«Quando denunciei a intervenção nos túneis da Ecopista nunca esteve em causa a necessidade daquela infraestrutura ter total segurança porque isso é inquestionável, mas sim a solução encontrada». O sublinhado é de Rui Marto, vereador do PS, o autor do post na rede social Facebook que espoletou a polémica em torno dos trabalhos nos túneis da antiga linha de caminho de ferro, junto à Corredoura. Polémica que não se ficou pelos comentários de elogio e de crítica, tanto à atitude do vereador como à intervenção em curso, mas que num instante saltou do mundo virtual para a vida real com vereador e vice-presidente da Câmara a trocarem acusações em tom crispado.

Em declarações ao nosso jornal, o vereador explica que «o que está mal é que para se fazer a estabilização se tenha optado por “betumar” o primeiro túnel e 10 a 15 metros do segundo. Se a Ecopista foi criada para podermos usufruir da natureza e o turismo de natureza tem sido apregoado como prioridade não faz sentido estarmos a artificializar o túnel. É totalmente descabido e daí ter-me sentido na obrigação de o denunciar», esclarece, adiantando que antes de o fazer falou «com alguns dos agentes envolvidos e da sua parte houve um completo desvalorizar de uma posição diferente». «Nunca houve o cuidado de discutir o assunto dentro ou fora da reunião de Câmara e, tanto quanto sei, a Junta também foi ignorada. Ao que consta, o PNSAC foi consultado mas ainda não sei a resposta», refere.

“Património foi descaracterizado de forma irrecuperável”

«O que me incomodou de forma muito séria foi ter-se descaracterizado de forma irrecuperável algo que nos diz muito e não acredito que tenha sido a única solução que “venderam” à Câmara porque toda a gente que tem algum conhecimento na área sabe que existem soluções menos intrusivas e descaracterizadoras», justifica o autarca.

Marto queixa-se de que «os vereadores sem pelouros são sistematicamente ignorados» e que o que foi dito foi que «a Ecopista estava fechada devido ao COVID-19 e que se ia aproveitar para fazer uma intervenção de reforço da segurança, mas nunca ninguém disse que se ia betumar por completo um túnel e parcialmente o outro».

O autarca nega a acusação de oportunismo politico e diz que disso «só pode ser acusado quem tomou a decisão de fazer uma obra destas sem avisar ninguém, aproveitando esta situação perfeitamente anormal e de alinhamento geral de todos os agentes políticos [por causa do COVID-19)». Rui Marto afirma que ao tomar esta atitude não quebrou em nada a unidade que deve existir no combate a esse inimigo comum e que o PS e os seus eleitos já deram suficientes provas disso. «Acusarem alguém de estar a ser desleal numa altura destas ou de estar a ser oportunista é querer desviar as atenções do cerne da questão para o acessório», frisa.

Entretanto, acusado de em 2016, na altura em que era vereador das Obras Públicas, ter recebido um relatório da Proteção Civil a dar conta do perigo de derrocada dos túneis e de nada ter feito, Marto diz não se «lembrar de qualquer relatório» e que tem «muitas dúvidas» que lhe tivesse chegado às mãos porque normalmente a Proteção Civil respondia perante o presidente da Câmara. «Admito que me tenha passado alguma informação pela frente no entanto lembro que estive em funções até ao dia 18 de outubro de 2017, portanto de 2016 a 2017 vai um ano, e este executivo está em funções há dois e meio. Se o culpado é o Rui Marto por não ter atuado e por aquela aberração que agora foi feita, quem veio a seguir teve dois anos e meio para tomar decisões», frisa.

O Portomosense falou também com o vice-presidente da Câmara, Eduardo Amaral, que está a coordenar este processo, para tentar perceber, afinal, o que motivou esta intervenção, se a solução adotada foi a única apresentada e se será, de facto, a melhor. O responsável explicou-nos que na sequência de contactos por parte de vários munícipes «dando conta que estavam a acontecer derrocadas nos túneis foi pedido ao coordenador da Proteção Civil e ao chefe de divisão que fizessem uma avaliação para perceber o porquê da queda das pedras, nomeadamente no primeiro túnel», tendo estes concluído que «tinha uma elevada fraturação do maciço e isso fazia com que houvesse uma queda de blocos pela infiltração das águas». O segundo teria o mesmo problema mas apenas «nos primeiros 15 metros e depois pequenas fissuras laterais».

