Zita Santos, natural do Alqueidão da Serra, venceu, em conjunto com Carlos Ribeiro, o Prémio Piloto do Consórcio Global para a Longevidade e Igualdade Reprodutiva. Esta distinção garante, assim, aos dois investigadores da prestigiada Fundação Champalimaud um financiamento de 200 mil euros por um período de dois anos. O projeto, o único distinguido em Portugal, visa «tentar perceber de que forma é que o declínio reprodutivo [na mulher] está relacionado com a alteração a nível metabólico das células».

Recorrendo à mosca da fruta, um organismo muito utilizado em trabalhos de investigação científica, Zita Santos e Carlos Ribeiro, procuram entender «se durante o envelhecimento, existe uma alteração no metabolismo das células reprodutoras e é isso, em parte ou totalmente, que está por trás do envelhecimento reprodutivo», ou se «ao alterarmos a dieta de forma a manipular este metabolismo, podemos reverter este processo de envelhecimento reprodutivo», explicou a investigadora alqueidanense ao nosso jornal.

Partindo do pressuposto de que «com o envelhecimento, existe um declínio reprodutivo a partir dos 35 ou 40 anos, que leva à diminuição da fertilidade, quer por maior dificuldade de engravidar, quer por maior risco de problemas durante a gravidez e de desenvolvimento do feto» e tendo por base estudos já realizados pela sua equipa, Zita Santos adianta que estão «interessados, sobretudo, no mecanismo de açúcares», pois já conseguiram detetar «um impacto substancial no processo reprodutivo». Depois de obter resultados, o que se pretende é «utilizar isso para poder fazer tratamentos com dieta e tentar reverter, parar ou desacelerar este processo», dando «possibilidade às mulheres de poderem reproduzir-se até um bocadinho mais tarde».

“Oportunidade muito boa” pode “abrir portas”

Zita Santos considera que o prémio agora atribuído é «fantástico a vários níveis»: «Primeiro, porque é muito difícil conseguir obter financiamento por parte de fundações externas à Europa, por isso, logo à partida, foi muito reconhecedor»; depois, «para mim, é particularmente interessante porque estou numa fase da minha carreira em que começo a pensar em dar o próximo passo que é ter o meu próprio laboratório e o meu próprio grupo de investigação», adianta. De acordo com a investigadora, este prémio pode «abrir portas» para que possa iniciar os seus «próprios projetos e ser um bocadinho mais independente». É uma «oportunidade muito boa», não só «pelo prestígio», «mas porque pode abrir portas a uma investigação muito interessante, que pode vir a ter impacto».

A investigação arrancou no mês de agosto, e Zita Santos garante que o grupo de trabalho está a «dar tudo por tudo para fazer aquilo a que se propôs». «Estamos confiantes de que vai correr muito bem», afirma.

Trabalho desempenhado até aqui é a base

Há vários anos que o trabalho da equipa em que Zita Santos está inserida tem por base «perceber como é que decisões alimentares são controladas», ou seja, «como é que um animal decide comer determinada comida e que fatores é que influenciam essa decisão». No caso particular da alqueidanense, o seu objetivo tem sido «perceber como é que diferentes órgãos ou tecidos no nosso corpo, podem influenciar estas decisões». «Nessa perspetiva, comecei a explorar se o sistema reprodutivo tem algum impacto nestas decisões alimentares», esclarece. Foi então que, depois de gerar «mosquinhas da fruta estéreis», percebeu que «quando não têm sistema reprodutivo, mudam o seu apetite e deixam de gostar de comer açúcar». Essa descoberta, «a mais interessante», deu origem a um artigo, que está «em vias de ser publicado numa revista internacional» e que «foi a base do projeto» com que se candidataram ao financiamento.

Zita Santos revela ainda que, «num contexto um bocadinho mais geral, este trabalho pode ter um impacto ainda maior porque este processo de alteração de metabolismo, que acontece nas células do sistema reprodutivo, é exatamente o mesmo mecanismo que existe em algumas células cancerígenas, para que elas se consigam proliferar e gerar um tumor». Significa, então, que este trabalho pode ajudar «a perceber um bocadinho melhor o que se passa ao nível da formação dos tumores».