O título deste texto não é meu. Duvido que o tenham escutado em direto, no seu momento inaugural, quando, pelas sete da manhã de 29 de fevereiro de 1988, Emídio Rangel abriu as emissões regulares da TSF anunciando: “Por uma boa história vamos ao fim da rua, vamos ao fim do mundo”.

Na verdade, a primeira vez que as ondas hertzianas da Telefonia sem Fios cruzaram os céus foi em 1984, numa emissão pirata realizada na Grande Lisboa, que levaria os governantes de então a abrir o espetro radiofónico a projetos privados e a criar a primeira Lei da Rádio. Pouco mais de um ano antes, faz hoje 38 invernos, publicava-se o número um d’O Portomosense. Mais tarde, viria a unir-se à Rádio Dom Fuas, na CINCUP. Ainda estava para nascer quando isto aconteceu, mas sinto-me ligado a estes e outros projetos de comunicação social pela inspiração que me dão. Nasceram como projetos coletivos, com ânsias de informar e responder aos interesses das comunidades onde se inserem, com ganas de questionarem as suas realidades.

Tenho a felicidade de trabalhar num projeto com um espírito semelhante. O Fumaça é um órgão de comunicação social independente, progressista e dissidente que aposta no jornalismo de investigação em áudio, feito com profundidade e tempo para pensar. Todos os nossos trabalhos são distribuídos em podcast e podem ser ouvidos, gratuitamente, em www.fumaca.pt, no Spotify ou em qualquer aplicação para ouvir podcasts.

Somos um coletivo horizontal, sem fins lucrativos e consideramos que o jornalismo é um bem público e deve ser acessível a toda a gente. Não o vemos como um negócio. Por isso queremos criar o primeiro órgão de comunicação social nacional totalmente financiado diretamente pelas pessoas. A nossa força reside numa comunidade de mais de mil pessoas que, todos os meses, contribuem para o projeto e acreditam no nosso trabalho.

Vejo muitas semelhanças entre isto e o que me (e a tanta outra gente, muita dela emigrada) faz assinar O Portomosense. Não só quero saber o que se passa na minha terra, como quero que o Jornal continue vivo, a fazer jornalismo e com capacidade para dar trabalho e condições laborais dignas aos seus profissionais.

Sei que são raras as redações onde os jornalistas orientam e gerem os seus locais de trabalho, como acontece no Fumaça. Mas é esse modelo – os das cooperativas e associações; do envolvimento da comunidade nas decisões editoriais; do trabalho apoiado nos leitores, apesar dos interesses particulares de cada um – que salvará o jornalismo. Ir ao fim da rua e ao fim do mundo é algo que um jornal local ou um projeto de investigação fazem muito melhor que uma televisão. Bem sei que uma parte substancial das pessoas se informam pela TV, às 20 horas. Mas saibam que muitas daquelas notícias foram investigações de outros jornais em papel, revistas e rádios locais. As TV’s ilustram uma realidade que é filtrada, tantas e tantas vezes, por meios regionais, por jornalistas anónimos e redações com poucos meios e recursos. Outras vezes, são meras reproduções dos grandes diários nacionais, que investiram o tempo e o labor dos seus jornalistas em investigações copiadas e animadas com imagens de arquivo. Por isso, sem bons jornais, revistas e rádios – nacionais, regionais ou locais – há pior televisão.
A esse propósito, que boa notícia foi o regresso do Diário de Notícias à sua edição diária em papel, no passado 29 de dezembro, dia do seu 156.º aniversário. Que o noss’ O Portomosense chegue lá.

Assine-o, ofereça uma assinatura, compre-o em banca. Mesmo nesse futuro longínquo, continuará a ser preciso ir ao fim da rua ou ao fim do mundo para contar o que se passa por Porto de Mós e entre as e os Portomosenses.