A empresa contratada apresentou, então, várias propostas. A primeira passava pela «fixação de uma rede mas por a rocha estar muito fragmentada havia o risco do túnel colapsar». A segunda, era «fazer um arco total em pedra clássica aparelhada no interior mas descaracterizava completamente o túnel». A terceira previa «encher apenas os vazios com as pedras» mas, novamente, o túnel podia cair no decorrer dos trabalhos. A última era «fazer um arco total de betão por forma a poder aguentar o existente» mas também foi rejeitada por ser «demasiado intrusiva e descaracterizar completamente o túnel». Depois de várias reuniões foi proposto «fazer uma injeção de betão nas cavidades e fissuras do primeiro túnel e colocar um sistema de drenagem eficaz», mas mais uma vez o risco de colapso obrigou a uma mudança de planos: o betão seria, afinal, «projetado conjuntamente com fibras de aço para que o túnel possa ficar estabilizado». Foi essa a solução adotada.

“Vereador tentou influenciar e incendiar comunidade”

Eduardo Amaral diz que se alguém tem dúvidas do estado dos túneis, tem fotos, vídeos e a avaliação técnica que pode mostrar, adiantando que o que foi feito «visa evitar o que já aconteceu antes porque aquilo que hoje são dois túneis é, afinal, um único que, em tempos colapsou» num determinado ponto. A solução é no seu entender «a melhor, a que dá mais garantias de estabilidade, validade e eficiência e maior segurança», sendo que a preocupação foi conseguir «a total proteção deste património e das pessoas que o frequentam».

O autarca garante que «a legislação em vigor foi cumprida, nenhuma decisão do presidente da Câmara extravasou as suas competências e as pessoas não foram apanhadas de surpresa, nem nada foi feito à traição como se diz. O PNSAC deu parecer favorável e foi-lhe pedido, inclusive, a opinião de como intervir ali. Os túneis vão ficar com a cor da pedra e isso, por exemplo, foi sugestão do Parque».

Perante isto, Eduardo Amaral mostra-se “surpreendido” com a atitude de Rui Marto, a quem acusa de ter procurado «influenciar e incendiar» as pessoas da Corredoura. O autarca diz que a estranheza ainda é maior quando agora sabe que «em 2016, foi feito um relatório a alertar para o perigo real que os túneis corriam e o senhor engenheiro Rui Marto [na altura vereador das Obras Públicas] tinha a obrigação de intervir e nada fez e agora vem de forma despropositada colocar em causa um trabalho que procura preservar vidas humanas». Para Eduardo Amaral «o concelho só pode avançar com cidadãos ativos e participativos e isso será difícil enquanto existirem velhos vícios de política demagógica que acabam por contaminar a sociedade», sublinha revoltado.

Amaral diz que o atual executivo desconhecia o relatório e só soube quando algumas empresas disseram que nesse ano já tinham sido contactadas para o mesmo efeito. «Se tivéssemos sabido antes, tínhamos intervindo de imediato como é nossa obrigação», assegura.

Esta intervenção, orçada em 39 864 euros (mais IVA) começou a ser preparada há cerca de dois meses, mas o autarca garante que «antes disso, quando houve a noção do perigo de derrocada foram colocadas placas de aviso que foram sistematicamente arrancadas, não conseguindo perceber se por puro vandalismo ou, como diz, «para nos colocarem em causa e deixar que as coisas acontecessem». «Nada foi escondido, não precisamos disso e muito menos nos socorrermos, como desculpa, de algo que nos deve unir a todos [a “luta” contra o COVID-19] e onde Porto de Mós está a ter um atitude exemplar a nível nacional e a fazer o que poucos fazem», conclui o vice-presidente da Câmara.