Início » “Ir dormir para o carro foi a única solução que me restou”

“Ir dormir para o carro foi a única solução que me restou”

17 Abril 2023
Isidro Bento

Texto

Partilhar

Isidro Bento

17 Abr, 2023

Depois de, há 15 dias, lhe termos dado a conhecer o caso do homem que, desde há mais de um ano, dorme no interior de um carro, em Alcaria, hoje, damos voz ao próprio. À terceira tentativa encontrámos, finalmente, o protagonista principal de uma história que tem dado que falar.

Luís Jesus tem 62 anos feitos há pouco, é natural de Lisboa mas reside há quase 25 anos no concelho. Encontrámo-lo na esplanada da Taberna do Moleiro, em Alvados, e corresponde por inteiro à descrição que nos tinham feito dele: «Simpático, bem falante, vivido e com alguma bagagem cultural». De pronto aceita falar-nos deste ano e meio que já leva de pernoita no interior de um carro que há muito deixou de ter condições para circular, paredes meias com a última casa onde morou. A conversa será interrompida várias vezes para responder a quem entra no movimentado café, quase à hora de fazer as pazes com o estômago, e o cumprimenta de forma calorosa, e uma outra para pedir um cigarro: «Este era o último mas vou buscar ao carro. Fique lá com mais um…», insiste o interlocutor.

Chegado há 23 anos, Luís Jesus, teve como seu primeiro patrão, «Luís Beato, do Livramento». «Com a ida deste para o estrangeiro», encontrou trabalho junto de Joaquim Jorge, de Alcaria. O novo patrão deixou-o morar «numa casinha», mas, depois, a empresa entrou em dificuldades e colocou-o «a viver no estaleiro numa barraca» que arranjou à sua maneira. Mais tarde, a relação entre os dois degradou-se, o que levou Luís Jesus a ter de procurar outro sítio para ficar. Uma pessoa de Alcaria disponibilizou-lhe uma casa devoluta. Nessa altura «já só fazia biscates», e terá avisado que «não conseguia pagar nem renda nem luz», facto que o proprietário terá aceitado com a condição de ir cuidando da manutenção da casa. Entretanto, o senhor faleceu e a esposa terá começado a exigir o pagamento da luz, o que Luís assegura que «ia fazendo todos os meses mas nem sempre no mesmo dia por não ter dinheiro».

“Há pessoas a viver pior que eu”

Novo desentendimento, nova saída, desta vez formalizada numa ação de despejo. «Como sou pobre e não tinha como pagar a um advogado as coisas ficaram assim», afirma. «Quando fui para lá eram só paredes, teto e chão. Pessoas de Alcaria deram-me mobília de quarto e de sala, sofás, tudo. [Na sequência da ação de despejo] Tirei a minha roupinha melhor, algumas ferramentas e o resto ficou lá. A única solução que tive foi ir para o carro e lá estou desde setembro de 2021», conta.

E não tinha nem tem outra hipótese? «Não, é impossível. É claro que eu gostava de estar numa casa mas não há habitação social. Querem pôr-me numa instituição que acolhe toxicodependentes em recuperação, mas eu não tenho vida para isso nem me dou com essa gente. Gosto dos amigos, estou aqui há mais de 20 anos e não vou abandonar os meus animais», diz de imediato.

«Há pessoas a viver pior que eu, debaixo de uma varanda num caixote. Ali, pelo menos não chove nem faz frio. No verão, por causa do calor, apenas posso entrar tarde mas também só vou ao carro para dormir. Tenho um candeeiro de luz pública à frente e outro atrás. Aí a uns 20 metros, tenho uma fonte com água e cá em baixo o lavadouro onde posso lavar a roupa e tomar banho. No inverno, tenho amigos que, de vez em quando, me deixam ir a casa deles. De qualquer forma também só quando estou a trabalhar é que me sujo», reforça.

«Então, e dormir num carro, sem condições, não “mexe” consigo e com a sua autoestima?», questionamos. «Não, não mexe nada comigo em termos psicológicos, tenho uma mente muito forte», diz.

