat, uma publicação americana, de projeção mundial, especializada neste estilo de música. O disco agora distinguido conta com a participação especial do artista portoriquenho Miguel Zenón.

A O Portomosense, o saxofonista, natural da Calvaria de Cima, mostrou-se satisfeito e disse que esta distinção “é um orgulho muito grande” uma vez que a Downbeat “é a Liga dos Campeões das revistas de jazz”, já que “é a mais antiga e chega a todo o mundo”. A participação de Miguel Zenón é também motivo de orgulho para o portomosense, uma vez que o artista portoriquenho “é um dos melhores músicos internacionais da atualidade”. César Cardoso considera que esta colaboração teve influência na distinção feita pela revista americana: “Sem dúvida que sendo uma estrela nessa área, ajudou a dar mais visibilidade ao disco perante a crítica. Se calhar, se ele não estivesse era mais um disco e as pessoas não iam ter curiosidade em ir ouvir”, salienta.

Fazer e ensinar

César Cardoso trabalha com este quarteto – do qual fazem também parte Bruno Santos, Demian Cabaud e André Sousa Machado – há mais de três anos, no entanto a sua vida profissional vai muito além dele: “Continuo a dar aulas, é uma coisa de que também gosto”, revela. Além da Escola de Jazz do Hot Clube Portugal, em Lisboa, onde dá aulas de saxofone, teoria, combo e big band e onde acaba por passar a maior parte do seu tempo, César Cardoso é também professor no Orfeão de Leiria, num curso de jazz relativamente recente que foi convidado para coordenar.

A ligação do saxofonista portomosense a Leiria não termina por aqui, é fundador e diretor artístico da Orquestra de Jazz de Leiria (OJL), “um projeto sólido, que tem feito uma série de concertos”. “É um projeto que requer muito tempo e envolvência, porque temos de fazer arranjos e preparar tudo muito bem”, explica César Cardoso. São vários os nomes da música nacional que já fizeram parte dos concertos da OJL, entre eles estão António Zambujo – o mais recente –, Camané e Pedro Abrunhosa, estando para este ano planeado um concerto com Jorge Palma. Os espetáculos no Teatro José Lúcio da Silva “têm estado sempre esgotados” e “isso é muito gratificante”, realça.

Atualmente, e de há uns anos a esta parte, a sua ligação a Leiria tornou-se maior do que aquela que mantém com o seu concelho de origem, Porto de Mós. “Na Calvaria de Cima tenho a casa dos meus pais, onde costumo ficar ao fim de semana, quando vou a Leiria”, conta, referindo que os laços que mantém são maioritariamente familiares.

César Cardoso

Nascido em 1982, foi aos 7 anos que a música entrou na vida de César Cardoso. O seu primeiro palco foi a Banda Recreativa Portomosense, onde ingressou com o seu irmão, o também conhecido Flávio Cardoso. O saxofone alto foi o instrumento que lhe calhou, e dizemos calhou porque não foi propriamente uma escolha: “O que acontecia é que eles entregavam um instrumento de acordo com a falta que existia para completar a banda, ou seja, havia poucos saxofones, então entregaram-me um”, explica o músico. Apesar de a “escolha” ter sido imposta, César Cardoso afirma que gostou “muito do instrumento”. Hoje, na maior parte das vezes, toca saxofone tenor, que adotou desde que começou a dedicar-se ao jazz – “o que não quer dizer que, de vez em quando, não toque saxofone alto”.

A certa altura sentiu necessidade de mais e foi então que, em 1995, ingressou na Escola de Música do Orfeão de Leiria onde concluiu o oitavo grau do conservatório na classe de saxofone, em 2003. Não sendo ainda suficiente, entre 2004 e 2008, frequentou a Escola de Jazz do Hot Clube de Portugal, onde hoje dá aulas. Depois desse percurso licenciou-se em Saxofone Jazz na Escola Superior de Música de Lisboa.

Do seu percurso constam trabalhos com vários artistas de renome nacional (como Maria João e Mário Laginha) e internacional (como Stacey Kent ou Benny Golson), tendo feito parte de alguns grupos, entre os quais a banda leiriense Desbundixie, que tem também alcançado lugar de destaque no panorama do jazz nacional. No seu currículo já constam cerca de uma centena de arranjos, compostos originalmente para a Orquestra de Jazz de Leiria, de que é diretor artístico, e para a Orquestra do Hot Clube de Portugal.

Em 2016, César Cardoso lançou o seu primeiro livro “Teoria do Jazz”, pela Chiado Editora, que foi o primeiro livro em português sobre a temática, facto que não passou despercebido à imprensa especializada, e mereceu referência também de alguns jornais e revistas nacionais. Este manual “sem dúvida que teve muito impacto”, porque como não havia nada do género, “muitas vezes os alunos iam para casa e depois não tinham onde recorrer ou onde ir reler a matéria” dada nas aulas. É um livro “muito prático e de fácil perceção”, diz, acrescentando que é semelhante à sua forma de pensar a música e de ensinar: “direto e conciso, não é preciso grande palha nem grandes voltas para chegar a um objetivo concreto”. Já no ano passado, lançou o segundo livro, um complemento do primeiro: “Teoria do Jazz – Exercícios” como o próprio nome indica, traz exercícios sobre a “matéria dada” no primeiro livro.