“Não posso trabalhar por falta de transporte”

Voltando às razões que o mantêm ali, afirma que «é impossível ir para um quarto». «As doutoras e a delegada de saúde já tentaram, mas é impossível. Estou a receber 189 euros de Rendimento Social de Integração e um quarto custa 200 e tal euros. A Segurança Social paga-me os dois primeiros meses, mas e depois os outros, se só faço biscates? Enquanto o carro andou, ainda trabalhei em várias empresas, mas a partir daí só biscates desde limpeza de matos, construção civil, até pastar gado. Há pouco andei na batata e no cebolo», refere.

Não tendo ainda atingido a idade da reforma e aparentando estar bem de saúde, Luís Jesus justifica o facto de não ter um emprego por falta de transporte. «A camioneta mais cedo é às 7h45 no tempo de aulas e às 9h27 nas outras alturas, ora, qual é a empresa que quer que eu comece a trabalhar às 10 da manhã? E depois para vir para casa ao final do dia?», pergunta. Então, e o lugar que estava disponível na Junta? «Concorri sim senhor, e sabe o que aconteceu? Deram-me um papelinho a dizer que não tinha qualificações para trabalhar com uma pá e uma picareta e com uma máquina roçadora, que é o trabalho que eu melhor faço…», revela.

Com tão fracos recursos económicos, Luís Jesus diz que as principais refeições são, por norma, feitas em Alvados, umas vezes oferecidas por amigos, outras como pagamento de algum biscate que tenha feito, e que só consegue manter os seus cães e gato graças a «um padrinho». «Tanto o cão como o gato estão esterilizados e comem outra ração e então quando preciso para eles ou para as duas cadelas, ligo-lhe e ele traz», conta. Por sua vez, «um veterinário natural de Porto de Mós» tem-lhe «deixado pagar todos os meses, conforme as possibilidades» sempre que necessitam de cuidados diferenciados. As restantes compras são feitas num dos minimercados «e pagas no final do mês». Já o telemóvel foi-lhe «oferecido depois de uns biscates» «pelos quais não quis pagamento», justifica. Como nas bombas de gasolina e nos dois cafés onde passa boa parte dos seus dias há wi-fi, não tem despesas com a internet, adianta.

“Nunca fui violento fisicamente”

E como é a sua rotina diária? «A primeira coisa que faço é soltar o gato que dorme comigo e com o cão. Dou-lhe de comer e às cadelas. Depois arranjo comida para este e ponho-a nesta mochila com uma vasilha de água. Vou à fonte lavar as mãos e como uma buchinha (tenho um frigorífico velho mas só serve para guardar o pão e alguma coisa que não se estrague). Depois venho por aí fora, paro nas bombas para beber um café e fico por aqui ou pelo café do Alto de Alvados. O telemóvel está sempre ligado, se me chamarem para trabalhar, vou. Só volto a Alcaria para dormir», descreve.

Luís Jesus garante que não incomoda ninguém, nem ninguém o incomoda. Frisa ter boas relações com os vizinhos, mas não revela surpresa quando o confrontamos com as queixas de alguns alcarienses. Garante que nunca agrediu quem quer que fosse e que as únicas vezes em que foi violento verbalmente foi com uma pessoa lhe terá furtado «umas botas» e outra, «uma bicicleta». Quanto ao carro, «a GNR já lá foi várias vezes e esteve a medir e, de facto, está a ocupar 50 centímetros de alcatrão mas ainda tem quatro metros para o lado. Passa bem qualquer carro, inclusive, «um camião que às vezes um dos vizinhos traz para casa. Além disso, é uma estrada rural», sublinha para justificar que apesar dos protestos, o veículo continue ali parado, em contramão e num estado degradado e sujo.

E o futuro? «Bem, o futuro deverá ser igual ao presente. Não estou a ver outra solução. Não há nenhuma hipótese», responde conformado com a sua nova vida.

Fotos | Isidro Bento

Assinaturas

Torne-se assinante do jornal da sua terra por apenas: Portugal 19€, Europa 34€, Resto do Mundo 39€

Primeira Página

Publicidade

Este espaço pode ser seu.
Publicidade 300px*600px
Half-Page

Em Destaque